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Domingo, 27.03.2011 Bola fora


Arrumou-se rapidamente, colocou o calção, a camisa do Flamengo e o tênis de sempre. Não é muito cedo?, perguntou a mulher, um tanto desconfiada. O atleta apressado respondeu que não, e saiu para mais uma partida de futebol suíço, coisa que fazia duas vezes por semana com o insuspeitado objetivo de perder a barriga, que teimava em ficar. Naquela noite o Armando, técnico, amigo e dono da bola, que colocasse um substituto, porque o jogo do Liminha era outro, no vasto campo da Renata, uma colega de trabalho dedicada e que sabia atacar muito bem.

Duas horas na casa da moca. Saiu de lá como quem sai de uma partida que teve prorrogação e disputa nos pênaltis. Então percebeu que havia chovido, e se havia chovido o campo estava molhado. Assim, deduziu Liminha, a indumentária futebolística precisaria estar a caráter, ou seja, suja de lama. Não poderia chegar em casa sem nenhuma marca da intempérie. Por isso parou o carro ao lado de um terreno baldio, não muito longe do apartamento onde morava.. Ainda bem que ninguém percebeu aquele sujeito, àquela hora, pular o pequeno muro, sentar e rolar no capim como doido varrido. Pronto, estava devidamente emporcalhado, a Cleusa não iria suspeitar de nada, não iria fazer nenhuma pergunta.

- Posso saber onde é que o senhor conseguiu sujar a roupa desse jeito?
- Ué!, não viu a chuva? Quando a chuva cai a terra fica molhada, tudo fica molhado. Entendeu ou quer que eu desenhe, amor? (Fazia gracinhas para garantir uma certa naturalidade.)
- Entendi, entendi e vi a chuva, seu traste, mentiroso e, se não me engano, safado. Também atendi uma ligação do Armando, dizendo que o jogo tinha sido cancelado por causa dessa mesma chuva. Quem sabe o Ronaldinho aqui tem algo a dizer sobre isso, heim?! Vamos lá?

Liminha da Silva engoliu um grande seco antes de se posicionar na defesa, que no ataque não dava. Por sorte tinha um raciocínio rápido, respostas sempre na ponta da língua.
- Mas eu, eu não disse que joguei bola, disse?
- É? Então explica melhor, “benzinho”.
- Acontece que o pneu furou na estrada. Você sabe como isso é chato. Ninguém ajuda, o estepe é difícil de ser retirado, as chaves nunca estão onde deveriam estar. Fiquei um tempão debaixo da chuva.
- Sei, sei. Que pena! Não tô vendo é aquela sujeira preta de quem troca pneu, mas tudo bem, a chuva lavou, né? Amanhã cedo dou uma olhadinha no pneu furado.

O tal jogador, para interromper o interminável interrogatório da mulher, foi rapidamente tomar banho, que era a melhor maneira, naquele momento, de esconder a enorme cara de pau. Ainda teria que preparar muitas respostas, porque a Cleusa não era de entregar o jogo assim, no primeiro tempo





Postado por Jaime Ambrósio às 08:58 | Marcadores: Futebol Suiço     

Sexta-feira, 25.03.2011 Bola fora

Arrumou-se rapidamente, colocou o calção, a camisa do Flamengo e o tênis de sempre. Não é muito cedo?, perguntou a mulher, um tanto desconfiada. O atleta apressado respondeu que não, e saiu para mais uma partida de futebol suíço, coisa que fazia duas vezes por semana com o insuspeitado objetivo de perder a barriga, que teimava em ficar. Naquela noite o Armando, técnico, amigo e dono da bola, que colocasse um substituto, porque o jogo do Liminha era outro, no vasto corpo da Renata, uma colega de trabalho dedicada e que sabia atacar muito bem.

