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Jaime Ambrósio

Jaime Ambrósio é jornalista e escritor. Venceu duas vezes o Prêmio Cruz e Souza de literatura, na categoria contos, o que lhe rendeu a publicação dos livros pela FCC. Durante três anos e meio foi colunista do caderno Variedades/Diário Catarinense.

Sexta-feira, 30.09.2016 FAROL E OUTRAS CURTINHAS

PÁ E BOLA
- Mestre, o que veio primeiro, o político ou o corrupto?
- O político, que, na falta do que fazer, logo criou a corrupção.
- No Brasil?
- Não, em outro lugar, em outra época. Aqui ela apenas foi aperfeiçoada.
***
FAROL
- Pai, agora é obrigado dirigir com luz acesa de dia, né?
- Sim, é lei.
- E de noite, pai?
***
NO BAR
- A Clotilde, compadre, vive me chamando de bêbado. Eu não ligo, porque se eu disser a verdade pra ela, que sou apenas um apaixonado pela cerveja, ela me mata, porque é uma mulher danada de ciumenta.
- Se eu disser isso pra Eunice, sabe o que ela vai me responder? “Que bom! E não dá pra você sair de casa e ir morar no boteco?”
***
UMA VOLTANDO DA ACADEMIA, CANSADA; OUTRA INDO PRA PRAIA, ESNOBE
- Miga, eu li uma matéria dizendo que academia não ajuda emagrecer, não. O que emagrece, na verdade, é ficar com a boca “fechada”.
- Então faz isso, “miga”, cala a boca! E olha pra tua barriga!
***
POLITIQUICE
- Depois disso tudo, dessa turbulência maluca, você acha que o Brasil ainda tem jeito?
- Sim, claro: o jeito do Brasil. 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:35 | Marcadores: Boteco   Esnobe   Barriga  

Sexta-feira, 15.07.2016 Quitando dúvidas

Se no comércio em geral há programas para o cidadão inadimplente quitar suas dívidas, perdoando-lhe juros, parcelando os débitos, etc, também há quem tente fazer algo parecido, como o malandro que mudou a grafia de uma palavra-chave em proveito próprio.
O sujeito aproveitou um espaço frontal da casa onde morava, como se fosse mais uma igreja de esquina, e colocou uma grande faixa na entrada: “ÚLTIMOS DIAS PARA QUITAR DÚVIDAS”. Quitar dúvidas? Sim, dúvidas existenciais, dúvidas de qualquer natureza.
Sobre o amor.
- Zé Zen, o Zaroaldo me deixou por outra, quequeu faço da vida?
-Arrume outro, filha, que a vida não para. E deixa um incentivo ali na caixinha.
Sobre a crise.
- Se pago o mercado, falta pro boteco; se devolvo o que emprestei, não sobra nada. Que faço, Zé Zen?
- Paga um pouco pra cada um, e bebe menos, homem! Não esquece da gorjeta ali.
Sobre a locomoção.
- Queria comprar uma moto, mas pra isso teria que vender o fusca; mas o fusca é bom quando chove...
- Fica com o fusca, economize e compre uma bicicleta usada. E molha a mão do velho...
Até que chegou uma mulher que Zé Zen “demorou um pouco pra reconhecer”.
- Vim aqui quitar uma dívida.
- Um dúvida, a senhora quis dizer? Olha a faixa na entrada!!
- Não, é dívida mesmo, do aluguel que o senhor me deve há seis meses, e agora aqui, tranquilamente juntando uma grana pra se mandar! Olha lá fora a viatura da polícia, seu pilantra!
- E agora, quequeu faço? – ruminou o Zé Zen, em dúvida e na dívida. 





Postado por Jaime Ambrósio às 18:14 | Marcadores: Zaroaldo   Dívida   Locomoção  

Quinta-feira, 26.05.2016 Pedaladas, relação e politiquês

De tanto embate no Congresso, MPF e STF, o povo acabou conhecendo alguns termos nunca dantes navegados, palavras esquisitas que despertaram a atenção. Tanto que alguns até incorporaram os termos na conversação diária. É o caso de Vilma e Paulo, advogados que precisavam discutir a relação, já um pouco desgastada pelos vícios, quietudes e explosões.

- Vilma, vou sair, o grupo da base de apoio me espera pro futebol suíço. Volto mais tarde.

- Que decisão monocrática é essa, Paulo? Por acaso faltou quórum? Esqueceu que somos dois no plenário desta casa, na sala, na cozinha, no quarto?

- É, sem contar que às vezes tem a tua mãe, na sala, na cozinha, no telefone. Mas que regimento interno é esse, Vi? Não posso procrastinar o jogo de hoje só porque você quer discutir algum projeto pessoal casuístico. A pauta da noite é outra pra mim.

- Ah é? A gente não ia jantar fora hoje? Não era essa a ordem do dia, “presidente”?

- Ah, você quer que tudo acabe em pizza, isso? Esqueceu das tuas pedaladas sábado à tarde na Beira Mar, sem me comunicar?

- Meu Deus!, que crime de responsabilidade eu cometi? Fique sabendo que todo mundo pedala, não tem nada demais nisso. Preciso de um habeas corpus? Ou você quer que eu renuncie? Quer o meu impeachment? Fala! Eu desço a rampa da garagem e vou pra casa da mãe. Depois a gente discute a dotação orçamentária. Mas olha só: o recesso não vai te fazer bem!

- Também não é pra tanto, Vizinha.

- Vizinha?

- Não, não! É apenas o diminutivo de Vilma, de Vi, que já é diminutivo. É carinhoso. Escuta, vamos fazer uma composição, sem medida provisória, sem audiência pública ou lobby da sogra. Assim, olha: eu vou pro meu futebol suíço, você pode pedalar, mas de agasalho, por causa do vento...

- Paulo Eduardo, assim, olha...

Ou seja, iria longe a sessão. O autor da crônica encerra os trabalhos. 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:43 | Marcadores: Dotação Orçamentária   Vizinha   Pizza  

Terça-feira, 26.04.2016 As pitangas


O seu Everaldo, viúvo aposentado, roubava pitangas da dona Flores, que tinha a mesma situação social que ele. A pitangueira ficava no quintal, mas alguns galhos avançavam por sobre o muro, invadiam o céu da calçada. Seu Everaldo, finalzinho de tarde, passava por ali e se esticava todo para colher umas frutinhas. Às vezes era difícil, então ele apanhava as que caiam no chão mesmo. Dona Flores só observando da janela. Então um dia ele viu que ela o viu. Seu Everaldo sentiu uma grande cacofonia no estômago.
Decidiu que ia continuar passando por lá, na caminhada diária, mas sem pegar pitangas. Mesmo assim olhou para a pequena árvore, por força do hábito. Eis que, pendurado num galho, havia um saquinho plástico com uma dedicatória: “Para o Everaldo, com estima. Dona Flores”. Dentro várias pitangas vermelhas, suculentas, convidativas. Aliás, uma pitanga, dizem, vale por várias laranjas, em termos de vitamina C, e previne um monte de doenças, inclusive a osteoporose.
Concluindo: os dois agora moram juntos, juntaram seus desejos. E o quintal da casa se encheu de pequenas pitangueiras, que vão crescer, dar frutos...
Aliás, pitanga aguça o amor, como ficou provado. Uma simples pitanga bem intencionada, parece, vale por mil palavras açucaradas. 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:57 | Marcadores: Pitangueira   Suculentas   Cacofonia  

Segunda-feira, 28.03.2016 O vinho e a academia


Pois navegando na Internet, coisa que fazia de quando em quando, o pacato e sedentário Valdomiro se deparou com uma pesquisa pra cá de interessante. Dizia ela que uma taça de vinho tinto tem o mesmo efeito de uma hora de academia. Tudo por conta do tal Resveratrol, um elemento de boa índole, com poder antioxidante - entre outras coisas -, que habita a casca e a semente da uva. Valdomiro leu várias vezes a reportagem, pensou, pensou - e se decidiu...
Todo dia, finalzinho da tarde, lá ia o Valdomiro de agasalho e tênis... Pra quem perguntasse ele “confirmava”: estava fazendo...
ACADEMIA.
Ou seja, finalzinho da tarde, lá ia o Valdomiro... pro Bar do Valdir.
Naquele espaço consagrado aos levantadores de copos, onde ele sempre tomava uma cachacinha, agora bebia duas taças de vinho, o que corresponde, segundo a pesquisa, a duas horas de exercícios. Tá bom, né, Valdir 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:38 | Marcadores: Resveratrol   Reportagem   Sedentário  

