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Sexta-feira, 25.02.2011 Conversa de pescador


Num costão por aí.

- Puxô?
- Inda não.
- Arruma o anzóli...
- Mas como eu ia lhe dizendo no caminho, Dorico, a Matilde tá uma pessoinha amarguenta que só vendo.
- A modi de que, Valdí?
- Sei não. Coisa de mulé. Começô cismá que ando saindo com bisca, que chego tarde
e num dô conta da obrigação. Ora, Dorico, nem sempre o sujeito tem fogo pela mulé de casa. E ademais, que mal há de passar no buteco depois do serviço?
- Mal nenhum. Opa! Tá puxando...
- O que é?
- Deve de sê um gordinho... Ihhh! O afreventado escapô.
- Num esquenta. Isso é que nem mulé, sempre aparece outra.
- Então, então!
- ... A Matilde tá muito intojada pro meu gosto, num tem? Até na comida ela me apronta. Dijaoje o pirão do almoço tinha escama de tainha. Se tem coisa que me dexa malino é pirão com escama. E qué vê o berbigão: a songamonga nem lava pra tirá a sujerada. Fica aquele gosto forte de ferruge que só mesmo a cachaça resolve.
- É invejume, Valdí, invejume. A Matilde tem raiva das tuas noitada, mas bem que a danada gostaria de se esbaldá por aí de noite.
- Ah um relho no lombo!
- Nem tanto, Valdí, nem tanto.
- Opa!...
- O que é?
- Um baiacu barrigudo.
- Apincha na água.
- ... Num digo que a Matilde seje uma mulé que num vale nada. Tem suas qualidade. Num arrasta asa por aí, nem nada. Mas é muito reclamona e aluada. E agora deu pra querê se pintá toda. Parece uma lambisgóia. A módi di que? Me digue tu, que tem muita idade e já passô por isso.
- Sei não, sei não!
- Ah, e tem outra coisa. De uns dias pra cá deu pra me fazê provocação. Disse que eu vô arrumá pra cabeça. Numa noite dessas ela descobriu um perfume de outra no meu cangote. Pronto! Ficô sortando fogo pelas fuça. Então inventô, a módi de me dá um cagaço, que tinha se deitado, numa tarde dessas, com um conhecido meu já meio fora de uso.
- Miserenta!
- Também acho, Dorico. E ainda confessô que só num deu a pissirica porque o tal do hômi ficô com o rojão arriado.
- Istepôr! Bisca! Catinguenta! Vai me pagá! Quem a disgramada pensa que é pra falá assim?
- Que é isso, Dorico?!
- A... acabô de escapá uma tainhota perdida. Lambisgóia!!!
- Qué sabê, vambora que o mar num tá pra pexe. A gente compra uns dois quilo de mistura ali na praia e leva pra casa.






Postado por Jaime Ambrósio às 22:51 | Marcadores: Baiacu   Lambisgóia   Cagaço   Songamonga  

Terça-feira, 22.02.2011 Conversa de ônibus

(SENTIDO CENTRO-BAIRRO)


... te digo, cumadre, o Jandí tá assim mesmo, não tem mais jeito. Vorta toda santa noite fedendo pinga; às veiz fede perfume barato de guenga (A COMPANHEIRA ARREGALA OS OLHOS). O que ele precisa mesmo, cumadre, é de um bom par de chifre. Má dexa comigo, que hômi não me farta. Tem até o véio Dorico da vendinha, que tá de ôio arregalado pra cima de mim. Nunca dei trela, mais se quisesse eu nem precisava pagá as compra. O Jandí que espere, vai é arrumá prá cabeça. Lazarento! Istepô!

- Vige, cumadre! Tá desse jeito a coisa?
- Óia, si num fosse pelo menino eu mandava o Jandí às fava. Ma e daí, o qué que eu vô fazê? Sô meio songamonga pra consegui argum emprego. E num acho que ele ia aceitá assim a minha decisão, que hômi nenhum gosta de sê jogado pro escanteio.

(OS PASSAGEIROS MAIS PRÓXIMOS JÁ COMEÇAM A FICAR INCOMODADOS COM A CONVERSA DAS DUAS: MATILDE, MULHER DE JANDIR, E GENILDA, COMADRE E CONFIDENTE.)