Duas horas e meia na casa da moca. Haja preparo físico! Saiu deveras exausto, exatamente como quem sai de uma partida que teve prorrogação e disputa nos pênaltis. Então percebeu que havia chovido, e se havia chovido o campo estava molhado. Assim, deduziu Liminha, a indumentária futebolística precisaria estar a caráter, ou seja, suja de lama. Não poderia chegar em casa sem nenhuma marca da intempérie. Por isso parou o carro ao lado de um terreno baldio, não muito longe do apartamento onde morava.. Ainda bem que ninguém percebeu aquele sujeito, àquela hora, pular o pequeno muro, sentar e rolar no capim como doido varrido. Pronto, estava devidamente emporcalhado, a Cleusa não iria suspeitar de nada, não iria fazer nenhuma pergunta.

- Posso saber onde é que o senhor conseguiu sujar a roupa desse jeito?
- Ué!, não viu a chuva? Quando a chuva cai a terra fica molhada, tudo fica molhado. Entendeu ou quer que eu desenhe, amor? (Fazia gracinhas para garantir uma certa naturalidade.)
- Entendi, entendi e vi a chuva, seu traste, mentiroso e, se não me engano, safado. Também atendi uma ligação do Armando, dizendo que o jogo tinha sido cancelado por causa dessa mesma chuva. Quem sabe o Ronaldinho aqui tem algo a dizer sobre isso, heim?! Vamos lá?

Liminha da Silva engoliu um grande seco antes de se posicionar na defesa, que no ataque não dava. Por sorte tinha um raciocínio rápido, respostas sempre na ponta da língua.
- Mas eu, eu não disse que joguei bola, disse?
- É? Então explica melhor, “benzinho”.
- Acontece que o pneu furou na estrada. Você sabe como isso é chato. Ninguém ajuda, o estepe é difícil de ser retirado, as chaves nunca estão onde deveriam estar. Fiquei um tempão debaixo da chuva.
- Sei, sei. Que pena! Não tô vendo é aquela sujeira preta de quem troca pneu, mas tudo bem, a chuva lavou, né? Amanhã cedo dou uma olhadinha no pneu furado.

O tal jogador , para interromper o interminável interrogatório da mulher, foi rapidamente tomar banho, que era a melhor maneira, naquele momento, de esconder a enorme cara de pau. Ainda teria que preparar muitas respostas, porque a Cleusa não era de entregar o jogo assim, no primeiro tempo.





Postado por Jaime Ambrósio às 17:19 | Marcadores: Indumentária   Futebol Suiço  

Terça-feira, 22.03.2011 Floripa 285

1
A menina: Pensei que Florianópolis viesse de Flor...
O menino: Não,vem de Floriano, aquele Peixoto.
A menina: Prefiro a mentirinha da flor.
2
Que grande cenário a Lagoa! As tintas do pintor anônimo escondem a poluição das águas, mas reproduzem a grande ousadia criativa da natureza.
3
As rendeiras do entardecer não fazem rendas, tecem a vida.
4
Um barco singra o mar, o mar sangra no pôr-do-sol, depois tudo vai virando mistério, um quadro mágico: a Ilha se desnudando em noite.
5
Claudinha queria ir pra Mole, por causa do Evandro, um colega do cuso de inglês; Júnior preferia a Joaca, porque os amigos surfistas estavam lá; Naldinho, o caçula, bateu os pés, dizendo que em Jurerê o mar era baixinho; Clarisse, a mãe, sugeriu a Brava, já que a sobrinha Leandra queria conseguir um autógrafo do Guga. Vai que ele esteja lá? O cão chamado Urso latiu, mas a opinião dele não contava, e lugar de cachorro não é na areia.
Estava formada uma grande balbúrdia enquanto o sol, tímido de ter recém nascido, aguardava.
- Chega! – disse o chefe da prole - A gente vai pra Armação do Pântano do Sul (Por causa do peixe frito da hora e de uma cachaça da boa que tem por lá)
6
A grande ponte suspensa, obra estagnada em promessas e projetos, tornou-se um elo de história, mas deixou de ser uma passagem lírica daqui pra lá, de lá pra cá. A ponte Hercílio Luz é um poema de ferro e solidão, que espera, pacientemente...
7
No Mercado Público tem tainha e camarão, samba, pescadinha, arraia e berbigão, sandália de couro, casquinha de siri, vendedor de Federal, bacalhau, caldo de cana, banana, bacanas e manes, bonés, moça bonita, peixe chamado bonito e salmão, seu João, Chico, Alvim e Nelsinho, filezinho de espada, carne seca picada, ostras e outras, lula, foto do Fernando Henrique, ic!, festas, arestas, Orestes, evidentemente, chope aqui e ali, Lili e Marli, coxinhas e coxonas, mexilhões, pingas e gringas, políticos e solícitos, desocupados, amados ou não, ala norte, outras alas. O Mercado é público, único, democrático.
8
A figueira da praça XV é uma floresta de segredos. O tronco monumental, com seus braços retorcidos, amparados por escoras metálicas, ainda suporta as folhas e os musgos, também os mistérios. A figueira sabe de coisas que mais ninguém saberá. Ouviu e ouve promessas e juras de amor, declarações insólitas, pequenas confissões de políticos, armações, cantorias.
A grande árvore conhece a alma da cidade. E se diverte com o bêbado que não para de falar, com o pregador ensandecido, com as marchinhas de carnaval, com os blocos de sujos, os vagabundos, o pintor de telas rápidas, as mulheres que dão voltas pra conseguir marido, e os jogadores de dominó.
9
A catedral atrai fiéis e turistas, desempregados, desesperados, humildes e burgueses, penitentes, historiadores. A catedral metropolitana é um monumento de pedra e fé, de argamassa e silêncios, altares, contornos neoclássicos e linhas rococó. Oração e estética.
285
A menina: E por que chamam a cidade de Floripa?
O menino: É um apelido, apenas um nome menor, mais fácil de dizer.
A menina: Então vou chamar de flor, é menor ainda, e mais bonito.
O menino: Não, né, deixa assim mesmo, pra não dar confusão.