Terça-feira, 22.12.2015 A tal gentileza no trânsito

No trânsito não há opções, há certeza, é preciso dirigir – o carro, os pensamentos, a vida. Embora nem sempre seja assim, muitas vezes os pensamentos é que nos direcionam, a vida é que nos determina. Mas não custa prestarmos atenção em uma coisa de cada vez, mesmo que seja preciso esforço para isso. Deixemos o resto pra depois, principalmente as dívidas e as dúvidas.
No trânsito há que se prestar atenção nas marchas, nos espelhos, na pista, nos carros próximos. Sim, há outras pessoas na via, todas com a mesma humanidade original. E por isso, exatamente por isso, precisamos ser gentis no trânsito, que em certas situações é um caos devidamente anunciado.
Que mal há em deixarmos alguém passar à nossa frente, em darmos a vez? São apenas segundos, e a vida é longa. Sim, tem os incautos, os imprudentes. Mas desses alguma justiça cuida, cedo ou tarde.
Gentileza, sim, gera o mesmo fruto, e pode evitar transtornos, dor no bolso, pode evitar algo trágico.
O trânsito é um grande teste, ele experimenta nossa paciência, nossa sabedoria, a capacidade de amar e perdoar, tudo em poucos metros de asfalto. Talvez a gentileza seja a maior prevenção contra a estupidez no trânsito! 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:53 | Marcadores: Paciência   Sabedoria   Estupidez  

Segunda-feira, 26.10.2015 A letra da cozinha

Tem muito adolescente que se perde por se achar, se achar demais. Sabe tudo, imagina tudo, quer tudo, mas pouco faz, a não ser ficar grudado no computador a maior parte do tempo livre. E conhece mil garotas, e fica com fulana, beltrana e Joana. Só que não, nem sempre é isso, puro papo. Mas os pais, muitos deles acreditam, e dão força: Eita, garoto!
Dona Claudete, viúva, decidiu intervir no mentirismo e no folguismo do filho.
- Aonde você pensa que vai, Carlinhos?
- Vou de plano B, a Bruninha, já que o plano A não deu certo, a Ana pegou um resfriado. Preciso de cinquentinha, mãe.
- Seguinte, não tenho condições de ter uma empregada, a vida não tá fácil, então, antes de mais nada, você vai encarar primeiro o plano C, cozinha. Lava toda aquela louça, porque eu caaaaansei de ser escrava de filho mandrião, folgado e que se acha. O buraco, agora, é mais embaixo, é o ralo da pia.
- Mãe, que violência é essa?
- Isso se quiser ganhar “trintinha” pra sair e voltar a meia noite. É a crise, garoto, reclama com a Dilma!
Ele na cozinha, pouca prática, muita preguiça. Pra piorar quebrou um copo e fez um talho na mão. Adeus balada.
Em compensação a Zuleica, filha da vizinha, veio lhe fazer companhia.
- Plano Z, filho? 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:31 | Marcadores: Trintinha   Beltrana   Cozinha  

Segunda-feira, 19.10.2015 Estradas, vinhos e pinguelas

A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.
Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, quatro adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.
Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.

- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.
Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houvesse nenhuma interferência física de elementos modernos, tudo ao redor seria, de fato, uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.
Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso pergunta se somos da cidade.
Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.
Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.
- Cadê as vaquinhas, tio? 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:12 | Marcadores: Canelinha   Milharal   Polenta  

Segunda-feira, 28.09.2015 Feijoada


Ela é milenar, pode não ter surgido no Brasil, mas, com certeza, é pra lá de brasileira. Ocorre que, fazer uma boa feijoada hoje em dia custa caro, muito caro, tanto que o Zé Naldo foi obrigado a entregar a bicicleta como pagamento pelos ingredientes na Mercearia do Vandão. Mas fez o rango, era promessa caso o Avaí ganhasse do Internacional. A tal da carne seca, vixe!, custa os zóio da cara, reclamou o Zé. E a costelinha defumada? E o lombinho?
Mas dá pra fazer feijoada de um jeito mais em conta. Quem explica melhor é a dona Izaldina, que além de saber cozinhar gosta de fazer piada.
- Quando tu fax surraxco, ô mô quiridu, num joga os osso pros cachorro, guarda no congelador, com um pouco de carne, num tem? Guarda também o resto das linguiça. Beico usa só um pouco, que é pra dá o gosto. Pele de porco é barata, calabresa compra só umas duas e carne fresca de porco meio quilo já chega.
- E num vai nada defumado, Izaldina?
- De fumado não, ô istepor, que cigarro faz mal pra saúde, ihihihihi! Mas vai cachaça.
- Cachaça? No início ou no fim?
- Depende do cozinheiro: ele bébi a hora que quisé, mas não muitcho, que é pra não ficá abestado. Já pensô se colocá pé de galinha no lugar de pé de porco? Ihihihi!... 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:51 | Marcadores: Beico   Zóio   Lombinho  

Quarta-feira, 22.07.2015 Vaquinhas, vinhos e pinguelas


A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.

Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, três adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.

Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.


- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.

Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Tudo passa, vai ficando para trás. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houver nenhuma interferência física de elementos modernos tudo ao redor é uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.

Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso perguntou se a gente era da cidade.

Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.

Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.

- Cadê a vaquinha, tio?

 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:18 | Marcadores: Agreste   Polenta   Pinheiral  

Segunda-feira, 06.07.2015 O dia que a Internet morreu

Foi assim, de repente, deixando o mundo a ver navios, mas também a ver outros portos e caminhos. No entanto, vamos esquecer Nova Iorque ou São Paulo para sermos universais na nossa aldeia, observando o caos na Rua das Gaivotas.
A menina bem menina Nanda, depois de algumas horas, desesperou-se, precisava combinar detalhes da festinha junina. Esqueceu que podia fazer isso por telefone, e saiu gritando pela rua.
- Socorro, alguém pode fazer alguma coisa? A Internet acabou!
Alexandre, que não era grande, mas tinha uma barriguinha proeminente, ficou num mato sem cachorro, porque os inimigos, umas raposas esquisitas, estavam prontas para dar o bote, no game.
Dona Isaura, sentada na varanda da casa, só ria assoprado e tossido – Ihihihihihih!!! Cof! Cof!
Marco, pra não pirar, ficou pensando em comida, e comendo o tempo todo.
Daniel dormiu longas horas, acordou e voltou a dormir longas horas.
Seu Tavares, que jogava com ele próprio no baralho virtual, ficou possesso, porque, depois de muito tempo, estava ganhando uma partida, de si mesmo.
Vítor perguntou ao pai se o mundo estava acabando.
Luisa, a mana que se metia em todas as conversas, disse O teu mundo, sim.
E a velhinha só rindo Ihihihihihihi!!!
Isaias da Rede. . . não, esse era de uma religião que proibia o uso do celular.
Mistral, que comprava de tudo pela Internet, achou muita sacanagem esse ato radical do terrorismo internacional. Justamente agora que descobrira um xampu da Eslováquia que custa mixaria?!
Mas, olha só, Fernanda, aquela menininha, descobriu que havia pássaros de verdade no Planeta, que havia tatuíras na praia, que havia conchas na areia ...
Alexandre visitou o zoo da cidade, viu bichos simpáticos, inclusive raposas.
Marco continuava com fome.
Daniel acordou de um pesadelo.
Seu Tavares jogou cartas na praça, conheceu outras pessoas e achou legal. Ah!, ganhou uma rodada de canastra!
Vítor descobriu que o (seu) mundo poderia estar começando .
Mistral conheceu feiras livres, brechós, lojas presenciais bem bacanas e baratas.
No dia seguinte, assim, de repente, a Internet voltou.
Parecia que fora apenas obra do destino, uma brincadeira, um teste para ver como esses humanos (des)ligados se comportariam, o que poderia mudar depois disso.
- Ihihihihihi! Cof! 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:56 | Marcadores: Nova Iorque   Zoo   Canastra  

Sábado, 27.06.2015 Zé mané fit

Dorival Augusto não quer nem saber de academia, “aquele lugar onde as pessoas vão pra dizer pras outras que vão”. E os filhos dele vão, a velhinha mãe dele vai, os vizinhos vão, o cachorro vai, quase todos vão. Um vai- vão sem fim.