- Que horas é agora, cumadre?
- Seis e quinze.
- Vô pegá o Juninho na creche, vô dexá com a dona Neusa do açogue, e sabe pra onde é que euzinha vô? Lá pro buteco perto da zona. Quero pegá o disgramado no fraga. Só quero vê o cagaço dele. Aí vamo vê dispois se o mardito vai tê razão de discutí comigo. Vai é ficá nas minhas mão.

- É, cumadre?

(MESMO COM MUITO ESFORÇO É QUASE IMPOSSÍVEL
DEIXAR DE OUVIR A CONVERSAÇÃO DAS DUAS.)

- Sabe o que eu penso, Genilda, si num qué, por quê casô? Num tá satisfeito com o que tem, vá simbora sim sinhô, má dexa tudo comigo e me dá pensão. Pra mim e pro moleque.
- Sê acha mesmo que ele tem alguma bisca, uma amiga, assim?
- Uma pissirica, uma bisca sim, cumadre. (GENILDA TEM UM SOBRESSALTO)
- E se ele num tivé naquele bári hoji, Matilde?
- Tenho certeza que vai tá.
- Só por causa que ele bebe umas pinga num qué dizê que anda botando galho na cumadre.
- Tás tola?

(UMA SENHORA, NO BANCO DE TRÁS, SE LEVANTA
BRUSCAMENTE, ENQUANTO FAZ CARA DE REPULSA, E VAI PARA PERTO DA PORTA DE DESEMBARQUE. FICA EM PÉ. O ÔNIBUS JÁ NÃO ESTÁ LOTADO, SOBRAM ALGUNS LUGARES.)

- Genilda, Genilda, me diga, tu que já teve hômi, já viveu ajuntada com o cumpadre Tonho, eu acaso sô coisa que num serve pro Jandí? Virei um trapo? Menina, tô ainda é muito intera. Então me diga: por que é que ele vorta da cachaça e num qué nadica de nada comigo? Só assim quando for feriado, dia santo...

(O OUTRO PASSAGEIRO DO BANCO DE TRÁS TAMBÉM SE
LEVANTA, MOVENDO A CABEÇA DE UM LADO PARA OUTRO EM SINAL DE REPROVAÇÃO. – Ô GENTINHA!)

- E tem mais: agora deu pra chiá por causa da comida. Que só faço
feijão, arroz e bife, que nunca tem uma saladinha diferente,
um macarrão com carne moída, uma dobradinha. Que que há?! Já num basta no domingo que tenho de fazê maionese, farofa e tainha recheada? De veiz em quando ele até faiz um surrasco de custela, e convida o Dorico, que sempre vem. Nem sabe o Jandí...
- Péra, péra , cumadre, ele até que tá certo. Trabalha, traz dinhero,
tu tem mais é que é alimentá ele direito.
- Vige, tô te desconhecendo! E aquele pudim de cana merece
comida melhó?
- Ô, cumadre, também num é assim. Hômi é hômi, é tudo igual.
- Ma não comigo. Tás tola?

(O CASAL DA FRENTE TAMBÉM SE LEVANTA, RINDO
BAIXINHO.)

- Dijaoje mesmo, cumadre, ele teve o tupete de dizê que as minhas unha tavum muito cumprida e sem esmalte. Vá si catá! Quem ele pensa que é cum aquele bafo de bode, aquele fedô de suvaco sujo?
- Nem tanto, cumadre, nem tanto.
- Ô essa menina! Tás é defendendo muito o Jandí. Tô te estranhando!
- Dexa de bobági, Matilde. Só acho que o Jandí num é esse bicho que tu dize.
- Então, então, eu é que tô errada, é isso?
- Num falei isso, num falei isso.
- Ói, cumadre, eu conheço a praga que tenho. No começo, eu tô bem lembrada, era amôri prá cá, amôri prá lá, me dê uma beijoca, vai, me dê isso, me dê aquilo. Mais agora!...

(SÓ RESTAVA MEIA-DÚZIA DE PASSAGEIROS.)

- ... Num sei, o marido é teu, mais eu aicho que tu tá fazendo um
escarcéu por nada. Dexa a coisa assim como tá. Ele ainda gosta de ti, mas os hômi são assim mesmo, querem sempre arguma coisa melhó.
- Genilda?!
- Que que é, mulhé?
- Tô te estranhando, cumadre!
- Ólho-lhó-lhó! És a maió!
- E me abre essa janela, que só tu num percebeu que tá um calô dos inferno aqui dentro.
- Peraí, tô abrindo...
- Ô cumadre Genilda?!
- Fala, Matilde.
- Esse teu perfume, agora que apercebi... e num é que é mesmo?!
- Que que tem?
- É bem o cheiro do Jandí quando vorta mais tarde.
- Me... me dê licença, cumadre, que eu vô descê.
- Genilda!, esse num é o teu ponto.
- Licença, cumadre, dê um bejo no afilhado.