Postado por Jaime Ambrósio às 14:26 | Marcadores: Balbúrdia   Prole  

Segunda-feira, 21.03.2011 Floripa 285

1
A menina: Pensei que Florianópolis viesse de Flor...
O menino: Não,vem de Floriano, aquele Peixoto.
A menina: Prefiro a mentirinha da flor.
2
Que grande cenário a Lagoa! As tintas do pintor anônimo escondem a poluição das águas, mas reproduzem a grande ousadia criativa da natureza.
3
As rendeiras do entardecer não fazem rendas, tecem a vida.
4
Um barco singra o mar, o mar sangra no pôr-do-sol, depois tudo vai virando mistério, um quadro mágico: a Ilha se desnudando em noite.
5
Claudinha queria ir pra Mole, por causa do Evandro, um colega do cuso de inglês; Júnior preferia a Joaca, porque os amigos surfistas estavam lá; Naldinho, o caçula, bateu os pés, dizendo que em Jurerê o mar era baixinho; Clarisse, a mãe, sugeriu a Brava, já que a sobrinha Leandra queria conseguir um autógrafo do Guga. Vai que ele esteja lá? O cão chamado Urso latiu, mas a opinião dele não contava, e lugar de cachorro não é na areia.
Estava formada uma grande balbúrdia enquanto o sol, tímido de ter recém nascido, aguardava.
- Chega! – disse o chefe da prole - A gente vai pra Armação do Pântano do Sul (Por causa do peixe frito da hora e de uma cachaça da boa que tem por lá)
6
A grande ponte suspensa, obra estagnada em promessas e projetos, tornou-se um elo de história, mas deixou de ser uma passagem lírica daqui pra lá, de lá pra cá. A ponte Hercílio Luz é um poema de ferro e solidão, que espera, pacientemente...
7
No Mercado Público tem tainha e camarão, samba, pescadinha, arraia e berbigão, sandália de couro, casquinha de siri, vendedor de Federal, bacalhau, caldo de cana, banana, bacanas e manes, bonés, moça bonita, peixe chamado bonito e salmão, seu João, Chico, Alvim e Nelsinho, filezinho de espada, carne seca picada, ostras e outras, lula, foto do Fernando Henrique, ic!, festas, arestas, Orestes, evidentemente, chope aqui e ali, Lili e Marli, coxinhas e coxonas, mexilhões, pingas e gringas, políticos e solícitos, desocupados, amados ou não, ala norte, outras alas. O Mercado é público, único, democrático.
8
A figueira da praça XV é uma floresta de segredos. O tronco monumental, com seus braços retorcidos, amparados por escoras metálicas, ainda suporta as folhas e os musgos, também os mistérios. A figueira sabe de coisas que mais ninguém saberá. Ouviu e ouve promessas e juras de amor, declarações insólitas, pequenas confissões de políticos, armações, cantorias.
A grande árvore conhece a alma da cidade. E se diverte com o bêbado que não para de falar, com o pregador ensandecido, com as marchinhas de carnaval, com os blocos de sujos, os vagabundos, o pintor de telas rápidas, as mulheres que dão voltas pra conseguir marido, e os jogadores de dominó.
9
A catedral atrai fiéis e turistas, desempregados, desesperados, humildes e burgueses, penitentes, historiadores. A catedral metropolitana é um monumento de pedra e fé, de argamassa e silêncios, altares, contornos neoclássicos e linhas rococó. Oração e estética.
285
A menina: E por que chamam a cidade de Floripa?
O menino: é um apelido, apenas um nome menor, mais fácil de dizer.
A menina: Então vou chamar de flor, é menor ainda, e mais bonito.