Ele, no entanto, se diz um praticante dos exercícios ao léu, no caso, ao ar livre, chova ou dischova, com sol ou goteiras do Céu, vento súli ou qualquer vento. E é sarado (porque não tem doença, sarou de tudo, diz), tem massa magra no corpo, mas adora uma massa gorda de vez em quando, um macarrão daqueles, uma lasanha daquelas. Aposentado, ele levanta cedo, se arruma, toma um café puro e sai, assobiando uma das músicas que ouviu ontem.

Caminha a passos largos e rápidos, corre um pouco com pegadas leves, volta a caminhar, cumprimenta uns e outros, sobe escadarias, dribla obstáculos, muda o trajeto, vai até o Direto do Campo, ou à feirinha ali da esquina, compra sempre umas coisas, que separa em duas sacolas, pra dividir o peso. As sacolas funcionam como alteres na volta para casa.

Suco detox ele consome na forma sólida, a qualquer hora. O homem tá sempre comendo maçã verde, cenoura, laranja, mamão, abacaxi. Couve ele corta em tirinhas e faz salada. Líquidos? Claro, toma água normalmente, e uma cervejinha, um golinho de pinga pra se lembrar dos bons tempos, um copo de vinho que faz muito bem... Tudo orgânico, notem.

Se o Doriva sabe o que é Whey? Aquelas proteínas dissolvidas? Sabe, claro, mas diz que prefere tudo in natura, leite, carne, ovos, soja. Soja?

Não tem personal trainer, mas acompanhamento médico sim, ou seja, do cardiologista, um irmão que sempre liga pra saber como está a pressão alta, e que o visita regularmente pra fazer uma avaliação “in loco”. Tudo certo, mano, és um cavalo, mas devagar com o álcool, bem devagar. E ele, Dorival Augusto, sorri que nem um garoto.

É famoso na redondeza por esse estilo largadão de vida, o que preocupa um pouco os donos da academia da rua - vai que isso pega? Por isso a Claudete, uma das proprietárias, ofereceu-lhe academia grátis, é, uma cortesia para ele, uma pessoa tão popular. Que tal, seu Dorival?

Bonita essa Claudete e, dizem, descompromissada. O viúvo Dorival Augusto disse que iria pensar no assunto. Quem sabe a academia não pudesse lhe ser útil nos dias de muita chuva? E como chove por aqui! Afora isso não deixaria de fazer as caminhadas ao léu, de jeito nenhum. Ficou de pensar no assunto...
 





Postado por Jaime Ambrósio às 10:17 | Marcadores: Personal Trainer   Cardiologista   Súli  

Terça-feira, 24.03.2015 O sabe-tudo

Ele pode estar num grupo de amigos, no trabalho, na academia ou na própria família, esta árvore híbrida carregada de penetras. Não gosta de escutar, porque é de sua essência falar, falar muito, como se os seus interlocutores tivessem, de fato, dois pinicos no lugar dos ouvidos. Muitas vezes ele nem deixa você completar uma frase:


- O governo Dilma...
- O problema é que as águias famintas lá do Congresso estão se aproveitando da situação. Eu acho o seguinte...

O sabe-tudo tem a capacidade de discorrer sobre os mais variados assuntos num fôlego só, como se soubesse tudo com muita propriedade. Fala de terrorismo e de cerveja; de futebol e criação de avestruz; de carros modernos e efeito-estufa; de economia, política e atrizes da Globo. Mas na verdade é pouco dado à leituras aprofundadas, sustentando-se, no mais das vezes, em opiniões elaboradas à partir de idéias de terceiros, ou de textos rápidos da Internet. Quem lhe dá trela é porque ainda não o conhece direito; quem o conhece procura despistá-lo, saindo de fininho.

Numa dessas, num encontro em comum, as vítimas de um sabe-tudo resolveram adotar uma estratégia de sobrevivência: o rodízio da paciência. Cada um ficava durante 10 minutos ouvindo as lorotas do língua-solta. Passado esse tempo outra pessoa assumia a ingrata função. Porque o sabe-tudo precisa de alguém dando-lhe corda o tempo todo.

Porém, tem um tipo de sabe-tudo ainda mais nocivo aos tímpanos dos seres comuns: o do contra. Qualquer afirmação, sobre qualquer tema, provoca nele uma imediata e sonora negação:

- Que interessante! As baleias francas vêm ao litoral do estado pra amamentar os filhotes...
- Mentira. Elas vêm pra cá porque fogem dos caçadores....


Aí temos duas coisas: ou você concorda com a versão do sujeito, apenas para se livrar dele, ou encara uma longa e tenebrosa discussão. Pois um índio velho, gremista de nascença, decidiu enfrentar o sabe-tudo do contra, que era, por sua vez, colorado desde outras encarnações. Mas o assunto nem era futebol e sim, e novamente, a famigerada política.

- A Dilma sabia.
- Não sabia...

No caso o churrasco em questão foi numa sexta-feira à noite. No sábado à tarde os dois ainda continuavam discutindo, enquanto roíam os ossos de um costelão.
 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:04 | Marcadores: Terrorismo   Lorotas   Efeitoéstufa  

Quinta-feira, 05.03.2015 O abraço

 
O homem carrancudo lia um livro sentado num banco do parque, rodeado de silêncios, ruídos e árvores.Uma mulher se aproxima e o interrompe:
- Desculpe, mas queria lhe pedir um favor.
- Pois não?
- O senhor podia me abraçar? 
Dessas coisas que geram surpresa, um certo espanto...
- Posso..., sim.
E a abraça, e demora um tempo aquele gesto, como se nenhum dos dois quisesse se desenlaçar. 
- Obrigada, eu precisava disso.
Ele nada fala, sorri como se gargalhasse, abandona o livro e tenta seguir a mulher, que havia se embrenhado numa trilha, como uma bruma, algo que se desfaz... Não a encontra. Encontra a si...
Um abraço. 
Dessas coisas simples de que é feita a vida...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:13 | Marcadores: Trilha   Abraço   Desenlaçar  

Sexta-feira, 12.12.2014 NATAL SE... (Ao jeito de Rudyard Kipling)


Se, em meio à corrupção que te rodeia ou te provoca, não fizestes do teu caráter ou do teu voto uma moeda de troca;
se enriquecestes, mas com teu esforço e suor, não com as benesses do Poder;
ou se preferistes ficar apenas com o necessário, para não perderes a dignidade;
se, com tantas razões aparentes para tal, não virastes ladrão ou homicida;
se, na dor de um irmão, sentistes a mesma dor e procurastes um alívio para ele;
se não descartastes no rio o plástico de teu consumo, o veneno do teu corpo;
se respeitastes o Planeta, como a teu pai e à tua mãe;
se, com tanta violência extremada não perdestes a calma e a fé,
se fizestes do amor uma prática, não apenas uma palavra de confete,
então tu terás RENASCIDO aqui na Terra,
merecendo, assim, mais do que os outros, um FELIZ NATAL. 





Postado por Jaime Ambrósio às 19:08 | Marcadores: Renascido   Planeta   Irmão.  

Quarta-feira, 26.11.2014 Parábola do carro sujo

Marinalva entendia que certas coisas não mudam mesmo, e que insistir nisso é besteira. Por exemplo, o João Pedro, marido dela. Sempre o mesmo, de segunda a domingo; a única diferença é que nos fins de semana ele fazia churrasco e jogava baralho. No mais tudo era igual naquela casa, até o canto do passarinho na gaiola. Estava acostumada a Marinalva. Mas aconteceu o caso do carro, um certo milagre.

