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Quinta-feira, 22.03.2012 Ó-lhó-lhó, as pontes sumiram!


Algo de muito sério e misterioso estava acontecendo na Terra, essa nossa casa deveras negligenciada (por eu, tu, nós e “eles”, as “otoridades”, como diz o comentarista). Em várias partes do mundo registrou-se, ao mesmo tempo, mas não ao vivo e via satélite (por algum problema), o desaparecimento de grandes obras e objetos do patrimônio público. Em Washington foi a Casa Branca (com o presidente e alguns asseclas dentro); em Buenos Aires a estátua de Carlos Gardel e, para desespero ainda maior dos hermanos, a camisa de Maradona na Copa de 86; em Londres foi o Big-Bem; em Paris, claro, aquela torre metida a besta; no Paraguai... no Paraguai?!...; no Oriente Médio algumas pirâmides e duas odaliscas; na China a antiga muralha que pode ser vista até de Marte, mas que eu nunca vi; no Rio o Cristo. O Cristo?
Flori(p)anópolis, no sul mágico do Brasil, amanheceu... - Que é isso? – sem as três pontes. As três, sim, inclusive a “Velha Senhora”, que virou cartão postal, adoeceu e espera há muitos e muitos anos pelos medicamentos eficazes, muitos deles vindos do exterior. Parece que agora o remédio vai chegar… A população, logo que soube da novidade, ficou dividida entre o pasmo e a crendice. Os mais afoitos logo trataram de fazer alguns comentários sobre o inusitado “fenômeno”.

CIDADÃO AVULSO 1 – Sinais dos tempos, em que não haverá mais estradas sobre as águas e o mundo se dividirá em duas partes antes da explosão final.

RATO (que na verdade é um sonoplasta) – Eu não disse, Jaime?! Eu não disse?! É o fim do mundo. Mas vocês riram, você e outros...

DONA MARIA DA CAIEIRA – Ólho-lhó-lhó! E num é que o mári inguliu as pônti gêmea e também a enferrujada, aquela de bunito?! Agora é que as vaca vão pro brejo.

RONÉRIO SILVA – Sempre fui a favor do transporte marítimo de passageiros, talvez agora me entendam...

GERMANO – Resta sabê se os ônibus tão preparado pra andá sobre o mar sem afundá.

CIDADÃO AVULSO 2 – Precisamos de pontes que liguem o homem ao Criador do homem.

RATO – Eu falei...

ZEZINHO DO MORRO ALTO – Eu vi, tava indo pescá na passarela da ponte que vem, era bem cedinho, inda escuro. De repente, uma luz no Céu, grande, que puxou todas elas. Parecia um filme que eu quase vi lá em casa.
Era um sábado, e um rebuliço bem maior que o apagão ou a Novembrada. Um caos. Claro que alguns nem ligaram, afinal, não teriam que se deslocar pro trabalho, tanto de lá pra cá, quanto daqui pra lá. Mas outros precisavam atravessar aquele pedacinho de mar perdido na terra, como a turma do Continente, que queria ver o campeonato de surf na Joaquina; ou os jogadores do Avaí (e seus torcedores mordidos) dispostos a ganhar a revanche. Ora, acontece que tudo foi cancelado, até o jogo do bicho na Banca do Mané. Claro que os donos de barcos não perderam tempo. A preços exorbitantes começaram a transportar os habitantes mais apavorados. Neném, que não era o da Costeira, foi fazer o mesmo, com seu barquinho acanhado.
- Num pódi é batê um vento súli!
E assim prosseguiu o drama dos ilhéus e continentais, até o sono derrubar os que ainda conseguiam dormir. No meio da madrugada, quando a balbúrdia havia serenado, eis que a três pontes retornaram à Terra, ou seja, ao mar. Misteriosamente. Florip(a)nópolis amanheceu em festa, era domingo de sol. Mas o que apenas alguns perceberam, de imediato, provocou, depois, um espanto geral: a Hercílio Luz, a Velha Senhora com dores lombares, ficou exatamente entre as duas pontes de concreto.
E assim quase tudo voltou ao seu lugar. Em Nova Iorque, por exemplo, a Casa Branca estava lá de novo, mas o presidente, o presidente não tinha voltado…





Postado por Jaime Ambrósio às 16:56 | Marcadores: ó-lhó-lhó   Novembrada  

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