O menino: Não, né, deixa assim mesmo, pra não dar confusão.





Postado por Jaime Ambrósio às 11:22 | Marcadores: Floripa   Praça Xv   Herciloio Luz  

Quinta-feira, 17.03.2011 O mão-de-vaca

O cara, decididamente, era único - a personificação perfeita do mito de levar vantagem em tudo. Certo, Gerson? Mas o sujeito atendia pelo nome de Adroaldo e o único cruzamento que sabia fazer era aquele da sinaleira, para atravessar a rua e chegar, inteiro, até o Bar do Valdir. Mão-de-vaca de carteirinha era era dono de várias pérolas do anedotário popular ali do bairro.
- Vamos ver o Figueira hoje no Scarpelli, Adro?
- Só vejo no meu radinho de pilha, que não cobra ingresso.
No boteco era assim: pedia uma pinga misturada com amargo e bebia em goles de papagaio, apenas molhando os beiços. Depois de quase uma hora pedia uma cerveja, de latinha. Gelada, heim, Valdir. E lá ficava, dando um gole, reclamando dos políticos.

- A cerveja vai esquentar, Adroaldo!
- Melhor, assim dura mais.
Gostava de comprar frutas e legumes no Cestão Popular, que tinha preço único e uma grande variedade. Mas gostava, sobretudo, porque conseguia comer bananas, goiabas e tangerinas sem pagar. Enquanto todos procuravam os melhopres produtos no menor tempo possível, Adroaldo, muito calmamente, ia colocando uma fruta na sacola plástica e outra no estômago. Ninguém reparava, nem os funcionários, que tinham mais o que fazer. Por fim ia pra casa com um quilinho de coisas na sacola e uma pança abarrotada.
- Tô colaborando pra diminuir o desperdício depois.
- Mas como deu pra perceber, tinha uma coisa que ele não economizava, o papo. Eta cabra que gostava de jogar conversa fora! Tinha resposta pra tudo e mais um pouco.
- Tua sorte, Adroaldo, é que o governo não cobra imposto de quem fala pelos cotovelos.
- Por enquanto, por enquanto. O negócio é aproveitar bastante agora.

-






Postado por Jaime Ambrósio às 10:20 | Marcadores: Scarpelli   Gerson     

Sábado, 12.03.2011 O Dilúvio II

Durante aquele aguaceiro de vários dias, um verdadeiro dilúvio, Genuíno Porfírio concluiu que o mundo havia acabado. E já não era hora? - interrogou-se como quem fala com Deus. Não foi o fogo, nem a guerra, nem as pestes tantas. Novamente a água cobriu a terra. Sobrou ele e alguns animais, como na história daquele Noé longínquo que, além dos bichos, tinha uma família para salvar. Mas Genuíno era sozinho fazia tempo, nunca quis dividir o abrigo com outras pessoas. Tinha 70 anos no lombo encurvado, talvez mais, não menos. Ainda tinha forças para as lidas, embora a vista fosse um pouco embaralhada.