O carro de João Pedro não sabia o que era banho há muito, muito tempo. Parecia estar sempre voltando do rally dos sertões. Numa sexta-feira eles três (conta-se também o carro) foram fazer o rancho quinzenal. Na porta de entrada do supermercado João Pedro lembrou que deixara o celular dentro do automóvel. Voltou. A mulher prosseguiu. Então um homem de barba e cabelos compridos perguntou se João não queria lavar o carro. Lavar? Como assim? Lavar, senhor, por fora e por dentro, encerar, polir, dar brilho. Não demoraria mais do que 45 minutos, o tempo das compras. João Pedro ficou calado por alguns segundos, olhando para o carro e refletindo sobre o sentido da vida na terra... Respondeu que sim, que o homem poderia lavar o carro.

Uma hora depois apareceram com as compras.

- João Pedro! Roubaram o nosso carro!
- Não, não roubaram.
- Roubaram! Tem outro no lugar, novinho.
- Não. É o nosso. Olha a placa.
- ?
- Eu só mandei lavar, só isso.
- O que houve com você?


***


Em casa ele ajudou a guardar as compras, coisa que Marinalva sempre fazia sozinha. Depois disse que a janta seria dele, uma receita da mãe.

- Tem certeza que você está bem, João Pedro?
- Sabe o homem que lavou o carro, aquele que eu dei o dinheiro?
- Sei.
- Acho que era Jesus Cristo.
- Ah é?... (quase engasgando com a ameixa) E por quê?
- O jeito dele. Ele falava através de parábolas, como na Bíblia. Eu compreendi que, naquele instante, lavar o carro por fora e por dentro era um aviso de purificação. Ou seja, é preciso limpar não apenas a sujeira do corpo, mas também a da alma, a sujeira interna. Talvez esteja me faltando isso.
- Um banho? Com certeza. Mas vê se não faz lambança no banheiro.
- Eu falo da alma, mulher. Acho que preciso mudar.
- ?... (“Aquele livro do Augusto Cury não fez bem pra ele.”)

Marinalva e o ponto de interrogação. E se João Pedro continuar com esse papo estranho? E se essa coisa ficar ainda mais séria? E se ele quiser entrar praquela Igreja da gritaria? E se disser que sexo é só pra procriação? E se cortar a TV Cabo?

- Você não precisa mudar nada, meu bem. Assim tá bom. Senta aí que eu preparo um uísque. Ah, a Neuza avisou que ela e o Valdir vão chegar um pouco mais tarde pro jogo de canastra. Eles vão trazer vinho que compraram lá na serra gaúcha...





Postado por Jaime Ambrósio às 10:25 | Marcadores: Rally   Rancho   Augusto Cury  

Sexta-feira, 17.10.2014 Na cela


Sim, de um lado a justiça é benevolente (com políticos, por exemplo); de outro, draconiana (com ladrões de galinha, por exemplo). Mas também é fato que todo preso acha injusta sua condenação, julga que não devia estar numa cela, que a culpa é do Sistema e tal. Zé Playboy, como era conhecido, mal chegou à nova morada e já foi perguntando sobre o porquê de os colegas inquilinos estarem ali, trancafiados.
O primeiro:
- Disseram que eu matava, mas, na verdade, eu apenas apontava o revólver e puxava o gatilho...
O outro.
- Disseram que eu roubava, mas, na verdade, eu apenas subtraia produtos de quem tinha mais do que eu. Mas, e você, colega?
E assim respondeu o Zé que chegou:
- Disseram que eu cometia adultério, mas, na verdade, eu apenas... Quero dizer o seguinte, companheiros: Que culpa tenho eu se a minha cunhada é gêmea da minha mulher, idêntica à Lurdinha? 





Postado por Jaime Ambrósio às 17:52 | Marcadores: Injúria   Gatilho   Gêmea  

Segunda-feira, 06.10.2014 As pesquisas


Ovo fazia mal, agora faz muito bem, principalmente a clara, que tem bastante proteína e não engorda. Leite faz bem, faz mal, dependendo das intenções, das pesquisas. O álcool faz mal, em excesso, porque um pouquinho, faz bem, justamente pra ele, o coração. E o que dizer do café? Uma hora é mocinho, outra hora bandido. Whey faz bem, principalmente pra indústria, mas faz mal pro bolso do consumidor. Aliás, dinheiro faz bem, ou mal, é uma feijoada na consciência. De qualquer maneira antes de comer alguma coisa parece que a moda é consultar o Google, como faz a Isadora, divorciada, mãe da Lurdinha. Porque sempre tem uma pesquisa, uma nova “verdade” sobre os benefícios dos alimentos.
- Filha, eu li agora que beber água demais não é bom pra saúde, pode provocar uma tal de hiponatremia, dá tontura, confusão na mente...
- Mãe, eu só bebo de dois a três litros, não bebo uma piscina por dia.
- Lurdinha, você não vai se arrumar pra sair? Esqueceu que é quarta-feira? O Paulinho deve chegar daqui a pouco pra te pegar.
- Mãe, o Paulinho faz mal pra minha saúde.
- Como, filha? Vocês estavam tão bem.
- Mas hoje fiz uma pesquisa no Face, descobri que ele saia com a Júlia. A Júlia, mãe! Minha melhor amiga. Sabe, o amor faz bem, desde que seja correspondido. Vou sair, sim, mas é na direção do McDonalds, me empanturrar de hambúrguer e batata frita, que fazem bem pra cabeça.
- Mas a gordura trans e a saturada... Perai, filhinha, vou ver aqui na internet se tem alguma novidade...
- Dona Isadora, porque a senhora não começa a sair com um nutricionista, um nutrólogo, um médico, enfim, pra esquecer um pouco o Google?


 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:27 | Marcadores: Hiponatremia   Saturada   Internet  

Segunda-feira, 16.06.2014 E raiou o dia na Lagoa


Num bar da Lagoa o homem bebe outra cerveja e naufraga nos acordes dilacerantes de uma música de dor e morte. Depois o cantor-assassino descansa o violão certeiro, deixando um silêncio de mar invadir o ambiente quase vazio. É quase noite terminada: lá fora o pescador prepara a rede. O homem no bar, que é um poeta não-publicado, se deixa transformar em versos no guardanapo indiferente. Fala de si como se falasse de outro:

No afã do beijo que não houve
engoliu cada palavra, ali na mesa de bar,
como se o desejo fosse uma mistura
de lúpulo, álcool e vogais.
Diluiu-se a cena tantas vezes imaginada,
restou o drama
do instigante teatro da procura.


A mulher saiu do bar com o coração talhado ao meio. Algo indefinido a deixara refém do presente-passado, mas uma nova emoção lhe surgia. Deparara-se com aquele homem solitário que a dissecou lenta e completamente. Olharam-se a mais não poder, sobrecarregaram-se de perguntas caladas.


Olhos são pontos de luz
que se procuram
em mesas de bar,
no refluxo de ruas.
Buscam-se por aí.

Mas faltara-lhes a mobilidade dos corpos, a necessária coragem para romper a inércia do medo. Um esperando pelos passos do outro, homem e mulher quedados diante da possibilidade de um novo voo. O que os prende? Quais segredos ou compromissos? Que livro de regras os impede de ruflar as asas? Então eles sonham, imaginam-se dançando colados, ao som inebriante da MPB; então trocam juras e promessas, beijam-se desesperadamente dentro de uma canção do Vinícius. Fundem-se em outro poema:

Seremos assim, unha e carne,
até que a morte nos devore,
até que a flor se cale
e a luz se faça...


A mulher saiu do bar como quem foge da raia, mas alguma coisa, uma parte indizível de si, ficou por lá, diluída. O homem esperou o cantor-assassino desferir mais uma canção, derradeira. E também saiu. No mirante da Lagoa parou para comprovar o milagre do alvorecer na Ilha, com a lua açoriana trocando de turno com o sol ainda sonolento, despejando os primeiros raios por entre as frestas das árvores que ainda persistem nos morros. Não estava sozinho o homem: ao lado de um grupo de turistas ela perscrutava o infinito, ela esperava. Lânguida, lépida, fúlgida, uma deusa proparoxítona, a mulher do bar. Olham-se. Beijam-se no céu imaculado da Lagoa.

Amores vêm,
vão.
Fugazes e não.
Mar, céu, chão,
todos os seres,
todas as formas.
Amar,
em qualquer conjugação,
é sempre um ponto de partida:
paixão.

A Lagoa da Conceição amanhece, enternece, torna-se clara poesia, sem subterfúgios. Ponto final. Ponto de encontro e partida.