(NO PONTO FINAL MATILDE SALTA, “P... DOS CORNO”.)





Postado por Jaime Ambrósio às 21:24 | Marcadores: Bisca   Zona   Disgramado   Trela   Lazarento  

Sábado, 19.02.2011 Causos e ditos da Ilha

Um lanço grande de tainha é um mundo de peixe, disse o Zé da Rede, senhor da pesca e das frases arrumadas. Um mundo de peixe. Como lá na infância, no açude da usina. Passado e presente. Antônio olha para a alegria dos pescadores, se identifica com aquele menino que ajuda na arrumação da pescaria, que deixa uma ou outra tainha escorregar das mãos, que ri de um peixe esquisito e vermelho, perdido ali...

Antônio estava encantado com a nova experiência vocabular e com o perfil descontraído e gozador dos pescadores, que adoravam contar histórias. Então descobriu um punhado de livros que explicavam a descendência açoriana deles, outros dicionários com os termos e expressões mais comuns daquele universo ilhéu. Devorou rapidamente cada página, fez anotações, repetiu palavras. E não foi só. Também comprou um pequeno gravador, que usava no bolso da jaqueta jeans sem manga ou do bermudão de linho. Espionagem léxica. Em casa ouvia de novo as histórias do bar e verificava as falas que ainda não conhecia. Estava quase se saindo um manezinho de ocasião. A cada dia ficava mais parceiro com os nativos: Zé da Rede, Chico Farinha, Osvaldir, Miltinho, Véio Chulapa, Alvina, Seu Cardoso, Zeferino do Bode, dona Lurdinha, Pedro Dionísio, Nego da Zulma, Cajurino, Vaguinho...

E não é que meio sem querer-querendo Antônio presenciou, com aqueles ouvidos que Deus lhe dera, uma arenga entre duas mulheres que disputavam o mesmo pescador? Rapaz sortudo o Vaguinho.

- Sua lambisgóia entojada, pode tirá o cavalinho da chuva! O Vaguinho é meu e num tem pra ninguém mais. Ouvisse?
- Ó-lhó-lhó! Tás tola, amiga? E antes que máli lhe pergunte, quem foi que deu o primeiro beijo no Vaguinho, lá na festa do marisco?
- Désse outra coisa, isso sim, pissirica!
- Bisca!
- Disgramada!
- Miserenta!
- O vaguinho nunca vai me trocá por uma ranhenta que nem tu.
- Sai pra lá, somgamonga despeitada!
- Eu te acarqueto os óio!
- Vai te cagá, tranqueira!
- Vou te dizer-te uma coisinha pra ti!
- Não me intisica que eu te quebro os cornos!

Antes de as duas se engalfinharem por amor alguém chega como quem é rei da Ilha, o próprio Vaguinho.

- Guinho?!
- Amôri?!
- As duas parem já com essa palhaçada!
- Então decida entre eu e essazinha aí!
- Nenhuma. Agora eu tô com a Gi.
- A Gi da padaria? Aquela broa sem gosto?
- Ela mesmo!... Sem gosto, não!
- Ô essa menina! Vem comigo, vamo comprá sonho com doce de leite.

As duas em direção à padaria, Vaguinho atrás. Rapaz de sorte esse Vaguinho.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:13 | Marcadores: Léxico   Bermudão   Ilhéu  

Quarta-feira, 16.02.2011 Bingo!

Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar o acontecimento. Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais leve, borrifou um perfume e raspou o bigode ralo, que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer o frango?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:56 | Marcadores: Hostia   Bingo   Missa  

Terça-feira, 15.02.2011 O roubo da vaca


Pedro Monteiro da Silva foi quem registrou a ocorrência na DP de Canasvieiras. Roubaram a vaca Princesinha que estava no seu cercado (dele, mas da vaca). E ainda: o animal foi visto, depois, no pequeno sítio de Eldo Silveira. Pronto, estava iniciada uma confusão se fim.

Eldo, chamado a depor, contou que havia comprado a vaca de Argemiro Antunes, que disse ter feito negócio com Haroldo Arnoldo, que confessou ter dado a Nicanor Bernardino duas cabras e uma bicicleta velha em troca do bicho. Este último (não o bicho, Nicanor), assegurou ao delegado que a vaquinha, em verdade, era cria de Chico Farinha, quer dizer, de uma vaca dele.