Morava numa região ribeirinha, mas precavidamente instalou-se em cima de um pequeno monte. Passara por outras enxurradas, que trouxeram a água até uma certa altura. Mas nada que pudesse prejudicar, lá no alto, as lavourinhas de mandioca, batata e milho, culturas que lhe garantiam parte da alimentação. Para completar o sustento pescava no grande rio ou abatia, com a espingarda espalhadeira, algum animal na margem do mato, que era a margem das águas, a margem da vida. Agora, entretanto, o mundo estava desabado. Mal dava para sair da casinha que, teimosamente, agüentava firme em cima de seis caibros de tronco de peroba. Pelas frestas do assoalho Genuíno podia ver a água se arrastando a dois palmos do chão, não conseguia ver a terra; pela janela tudo era um único rio debaixo do mesmo céu, o mundo havia sumido. Não havia roça, nem mato, não havia sabiás como antes. Os seus bichos ele os trouxe para dentro da casa. Estavam salvos, mas famintos. Então começou a angústia de Genuíno: não havia mais o que comer.

Logo começaram a se comportar de modo estranho, bichos e homem. Se algo não fosse feito provavelmente todos, ali, tentariam devorar-se uns aos outros. Não haveria mais complacência nem ternura, só o instinto. Sobraria o mais forte, que depois também ficaria sem comida. A vida urgia através do estômago, a fome era um demônio avassalador. E como escolher qual seria o primeiro animal? Genuíno levou em conta a relação de afeto estabelecida anteriormente com ele. O amor, mais do que egoísta, seria agora mortal.

Primeiro foi Anastácia, galinha velha que durante anos anunciou o romper da madrugada com uma seqüência exata de cocorococós prolongados. Ela pressentiu o destino que lhe era reservado e tentou escapulir. Para onde, Anastácia? O cão Godofredo cravou os dentes no pescoço da ave apavorada. Para encurtar sua dor Genuíno apanhou a faca e decepou-lhe a cabeça, que logo foi disputada por todos os bichos. O sangue também. Mal depenou a galinha teve que dividi-la entre os vários comensais. Para si reservou uma parte do peito, que temperou com sal e pimenta. Chamuscou-a na chama do lampião, que ainda funcionava graças a um resto de querosene. Mastigou, sôfrego, e bebeu água suja para limpar o estômago.

A chuva parecia querer parar, a fome não.

Genuíno precisou fazer uma nova escolha, mas os dois papagaios, Bastião e Chico, os próximos da lista, levantaram vôo e sumiram pela janela afora. Sabe Deus aonde iriam pousar as asas. Por eliminação era a vez do bode Sargento, que percebeu o perigo, mas não teve agilidade para a fuga incerta. Prostrou-se, assim, ao destino marcado. Genuíno carneou o bode, mas dividiu apenas uma parte da carne, guardando a outra para o dia seguinte. Pegou uma tábua do estrado da cama e com o facão tirou algumas lascas. Ainda restavam alguns palitos de fósforo. Acendeu o velho fogão e fez um guisado.

Quatro dias depois as águas começavam baixar lentamente. Agora eram apenas eles dois, Genuíno e Godofredo. Já podiam caminhar lá fora, num raio de alguns metros, mas havia somente lodo, nada que pudesse servir de alimento. Com sorte Genuíno conseguiu desenterrar uma raiz de mandioca, que cozinhou junto com o último pedaço do coelho chamado Cirilo.

Dia seguinte a fome chegou cedo, mas nada havia que lembrasse comida. A noite se aproximou, devagar. Homem e cão se espreitavam. Genuíno fechou-se na casa. Godofredo lá fora, rosnando. Genuíno colocou alguma pitadas de sal na mão e lambeu-as vorazmente. Depois bebeu muita água e dormiu.

O homem, da janela, analisa o cão, que analisa o homem. As horas passam. A fome perfura a carne e arranha a lucidez. Genuíno pega a faca, abre a porta e avança contra Godofredo. Os dois, homem e bicho, engalfinhados, rolam pelo chão e deslizavam até as águas profundas lá embaixo. Desaparecem.