Postado por Jaime Ambrósio às 18:54 | Marcadores: Vinicius   Afã   Derradeira  

Sábado, 19.04.2014 A páscoa e o espelho

Desejou Feliz Páscoa à família e aos amigos. Sentiu-se bem, mas era pouco, quase um dever fraterno. Por isso foi às ruas, saudou vários estranhos, pessoas que ele nunca tinha visto antes. Sentiu-se melhor... No entanto, ainda faltava alguma coisa. De volta observou-se no espelho, viu naquela perspectiva um sujeito familiar, amigo, mas de certa forma, estranho. Desejou Feliz Páscoa também para ele. A imagem, surpreendida, sorriu lá de dentro. Pedro, em princípio hesitante, retribuiu o gesto, sem saber quem era reflexo de quem. Mas, enfim, sentiu-se ainda melhor, e entendeu que aquela Páscoa era a redescoberta de si.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:07 | Marcadores: Fraterno   Reflexo   Imagem  

Terça-feira, 18.03.2014 O acaso

O menino na bicicleta é feliz e corre. A mãe dissera cuidado, moleque, vai devagar. O menino não sabe do cão, que vem pela calçada, contornando a quadra. Corre o cão, com pressa de que? No cruzamento o acidente. O menino dá uma cambalhota no espaço - um salto mortal? - e despenca na crueldade da pista. O cão, que foi arremessado pela bicicleta, bate na lateral de um carro apressado e vai parar em cima de uma boca de lobo. Por alguns segundos os dois ficam inertes, silenciosos. Depois ouvem o movimento das pessoas que se aproximam, vozes que se aproximam.

O sangue do cão goteja no bueiro, desaparecendo na imensidão do esgoto; o sangue do menino é um filete que escorre lento pelos sulcos imprecisos do asfalto, tentando formar algum desenho urbano. A humanidade está dividida no cruzamento das duas ruas: algumas pessoas acorrem o menino, outras o cão. Os dois respiram sofregamente. Não há choro nem latido, a dor é calada, ou ainda não é dor. O pranto que se ouve é da mãe do menino, que chega com as mãos na cabeça; é da garota trêmula que procurava pelo poodle fugido.

A ambulância leva o menino, que da maca ainda pôde olhar para o cão estirado. Por alguns segundos eles se contemplam, como querendo trocar um indecifrável pedido de perdão. Mas não há culpados aparentes na lógica dos acasos, há vítimas.

Um homem de alma compadecida leva o cachorro para a clínica veterinária. A humanidade, enternecida com as duas dores, separa-se, segue, porque é preciso viver.





Postado por Jaime Ambrósio às 11:25 | Marcadores: Bueiros   Goteja   Cão  

Segunda-feira, 24.02.2014 Matou o tédio e foi pescar

Estava estranhamente mau-humorado nos últimos dias. Nem o BBB ajudava, nem o futebol na telinha. Então viu um adesivo no trânsito que parecia ter sido feito sob encomenda: “Tá estressado? Vai pescar!” É um sinal - pensou rapidamente. Os sinais podem redefinir a vida das pessoas na terra. Aonde foi que leu isso?... Mas a droga do congestionamento continuava na volta para casa, aquilo não tinha jeito. Pra que tanto carro no mundo, meu Deus? E quando dá uma chuvinha, então, ou um acidente? O famoso caos toma conta da cidade inteira, uma vergonha política, porque tudo é uma questão de política, tudo, o salário dos caras lá de Brasília, o nosso salário aqui, o maldito preço da gasolina, os buracos das ruas, os tiros por aí, a bandalheira. Calma! Respira fundo! E não adianta buzinar... Ainda bem que inventaram a sexta-feira, assim um funcionário público, à beira de um ataque de nervos, tem o sábado e o domingo livres.

Sábado. Danilo sozinho no trapiche. Por necessidade de isolamento não quis levar o cunhado de sempre, o João Carlos, que, aliás, não podia ficar sabendo daquela pescaria solitária. Aliás de novo, o problema era justamente a irmã do João Carlos, ou seja, a mulher de Danilo. Lourdes colocou na cabeça que ele, o marido, já não era mais o mesmo, que naquele mato tinha cachorro, ou lebre, mas que tinha alguma coisa, tinha. Como assim? Assim, esse teu jeito esquisito, de pouca conversa, sexo vapt-vupt. Ora, isso é minhoquice, rebateu Danilo, que acabava de trazer para o léxico familiar uma nova expressão. Minhoquice? É, significa ter minhoca na cabeça, ver coisas onde elas não existem.

Minhoca, diga-se de passagem, que ele deveria estar usando no anzol, porque a isca de camarão que trouxera não servia pra nada. Pior é que ele também chegara àquela conclusão, de que estava diferente. Mas por quê? O salário não aumentou, nem diminuiu; não estava apaixonado pela mulher do próximo, a pressão estava controlada. Então de onde vinha aquela falta de graça nas coisas?, aquela indiferença crônica?

O mar não dava nenhuma resposta e nem estava para peixe, mas as gaivotas faziam a parte delas, em renovados voos rasantes. Bonito, era bonito aquilo. Ainda mais com aquele sol crepuscular derramando-se nas águas, uma pintura para se colocar na parede da sala. Danilo pareceu sentir-se melhor naquele momento, então recolheu a linha, ajeitou o caniço e sentou-se na extremidade do trapiche. Ficou alguns minutos assim, desligado, apenas observando o horizonte lá longe...

O trânsito fluía sem atropelos e no carro da frente um outro adesivo pedia para Danilo sorrir. Sinais, os sinais.

Em casa deu um beijo demorado na mulher, que quase não o reconheceu. O telefone tocou e era o João Carlos, dizendo que amanhã bem cedo iriam pescar no costão. Pra não esquecer de levar bebida e amendoim torrado. Pensando bem, há quanto tempo não tomava umas cervejinhas? Bom também levar o radinho de pilha...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:20 | Marcadores: Minhoquice   Trapiche   Telinha  

Terça-feira, 17.12.2013 A CRÔNICA DO PAPAI NOEL BANGUELA


José, que não era carpinteiro, mas sabia consertar coisas, estava desempregado e gordo. Nos últimos dias as refeições eram compostas, invariavelmente, de macarrão barato, algum molho ralo, pão e limonada. Além dele tinha a esposa, que se chamava Maria, dois filhos em crescimento e um outro na barriga, querendo rebentar num dia desses.
José fazia uns bicos para garantir o mínimo que não podia faltar, mas faltava muito, e o natal estava chegando. José sempre dera presentes para os filhos e para Maria. José, e agora? Nem poderia fazer como o seu pai, que lá pelo mês de outubro recolhia os carrinhos de madeira que dera aos filhos e os pintava de outra cor. Depois, no natal, entregava-os novamente. As crianças imaginavam que estavam recebendo brinquedo novos. Agora tudo era de plástico, não dava pra pintar, e José nem faria uma coisa assim, um homem tem que poder dar presentes pros filhos.
Então, o então sempre permeia a vida. José soube de um concurso de Papai Noel. Inscreveu-se cheio de esperança, afinal tinha barriga grande e sabia ser divertido. Mas quando sorriu foi desclassificado: era sem alguns dentes na frente, justo na frente. Claro, o shopping não iria contratar um Papai Noel banguela.
José sentado numa pedra à beira do caminho. José chorando seu drama, seu infortúnio. Então lembra das palavras sábias de Maria: depois da provação vem a recompensa, é preciso ter um pouco de calma. Até quando, Maria? José que não bebe nem fuma, que não é violento e nunca pensou em roubar nem matar. Agora ali, pensando que pode fazer qualquer coisa, boa ou ruim. Então (o que norteia a vida) uma caminhonete para. O homem na direção está vestido de Papai Noel e pergunta se José não quer ser seu ajudante, ganhar uns trocados. O homem da caminhonete se apresenta, diz que é empresário, que vai distribuir presentes lá no Morro, mas que não quer ser reconhecido, por isso precisa de um estranho. José aceita, entra no carro. Ainda tem tempo de olhar para o lugar onde estivera sentado. Vê outra pessoa lá, que sorri, na pedra. José pensa que talvez seja um anjo de Deus. Aquele homem à beira da estrada acena.
Como se fosse um mercador de sonhos José entregava um presente e recebia um sorriso largo, quase uma gargalhada de criança. Mesmo assim seu pensamento era distante. Quando faltava apenas um saco para ser distribuído o homem da caminhonete disse que a jornada havia chegado ao fim, que aqueles últimos presentes eram para os filhos dele, de José. E deu-lhe também a roupa de Pai Noel e um cartão. Era só procurá-lo que ele lhe arranjaria um emprego. Precisavam de montadores na fábrica de móveis, poderia ser um bom começo.
Assim aquele homem gordo de vermelho e longas barbas postiças bate à porta da casa que é de José. Maria o recebe. Ele entrega presentes para cada um, muitos presentes, e sorri com a boca banguela, indisfarçável.
- Papai?
- É você, José?
No dia seguinte nasce Jesus, o terceiro filho de Maria e José.