O delegado Jofre Simão, que não gostou muito daquela história matreira, mandou chamar todo mundo. Seria assim uma espécie de acareação coletiva. Deu pior a emenda: teve que agüentar muita discussão e troca de xingamentos. Nenhum acordo sobre o animal. Quem seria acusado de roubo e quem ficaria com a vaca? Por enquanto ela permaneceria na propriedade de Eldo Silveira, por enquanto. Mas como encaminhar o inquérito? Não havia flagrante, nem provas, nem qualquer documento de posse; havia uma denúncia. O delegado liberou todos, assegurando, porém, que iria descobrir quem era o ladrão.

Mas no dia seguinte Pedro Monteiro retornou à DP.

“Dotôri, o senhor retira a queixa porque nóis já acertamo tudo. Vamo matá o bicho e fazê um surrasco no sábado.”

Caso encerrado, ou quase.

Ninguém viu, só dona Lurdinha, madrugadora das antigas, que ficou de bico calado. Neco Viriato estava de partida, iria morar numa encosta de morro lá em Santo Antônio e fabricar queijo colonial e ricota. Como o caminhão do compadre Vieira tinha uma grande carroceria e a mudança de Antônio era coisa pouca, o plano deu certo. O bacuri Pedrinho, ainda sonolento, foi até o sítio ali perto, amarrou uma corda no pescoço da vaca, que não reagiu nem nada, e a levou até o pai, dele. Deu um pouco de trabalho fazer a Princesinha subir pela rampa improvisada, mas valeu a pena.

Não para Eldo Silveira, obrigado a dormir e acordar sempre com a mesma pergunta:

“ Cadê a vaquinha? Cadê ? ”





Postado por Jaime Ambrósio às 21:58 | Marcadores: Santo Antônio   Canasvieiras   Bacuri  

Sábado, 12.02.2011 O espirro

Em qualquer lugar ou situação ele é um atraso de vida, com sua repetência irritante e seu borrifo escandaloso. Já houve jogador de futebol com torcicolo, velhinha que perdeu a perereca (voou), e até cabra macho que terminou a empreitada antes do tempo, sobressaltado. Já, amor?

Mas no trânsito a coisa pode ser ainda pior. Um espirro não mede as conseqüências mecânicas. Paulo Alexandre (professor de português, de cursinho) dirigia o carro com a calma de sempre, cuidadoso, diminuindo a velocidade na faixa de pedestres, deixando a moça bonita passar, também o velho carregando a sacola de compras. A rigor, um bom motorista. Mas aconteceu, e a gramática não explicou. Maldito resfriado! O espirro veio incontrolável, absoluto como Deus. Não deu tempo de tirar o pé do acelerador, pelo contrário, o motorista atordoado pisou ainda mais fundo. Pá-plac!, a onomatopéia da barbeiragem.

Desceu do carro, desceram; tentou se desculpar, dizendo que o problema foi o espirro. O quê? Espirro? Isso mesmo (irônico, para disfarçar o nervosismo): esternutação (?), jato, esguicho, borrifo, expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada pela irritação da mucosa nasal.

Antes de a vítima, do trânsito e do léxico, tentar uma reação chula e braçal, o policial interveio.

A vítima: “Não quer explicar ao guarda o negócio do espirro?”

Paulo: “Que espirro?”

O guarda: “Não explica nem justifica, bateu atrás é culpado”.

O professor descansou a gramática, de nada adiantaria dizer ao PM que a culpa foi de um espirro autoritário, inculto. Ora, bateu atrás o seguro paga, conformou-se. Aliás, deveria haver, isso sim, um seguro contra espirro. Por que não? Acertou os conformes e entrou no carro, que agora teria que ficar alguns dias parado na oficina. Tudo por causa de um espirro lazarento...Então parou numa farmácia e comprou uma tonelada e meia de vitamina C efervescente, aspirina, antigripal e outros medicamentos que previnem acidentes de trânsito.