O silêncio só é quebrado pelos dois papagaios, Bastião e Chico, que pousam na soleira da porta com um ramo de frutinhas no bico.





Postado por Jaime Ambrósio às 10:13 | Marcadores: Dilúvio   Bode     

Domingo, 06.03.2011 O espelho

Fim de tarde. Congestionamento na Ilha. A vida é fragmentada, aos poucos: embreagem-acelerador-embreagem-freio; tudo de novo, outra ordem. A boa música no rádio restabelece a calma necessária, Marisa, Norah, Djavan. O sol bocejando nas superfícies, cansado. O homem olha pelo espelho, descobre a mulher lá atrás. Mas ela já o havia percebido dentro do retângulo do mesmo espelho, corpo limitado, semblante, fronte, olhos. Os olhos refletem mais a alma do que o corpo, refletem cores e segredos. Olham-se como se não houvesse mais nada para ser visto na terra, dois estranhos expostos na ilusão do espelho, imagens reversas, o reverso da paixão. O trânsito não haverá de fluir naquele momento consagrado: que o caos seja eterno enquanto dure! Entre buzinas e motores homem e mulher, prisioneiros do espelho, contemplam-se num frenético diálogo de frases mudas.

Então ela o deixa se distanciar um pouco, o suficiente para poder anotar a placa. A placa. Para ele a tarefa é mais difícil, letras e números invertidos. Mesmo assim anota-os, depois é só desvirá-los. O fluxo do tráfego recomeça, aumentam os espaços entre os carros. Ele quase bate, distraído. Olha pelo espelho e não a vê mais. Em poucos segundos ela sumiu, feito estrela fugida, um raio de sol. Por onde andarás? De que cor incandescente é teu mistério? Então uma buzina grita ao lado, urgente. Os dois se olham e sorriem, transbordados de adrenalina, como no afã do primeiro encontro. Estão marcados, amaldiçoados pela brusca paixão. No sinal vermelho ela diz que é Maria; Roberto, ele é Roberto. O sinal abre, eles seguem por caminhos diferentes, precisam obedecer seus rumos, Continente, Lagoa da Conceição.

Dois seres impacientes perdidos numa cidade cheia de direções, entre ruas e edifícios, buscando-se. Num supermercado o amor por um triz: ele no corredor das bebidas; ela escolhendo mortadela Bologna sem gordura. No shopping ela o viu de longe, correu, disse Roberto; era Eduardo, algo parecido. Perdão, moço. Nas danceterias todos são iguais, robozinhos gêmeos, mesmos gestos, prazer, fumaça, fuga, luzes fugazes, talvez uma paixão incerta, nada mais. No mirante da Lagoa ela tirava fotos com umas amigas; ele passou direto, burro. Quem sabe num barzinho de frente pro mar, lá na estrada das rendeiras? Mas tudo era em vão no sadismo do acaso.


Roberto vai ao Detran, mostra o número da placa. Precisa do telefone de Maria, ou do seu endereço. É um caso de paixão no trânsito, senhora. Quantas taxas é preciso pagar? Negativo, não lhe fornecem nada, são as regras. O Detran não sabe o que é o amor.

Maria faz o mesmo; fazem o mesmo com ela. Mas não desiste de procurar. Resolve ficar no cruzamento onde confessaram seus nomes, seu espontâneo amor. Ali ela entrega panfletos para os motoristas, propaganda de um restaurante de frutos do mar. Três dias seguidos, fim de tarde, congestionamento, o sol esparramado sobre as coisas. Mas Roberto não havia pensado nisso, em mudar seu trajeto, passar de novo por aquela avenida que não era seu caminho natural. Quando finalmente vislumbrou aquela possibilidade, Maria já não estava mais, cansara-se de provocar o destino.