Postado por Jaime Ambrósio às 17:10 | Marcadores: Banguela   Limonada   Indisfarçável  

Sábado, 16.11.2013 O clássico conjugal II

No domingo com gosto de lágrimas Cilene decidiu dormir no apartamento da mãe. De jeito nenhum voltaria pra casa naquele fatídico e fúnebre momento. Viu a derrota humilhante do time da Costeira num salão de festas decorado de azul e branco; Beto, o marido rival, reuniu-se com amigos num bar de alvinegros inveterados. Como encarar o marido? Ela que na outra crônica havia exaltado a garra do Leão, já convicta de que time de Marquinhos carimbaria o passaporte para a elite do futebol brasileiro.

- Aqueles jogadores, mãe, não conseguiam correr e pensar ao mesmo tempo. Que ódio!

Nisso o celular toca, é ele, o nefasto marido das bandas do Scarpelli.

- Oi, segundona! Por acaso você viu o Avaí jogar? Ninguém viu, só deu nóis. Ah! Ah! Ah!...
- Seu porco chuveirista! (Aqui cabe uma intervenção do teclad: se é chuveirista é porque toma banho; se toma banho não é porco.)
- Como, princesa?
- Seu porco... chau-vinista!
- Como? Aqui no Estreito ninguém fala difícil, ô essa aí! (Celina desliga, na cara)
- Obrigada, mamãe, pela ajuda. Tenho que ler mais.

Domingo, bem tarde da noite, Celina muda de ideia e volta pra casa. Ele, ou o que sobrou dele depois da farra, dorme o sono dos inocentes bêbados.

- Roberto Gonçalves Aranha!
- Hã? Que? Quem é?
- É a segundona. Agora me diz: quem é a primeira, seu verme!
- Primeira? Que primeira? Ah!, a Primeira Divisão? A Chapecoense, com certeza, e...
- Não me venha com desculpas. Aqui não é a Casa da Mãe Joana nem do Pai Joaquim.

O que ele entendeu é que a mulher usava de artifícios para não entrar no assunto Avaí Futebol Clube. Para o bem da humanidade daquela casa ele preferiu não entrar em conflito, deixar tudo como se nada tivesse acontecido. Ela também se acalmou, aparentemente...

Na segunda à noite, quando ele voltou de uma visitinha ao boteco, Celina fingia estar dormindo no sofá.

- Uhh!, Figueirense! Uhhh!, Figueirense! Acordei alguém de outras cores?

“Acordou”. Celina decidiu antecipar a decisão:

- Roberto, me escuta bem! De agora em diante, até o final do campeonato, você vai assistir aos jogos comigo, lá na Ressacada.
- O que? Tá maluca?
- E eu vou com você nos jogos do Scarpelli, assim cada um cede um pouco. Ou isso ou tchau para sempre.

Silêncio... Pausa reflexiva. O casamento em jogo.

- Tá bom, Celina, tudo bem. Mas lá na Costeira eu fico na torcida dos visitantes...





Postado por Jaime Ambrósio às 09:25 | Marcadores: Scarpelli   Costeira   Chuveirista  

Sexta-feira, 01.11.2013 O clássico conjugal

Chegou em casa e “percebeu” que a mulher havia cortado o cabelo.

- Humm! Milagre!

Depois mordiscou sua orelha (a orelha dela, óbvio) como há muito tempo não fazia....

- Roberto Gonçalves Aranha!... Você tem outra!
- Como?
- Só pode. Todo homem que trai a mulher sente um certo remorso, começa alisar a esposa como no início do relacionamento. É a prova do crime. Ai!, vocês não prestam mesmo! Abaixo vocês!
- Pára de ver novela, Cilene!
- ... Ou então você quer alguma coisa (AGORA?).
- Vou tomar um banho. Ah, o pessoal me convidou pra ver o jogo do Figueira lá num bar, só que fica um pouco longe.
- Então é isso! Santa ingenuidade a minha! Posso ir junto, “gavião”?
- Pode, claro (NÃO PODE!).
- Você sabe que eu de-tes-to futebol. Mas por que você não assiste o Figueirinha aqui em casa?
- Olha o respeito, Cilene!... Porque é no “pay-per-view”, tem que pagar (NÃO É ISSO).
- Tudo bem, Beto, mas eu tô de olho, eu marco em cima. Vê se não pisa na bola. E não desliga o celular que eu fico uma arara.

Corte. Exterior. Roberto pega o carro na garagem, esfrega as mãos, naquele gesto característico de contentamento, e vai ao encontro dos amigos. Do rádio vem uma trilha sonora festiva, pagode. Ele cantarola, batucando no volante.

Meia hora depois Cilene liga.

- “Olha aqui, Beto, seu cafajeste! (AI, QUE ÓDIO!), acabei de ver na televisão, meio por acaso, que o teu Figueira de uma figa joga amanhã, a-ma-nhã...”

- “Amanhã? De novo?... (CARÁCOLA! E AGORA?) Deve, deve ser alguma partida atrasada, então. E ainda dizem que jogador de futebol tem vida mansa... Chuta, estepor! Desculpa, querida, quase deu um gol de novo.”

Celina desliga, na cara. Roberto, em close-up, fica preocupado. Mas está na festa, tem que dançar. O plano se abre.

Corte. A música diminui, cessa. Interior. Celina espera Roberto, está na sala vestida com uma camisa... do Avaí.

- Cilene, o que é isso?
- Isso, querido, sou eu, de azul e branco.
- Mas o que significa essa palhaçada?
- Significa que agora eu sou uma torcedora, adoro futebol, amo a Costeira, vou gritar da arquibancada feito uma louca. Meu querido, os tempos são outros. Chega de segunda divisão, segundo plano, segundas intenções. Me aguarda, Robertinho!

(Vixe!, vai ter parte 2)