Postado por Jaime Ambrósio às 23:16 | Marcadores: Léxico   Borrifo   Esternutação   Mucoa   Lazarento     

Quarta-feira, 09.02.2011 Amor e futebol

Juliana ama Nano, que ama Juliana, que era avaiana, assim, como uma rima teimosa. Agora Juliana torce pelo Figueira, igualzinho ao Nano. É que antes estava complicada a relação dos dois, a ponto de o amor querer desmoronar, gol após gol. Quando a TV passava algum jogo do Furacão, Nano não dava bola nenhuma pra Juliana, porque a bola corria era lá no gramado, redonda, incerta. Juliana ficava secando, secando, enquanto fingia fazer as vinte unhas. Por outro lado, quando a telinha mostrava alguma partida do Leão (que urra, urra, urra...) Juliana não ligava, obviamente, para as investidas dele (do Nano, claro), que ficava secando, secando, enquanto fingia ser o Rodrigo Santoro do Estreitcho.

E os jogos na capital? Nano no Scarpelli, livre e solto como os quero-queros lá no gramado; Juliana de ressaca na Ressacada, à mercê dos aviões que voam mais ao alto. E os clássicos? Cada um no seu canto, no seu quadrado, cantando versos de amor ao próximo:

- “Aí, aí, aí...”

- “Eira, eira, eira!...”

Por tudo isso Juliana, numa decisão extremamente difícil e dolorosa, arbitrada pelo coração (e auxiliada pelo cérebro), virou a casaca, trocou as cores , o hino, os percursos, etc. Antes isso do que a dor da separação, avaliou ela. Duda, grande amigo de Nano, e Figueirense roxo de tanto alvinegro, não deixou por menos:

- Viu?, o amor nem sempre é cego, às vezes enxerga muito bem.

Mas tem casos em que a torcedora prefere perder o namorado a trocar de time. Tem torcedor idem. E tem os que acreditam que a prevenção ainda é o melhor remédio. Por exemplo, o Carlinhos conheceu uma certa garota e tal. Dançaram, beijaram-se, ficaram-se. Pouco sabiam um do outro, o que importava era a atração que estavam sentindo, certo? Até que o rapaz resolveu fazer uma pergunta, uma perguntinha apenas, aparentemente ingênua, despretensiosa:

- Ei, gata, qual é o teu time do coração? O da Ilha ou o do Estreito?

- Sou Avaí, claro!

Carlinhos levantou-se (estavam sentados) feito um tufão, um furacão enfurecido, um Catarina desenfreado. Saiu sem ao menos pagar a conta, que fiou por conta dela, que ficou por conta.

- Amor e futebol têm dessas adversidades. Nada como a rotina de seu Alberto e dona Carmem, que torcem pelo mesmo time há muito tempo e por isso não travam nenhuma discussão durante as partidas: seu Alberto gosta de ir ao estádio; dona Carmem prefere ouvir o jogo em casa, no rádio que ganhou de aniversário.





Postado por Jaime Ambrósio às 09:31 | Marcadores: Furacão   Estreitcho   Figueira   Avai  

Quinta-feira, 03.02.2011 Tainha e Costelão

Era uma vez, em algum lugar na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, uma moça muito bonita chamada Tainha e um gaudério pilchado que atendia pelo nome de Costelão. Ela, toda escamosa e figueira (corrigindo: fagueira); ele, cheio de si, no más, trazendo um lenço colorado no pescoço, botas até o joelho e um grande bigode pendurado nos beiços. Era o advento da tradicional Festa Campeira e do Colono, um encontro da cultura e da gastronomia dos dois estados.
Maria Tainha, que sabia preparar frutos de mar como ninguém (especialmente o peixe que lhe dera o nobre apelido), veio do Pântano do Sul a convite dos organizadores. Queriam incorporar àquela festa a comida típica do litoral catarinense. Costelão, filho de um criador de gado, tinha a fama de ser o maior churrasqueiro das estâncias.
Quis o destino que a barraca dos dois ficassem lado a lado, confundindo o cheiro da carne assada com o dos pratos da famosa Ilha de sol e mar. Mas a fumaça do fogo de chão já começava a incomodar a moça, pouco adepta da tal carne exagerada. O gaucho, pra desfazer a fama de grosso, tratou logo de iniciar uma prosa com a bela vivente. Apresentou-se.
- Costelão, ao seu dispor.
- Brigada, inda num tô com fome.
- Eu, me chamo Costelão.
- Ah!... Eu sou Tainha do Pântano.
- Prazer!
- Nem tanto. Esse incêndio aí vai demorá muito? Não é o caso de chamá os bombeiro?
Não foi muito interessante o início da conversa, claro.
Costelão ligou o aparelho de som, música gauchesca daquelas de “animar até defunto”. Depois de quase meia hora Tainha resolveu intervir.
- Ô nego! Não tens aí o Daza, Swing Manero, Tijuquera ou aquele maluco, o Agostinho das latinha?
- Quem, quem ?
- Ihhh! Pelo jeito não conheces nada mesmo. Abaxa o volume, fazendo favô.
O gaudério matutou lá consigo: “É de chinoca assim que eu gosto, um pouco difícil, coxuda que nem leitoa no engorde e mais bonita do que laranja de amostra”. E tratou logo de fazer um agrado, tirou uma lasca de alcatra, cortou em pedacinhos e levou para a vizinha impaciente. Que aceitou, pois não era de seu feitio recusar uma gentileza. E não é que o aperitivo era do bom mesmo?
- Já comesse ova? (perguntou Tainha)
- Ovo? Já.
- Não!... Ova?
- Não.
- E berbigão ensopado?
- Também não, prenda.
- E lula?, marisco?, ostra gratinada?, sopa de siri?, camarão na abobra?
- Camarão, sim, no espeto.
- Tens muito que aprendê no litoral, nego.
E ela nos pampas. Na manhã seguinte ele a levou para conhecer a invernada e a fazenda dos pais. Tainha ficou por lá três dias, montando em cavalo, tomando chima, comendo carne seca e outras carnes churrasqueadas. Depois disso Costelão acompanhou-a até o Pântano do Sul, iria visitar a família dela.
No fim das contas ficou tudo misturado, picanha na brasa com pirão de peixe, moqueca de cação com paleta de cordeiro assada, e por aí. E assim, na desordem dos sabores, engordaram e viveram felizes...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:58 | Marcadores: Chinoca   Vivente   Ova   Moqueca   Pirão  