Postado por Jaime Ambrósio às 11:28 | Marcadores: Carácola   Gavião   Aranha  

Domingo, 20.10.2013 Os caquinhos

Ismael (ou Ijjjmael, como a esposa, às vezes, lhe chama) chega na lotérica com o amigo Pardal que, a exemplo dele, traz no  corpo a camisa do Avaí ó-lhó-lhó Futebol Clube, o time aquele que urra, urra... E não é que encontram na fila a tia dele, do Isjjmael? A Tina. Até aí tudo bem, mas acontece que a mulher tinha um novo visual na boca. Ismael não deixou pra menos.
- Tia Tina, como a senhora tá bonita! E essa dentadura nova? Baita sorriso, mil grau, como diz o Mu, o nosso amigo lá do trabalho.
- Ijjmael, seu isteporl! Tatuíra do Morro das Pedras! Ontem mesmo pensei em você e na Dani, não sei como ela te aguenta, sempre intisicado por conta do Avaí. Esquece, um dia ele sobe, mas num sei pra onde. Ah, gostasse dos meus dente novo?
- Intão, intão, tia. Agora a senhora não tem mais aqueles dois caquinhos aí na frente. Coisa feia quando a tia dava risada, assoprando bolacha. E quando beijava alguém melacava tudo.
Na fila uns rindo; outros com vergonha alheia. As moças dos guichês nem aí, acostumadas que estavam com essas figuras estranhas.
- Agora a tia até parece aquela atriz de novela, aquela antigona que gosta de pegar rapaz novo.
- A Susana, eu? Humm.... Falando nisso, Ismael, me apresenta o teu amigo ali atrás.
- O Pardal? Ele é comprometido, tia, e tem que trabalhar amanhã cedo lá na mesa de corte.
- Ele é açougueiro?
- Eheheheh!!! Não, ele cuida do Switcher , que é a mesa de corte da TV. Outro dia explico melhor. Mas a senhora não tá de namorico com ninguém?
- Um rolinho aqui, um rolinho ali.
- E consegue beijar direito com a dentadura?
- Eu uso Corega, Ismael, daí não escorrega.
Na fila, risos; também volteios de cabeças (desaprovação).
- E à noite, pra dormir, eu deixo a perereca dentro de um copo com água. Não vou usar mesmo. O que importa é que me livrei dos caquinhos.
Uma velhinha quase se engasgou com o picolé, coitada. A fila avançando, devagar... Até que chegou a vez da tia Tina de dentadura nova. Ela pagou uma conta da Celesc, fez uma fezinha na mega sena e pediu pra funcionária conferir o bilhete da Federal...
- A senhora ganhou!!!!! O prêmio principal!!! Não esqueça de mim.
A mulher de dentadura nova deu um grito comprido e uma gargalhada ainda maior... Não teve outra, a dentadura saltou, bateu no vidro do guichê, ricocheteou, caiu e resvalou até o fundo da lotérica. A fila inteira quase teve um treco. Ismael, o Tatuira,  não se conteve.
- Eheheheh! Escorregou, tia!
- Não importa, Ijjjmael. Agora vô colocá uma fixa, com implante, coisa lindja!!!
- Que nem o Rato, outro amigo nosso. Ele também trocou os caquinhos por uma dentadura fixa.
- E vô beijá muuuuitcho! Me dá o telefone do teu amigo?... Cadê ele?
- Qual deles, tia?





Postado por Jaime Ambrósio às 13:22 | Marcadores: Antigona   Caquinhos   Rato  

Quinta-feira, 10.10.2013 Entre a couve e a costela

Dia desses Machado de Assis me confessou, através de uma bela crônica de costumes, que era vegetariano por princípios e carnívoro por educação. Algo parecido acontecia com Pedro Soares, que se apaixonou por Dorinha, filha gaúcha de um dono de churrascaria. Para apresentar o rapaz à família a entusiasmada moça, que não sabia da repulsa dele por carne assassinada (?), levou-o para almoçar... na churrascaria, que tinha o incrível nome de “BOI VIVO NA BRASA”. Pedro teve um certo calafrio, pois sentiu-se o próprio animal dentro do abatedouro. O cheiro de carne morta assada (reflexão do vegetariano, claro) lhe embrulhava o estômago, mas procurou se conter, por educação. Era sozinho no meio dos sogros e demais membros daquela prole. O chefe, com um bigode maior que a cara e um lenço vermelho no pescoço (símbolo do tradicionalismo e do Internacional), pôs-se a fazer mil e tantas perguntas.
- Tu veio de onde, amigo?
- Anita.
- Não perguntei o nome da tua mãezinha, mas o da terra de origem.
- Anita Garibaldi.
- É Santa Catarina?
- Perto de Lages.
- Então é terra boa, cheia de gaudérios. Qual é o teu time do coração?
- Avai.
- O da Segunda Divisão? Menos mal. Já imaginou o estrago se fosse o Grêmio?
- Papai!
- Sossega, guria. Preciso saber qual é a índole do meu futuro genro. Mas mudando de assunto, que a fome já tomou conta do bucho. Qual é a tua preferência na mesa, homem?
- Couve-flor ao bafo, alface e rúcula.
- Perguntei sobre a carne, pasto é outra coisa.
- Mmm! Tanto faz, o senhor escolhe.
- O senhor tá lá no Céu, tchê. Então vamos começar com uma costela de primeira.
- Mmm!
- E não precisa ficar mugindo, vivente!
- Papai!
Pedro Soares e a provação (nos dois sentidos: bíblico e gastronômico). Disse ao garçom que queria só uma lasquinha magra; mas o canalha fatiou duas ripas com muita gordura. Depois da segunda mordida Pedro teve que ir ao banheiro em caráter de urgência. Fez o mesmo depois da picanha. E da fraldinha. E do cupim também.
- Amor, você comeu alguma coisa diferente ontem à noite?
- Ih! Ih! Ih! (André, o cunhadinho de Pedro)
Então o pobre comensal regurgitante pediu a palavra num tom cerimonioso.
- Preciso confessar uma coisa pra todos vocês.
- O que é, índio véio? Não me assusta.
- É que sou vegetariano.
- Ufa! (Dorinha)
- O quê? Eu te capo!... Te corto o...!
Não cortou nada, teve que se adaptar a uma nova mesa, nova era, cercada de alfaces e outras hortaliças. Pelo menos por educação, mas também porque já estava na hora de seguir um dos conselhos do cardiologista.
- Mas primeiro a costela, depois a salada! E quanto ao casório...





Postado por Jaime Ambrósio às 16:55 | Marcadores: Picanha   Grêmio   Carnívoro  

Sexta-feira, 27.09.2013 OLHA O CORAÇÃO !!!


Cardoso estava à beira de um colapso, ou o colapso estava à beira de Cardoso. Entenda os problemas do cara: era o chefe que não parava de azucrinar; a secretária do chefe, exuberante, mas com silicone até no cérebro, e que também o azucrinava pra ficar em sintonia com ele (o chefe, claro); era a esposa, que reclamava de tudo, principalmente da mesmice financeira; era a amante (porque nesta história o personagem principal tem amante), que não concordava com o tempo que ele “perdia” com a esposa.
- Mas eu chego em casa sempre tarde, nem janto direito, tomo um banho e durmo.
- Dorme com ela, seu cafajeste!
Continuando com as pressões: tinha a sogra, desempenhando o papel de sogra, que é o de aporrinhar o genro até o último fio de cabelo; tinha o Rodolfo, um peixinho imbecil e alaranjado que pedia a todo instante um novo aquário; tinha o gerente do banco lembrando daquela dívida, daquele empréstimo que venceu; tinha as prestações que todos têm, mas que o Cardoso achava que ele tinha mais que os outros; e também tinha aquele vazamento desgraçado na torneira da pia, que nada dava jeito, que parecia ser o ó do borogodó, a prova de que até os tubos e conexões estavam contra o Cardoso. Por fim, pra não esquecer, tinha a pressão arterial, era preciso tomar cuidado, cara, pois a danada manda recado mas não perdoa. Devagar com o cigarro! Uísque não é água! Olha o colesterol!
- Te cuida não. Se não for do coração, tu morre de cirrose! – gostava de falar a exaltada Jandira, mulher do próprio.
- E tu morre pela boca, jararaca filha da tua mãe!
Claro que esse primor de diálogo não levava a lugar nenhum, nem trazia. Isso apenas ressaltava o fato de que Cardoso era, como assinala o título da crônica, um homem sob pressão. Mas, calma!
De fato ele (o coração) quase explodiu quando ele (o dono do coração) soube que acertou na Mega Sena. Não foi sozinho, outros também tiveram a mesma sorte, mas deu meio milhão, metade de uma fortuna, um monte de alegria. Boca de siri, boca de siri, Cardoso!
Chegou no serviço e, para variar, o chefe o chamou com aquele jeito matinal e espontâneo de chamar:
- Cardoso, porra!
- Cardoso uma ova! – E pôs-se a destilar o veneno armazenado durante anos, servindo-se, para isso, de algumas interessantes expressões do nosso vasto dicionário popular, como babaca, puxa-saco, mala sem alça, estepor (a história se passa na Ilha de Santa Catarina), mauricinho de m... . A secretária recauchutada quis se impor para defender o brio do chefe, mas teve que ficar calada, com medo do que vinria depois. Depois , obviamente, o efusivo empregado passou no RH, dizendo que estava se mandando, sem aviso prévio, sem passagem de volta. Fui!
E teve mais. Avisou a esposa que iria dar um tempo, precisava repensar a relação. – Dar um tempo, Cardoso? Repensar a relação? Faça-me um favor! - Ele fez, saiu de casa. Mas disse que mandaria grana e que o advogado dele entraria em contato. – Advogado, Cardoso! – espantou-se de novo a mulher. Cardoso ainda jogou um peixe-fêmea para o Rodolfo, no novo aquário, mandou trocar a pia da cozinha e passou na casa da Silvana, aquela outra que também reclamava. Adeus velho mundo!
Não queria mais trabalhar, só administrar o dinheiro e viver bem. Comida da melhor, bebida de primeira, carro novo, isqueiro novo, novos restaurantes e paradas. Seqüência de camarão na Lagoa, feijoada em São Paulo, carne de jacaré no Pantanal, cachaça mineira e uísque escocês. Mas (porque nem tudo é perfeito) ele teve um treco, a vista anoiteceu de repente e Cardoso desmaiou por alguns segundos. Era a maldita pressão arterial que o perseguia silenciosamente. O doutor Carlos deu-lhe um sermão dos diabos e perguntou se ele estava querendo se matar de felicidade. Não? Então era melhor viver com algumas tristezas, e passou-lhe um rosário de coisas que ele NÃO poderia mais fazer, isso se quisesse prolongar por mais tempo sua permanência na instigante face da terra.
- Mas, doutor, não sobrou NADA!!