Terça-feira, 01.02.2011 Pai e filho futebol clube

Mais bonito que bola na rede é a presença de crianças nos estádios. Elas dão um brilho especial aos jogos, são espontâneas, etc. Claro, os adultos que as conduzem precisam ter uma certa paciência, posto que, por natureza, elas são exímias fazedoras de perguntas, além de eternas famintas. A primeira vez de uma criança num estádio de futebol é inesquecível, para ambos os lados. Por exemplo: papai Eduardo e seu filho Dudu.
Chegam descontraídos, camisa e boné do Figueira, mãos dadas. Um dos policiais revista Eduardo, que traz o celular e o radinho de sempre, nada fatal.
- Pai, porque ele não me revistou?
- Porque você é uma criança...
- E se eu tivesse uma arma escondida?
- Tá bem, vou pedir pra ele te revistar.
- Por quê? Eu não tô armado!
O menino quer pipoca e coca, que é pra rimar; Eduardo quer cerveja, mesmo que seja sem álcool, mas gelada. Procuram a fileira, os números. Sentam.
- Vai ter desfile da Coloninha, pai?
- Não, Dudu. É o batuque da Gaviões, a torcida organizada.
- Organizada? Mas tá todo mundo pulando que nem doido.
- É assim mesmo.
Entra o famoso trio de arbitragem.
- Por que tão chamando o juiz de ladrão se o jogo nem começou?
- É assim mesmo.
- Depois eles vão xingar a mãe dele?
- Talvez. E vê se come a pipoca.
- Por que eles não ligam aquela TV?
- É o placar eletrônico, Dudu, que dá o resultado do jogo.
Os jogadores entram. Aplausos, fogos, assobios.
- A festa não tem que ser depois que o time ganha?
- Também.
Começa o espetáculo, a gorduchinha rola, pois é redonda. Logo vem o primeiro quase-gol do Furacão, depois outro, mais um quase-gol.
- Pai, preciso fazer xixi.
- Espera o intervalo.
- Não dá.
Pai e filho desaguando. Eduardo com o radinho numa das mãos. Gooool!!! Pensa em sair correndo, mas deduz que nunca chegaria a tempo de rever o lance, não tem telão. Dudu empolgado também.
- Eu dei sorte, pai, saiu o gol porque a gente veio fazer xixi.
- É, pode ser.
No segundo tempo vem o empate. Na sequencia uma bola na trave adversária (que joga contra) e um pênalti não marcado (pelo juiz do contra).
- Ó, pai!.. Tão mexendo com a mãe do juiz.
- É assim mesmo. Agora vamos fazer xixi de novo.
- Mas eu não tô com vontade.
- Não importa, Dudu? Vamos!!!





Postado por Jaime Ambrósio às 11:10 | Marcadores: Coloninha   Figueira  

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