Postado por Jaime Ambrósio às 15:34 | Marcadores: Babaca   Efusivo   BorogodÓ  

Sexta-feira, 20.09.2013 O Todo Poderoso na praça XV

Escrevo assim, na primeira pessoa do presente sem indicativo. A segunda e a terceira pessoas estavam ausentes. Mas veio o Pai de todas, o próprio verbo. Eu poderia fazer de conta que o assunto em questão teve a ver com o Zé do Anzol, o Chico Escova ou o Mário das Quantas, personagens inventados que, no entanto, estão pescando por aí. Mas faço de conta que o acontecido foi comigo, eu próprio aí de cima, com essa papada saliente. Mas vamos lá: eu vi Deus na Praça XV.

Estou sentando num daqueles bancos democráticos, consumindo vinte minutos do meu tempo livre, pensando nesta insólita crônica que do quase nada se fez. De repente Ele chega, como se fosse mais um na praça, e senta-se do meu lado. Está vestindo uma camisa que é metade do Figueirense, metade do Avaí. Como sei que é Ele? Sabendo. Há certas coisas que a gente não consegue explicar. Bom, tem também aquela sensação estranha, um certo arrepio no corpo, um sinal confirmando que ali está o Todo Poderoso em carne e osso, ou em qualquer outra matéria. Estou lúcido, assim como a figueira centenária que a tudo assiste.

- E aí, beleza? – pergunto sem saber direito como iniciar a conversa.

- Beleza, e você?

- Deixando a vida me levar. Como devo me dirigir a Vós?

- Do jeito que tu quiseres, filho.

- A primeira letra, ao Te designar, precisa ser sempre maiúscula?

- Não, Jaimão, o importante é a intenção. Nossa, não consigo evitar as rimas!

- Eu também não, Paizão. Falando nisso, tens lido as minhas crônicas, no site da Band?

- Nem sempre, preciso dar atenção a todos os colunistas. Mas gostei daquela da “galinha desmilingüida”. Quem coloca gelo na carne que vai ser dos outros responderá por isso no Juízo Final.

- Boa, mestre! Mas me diga uma coisa: por que a camisa homenageando os dois times aqui da capital? Ou a gente é da turma da Costeira, ou do pessoal ali do Estreitcho, como eu.

- Preciso ser diplomático, fazer uma média com todos os fiéis.

- Até com os argentinos, por exemplo?

- Si, pero Maradona no és el mejor.

- Pelé, claro!

- Yes, e depois Garrincha, e Zico, e Rivelino, e Romário, e Ronaldinho Gaúcho, e Ronaldo gorducho. Outra rima. Bah, tchê! Desculpe a expressão, mas é que torci muito pelo Colorado contra o Barcelona uma vez. Opção pelos mais fracos.

- E aqui em Santa Catarina, tens ido aos jogos?

- Sim, claro.

- Em todos, ao mesmo tempo?

- Por isso é que sou onipresente.

- E que tal?

- Sou um torcedor participativo. Por exemplo, no Scarpelli cansei de gritar “Fica Zunino”; na Ressacada eu gritava “Fora Zunino!”. E o Zunino ficando, ficando, está além das minhas forças. Mas eu preciso ficar do lado do povo.

- Mas me confessa, sem demagogia, qual é teu time do coração?

- O Santos, claro, mas não espalha, aqueles torcedores são muito convencidos.

- Mudando de assunto, amigão: e o problema no Oriente Médio, a espionagem americana no Brasil, os protestos...?

Não responde, apenas me dá um tapinha nas costas e some. Nisso se aproxima aquele sujeito da bíblia, que fica anunciando o fim dos tempos. Levanto-me, já é hora de voltar ao trabalho.





Postado por Jaime Ambrósio às 12:29 | Marcadores: Zunino   Onipresente     

Quinta-feira, 15.08.2013 PROCURANDO NEVE

Maria Fernanda queria ver a neve. Mais do que qualquer pessoa ela queria estar lá, de braços abertos sob os flocos de algodão gelado. Insistiu, bateu o pé. A família meio contra, é longe, muito frio, vai pegar resfriado. O mano fazendo piada, dizendo que era só raspar dentro do congelador, jogar aquele gelinho macio pro alto e pronto, eis a neve. Maria Fernanda no ataque, que é a melhor defesa, respondendo que se fosse assim ele não precisava ir pra Oktober, podia muito bem tomar chope, e de boa qualidade, por aqui mesmo. E a Festa do Pinhão? Era só fazer uma panelada em casa e ouvir o Gaúcho da Fronteira. Por fim ela argumentou, séria, que dificilmente saía de casa, mesmo porque estava sem namorado há um certo tempo. Desse jeito iria criar limo, aos dezoito anos.
Então todos concordaram, Fernandinha iria para São Joaquim, ela e uns amigos, numa van alugada. Mas antes da partida, claro, precisou ouvir as mil e tantas recomendações da mãe, afinal, era a primeira viagem que a menina fazia sem ninguém da família por perto.
No entanto, contrariando as previsões da Previsão, a neve não caiu naquele primeiro dia, um sábado de cara feia que congelava até as vísceras dos visitantes. Mas eles estavam lá, cumprindo com o seu papel ensaiado, caminhando nas ruas, tomando chimarrão ou café bem quente, esfregando as mãos e repetindo a cada pouco a mesma expressão: “Que frio!” Lá também estavam Maria Fernanda e os amigos à mercê da natureza, que é pródiga, mas inconstante, na arte de encantar turistas. Mesmo assim, na ausência dos sonhados flocos dançantes, divertiam-se de alguma maneira. Jogavam baralho, bebiam quentão, contavam piadas repetidas, empanturravam-se no café colonial e conheciam novas pessoas. Foi assim, nessa pequena ciranda de povos, que Maria Fernanda se deparou com um rapaz do Ceará. Logo foi possuída por aquela incontrolável sensação de pele que costumam chamar de amor à primeira vista.
No domingo nova frustração, o tão aguardado fenômeno continuou escondido nas brumas de Deus. Embora tentasse disfarçar, com frases conformadas, a maior parte das pessoas não conseguia esconder a decepção. Muitos vieram de longe para ver o tão anunciado espetáculo. Maria Fernanda, entretanto, tinha os olhos transbordando de felicidade: a magia da neve esvoaçando sobre a terra concentrava-se lá dentro, em algum recanto inexplorado da alma... Então, pela enésima vez, a mãe ligou, mas desta vez para contar que a cidade deles estava coberta de gelo, uma paisagem branca de morrer, linda como nunca se viu. Até parecia algum lugar da Europa.
- Você precisava estar aqui, filha.
Mas ela só chegou à noite, cansada e ao mesmo tempo leve, sem se importar com as gozações do irmão: Não teve nenhuma avalanche, maninha? Estava feliz, não houve a neve, mas houve a viagem para vê-la. É assim como pescar: às vezes você volta sem nada, mas a pescaria valeu à pena. Para Maria Fernanda tudo valeu à pena. Depois do longo banho, depois de ter arrumado suas coisas, abriu o coração:
- Mãe, eu quero ir pro Nordeste!





Postado por Jaime Ambrósio às 15:56 | Marcadores: Pródiga   Ceará   Euroa  

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