Roberto procurando-a pelos espelhos, olhando em todas as direções numa louca procura. Quando o sinal abre decide mudar o traçado, buzina, sinaliza, acelera, mas é tarde, bate num outro carro, blasfema. Mas algum deus incansável estava ali, escrevendo certo por vias tortas. Roberto e Maria saem dos carros, máquinas amassadas, sorriem com alguns arranhões pelo corpo e o coração descompassado, e se abraçam como se fossem velhos amantes, como se a vida fosse um filme, um filme tolinho de final feliz. Beijam-se vorazes, alheios a tudo, enquanto a câmera se afasta lentamente e o caos, outra vez, se instala no trânsito da Ilha.

Ninguém no cruzamento entendeu aquilo.






Postado por Jaime Ambrósio às 09:42 | Marcadores: Continente   Norah   Incandescente   Bologna  

Quinta-feira, 03.03.2011 Escafedeu-se o conto

Um dia o autor perdeu um conto e quis assassinar a empregada.

Por engano ele (avesso à tecnologias) tinha deletado o texto do computador, mas havia uma cópia, uma cópia impressa. Mas ela (a empregada) jurou pela alma do finado pai que não havia jogado no lixo aquele envelope marrom. Hmmm! Como sabia que o conto estava dentro de um envelope marrom? Janaína tremeu um pouco nos alicerces, mas confessou (coitada!, ela que tinha como maior defeito não saber mentir): havia lido a história, patrão. O autor (que a despeito de ser um pouco destemperado tinha bom senso e não sabia humilhar nem uma barata) perguntou o que ela tinha achado da narrativa. O final, senhor, o final. O que tem o final, criatura? Não pode ser assim, patrão. O personagem central, ele sofre o tempo inteiro, perde a mulher para um amigo, o cachorro morre atropelado, ele perde o emprego, é despejado. Quando tudo parece perdido o homem acerta na loteria, fica milionário. A mulher, então, quer voltar; ele não aceita. Ela diz que tem direito a uma parte da grana; ele nega, responde que ela fugiu com outro, que é abandono de lar. Então ela mata ele (ela o mata, Janaína).Que seja, ela o mata ele. Mas o que tem de errado no final, ô bendita? Assim, patrão: com quem vai ficar o dinheiro? Pra ele é que não, defunto não tem necessidade de gastar. Pra mulher?, que vai enganar a Justiça? Ou pra Caixa Econômica? Pausa para reflexão e para mudar de parágrafo, que este ficou muito longo...

Mas aí, Janaína, é um desfecho sem desfecho, entende? Um final em aberto, para mexer com a imaginação do leitor. Não concordo, o autor és tu. A responsabilidade és tua. E o que mais, mulher? Ora, patrão, então o cara se dá mal sempre, apanha na vida que nem cachorro de rua, e quando fica rico, morre. Que graça tem nisso? Quem garante que ele vai ter a recompensa lá no outro mundo? Tem que ser igual nos filmes de drama: no final, depois de muita desgraça, o mocinho vence os inimigos e continua vivo, como se a vida fosse um prêmio pra ele. Mas, mulher, tu vistes, por exemplo, Romeu e Julieta? O vi, o vi e não gostei. Tava mais ou menos bom até o final, mas o neurótico do autor tinha que fazer sujeira bem na saída. Me diga: se os dois ficassem juntos, mas vivos, ia dar menos bilheteria? Não, pelo contrário. Mas o povo, que já é triste por causa da vida, ia sair do cinema um pouco mais feliz. Sem dúvida, Janaína, Shakespeare, o diretor, deveria ter avaliado melhor esse dilema: sair ou não sair feliz, eis a questão.

O autor (este daqui, não o de lá) estava deveras impressionado com a desenvoltura literária da empregada, sua lucidez crítica, seu senso de humor visceral. Tinha razão ela: o cara do conto não tinha que morrer, talvez sumir para o Caribe ou Fernando de Noronha, longe das garras da mulher, cheio de cifras, vingado. E pôs-se o autor a reescrever a história, modificando a trama, redesenhando cada personagem. Mas eis que a empregada, ávida, quase sem respirar, grita-lhe rente à porta do quarto (o autor escrevia no quarto):

- Patrão! Patrão! Achei o conto. Tava dentro do cesto de roupa suja. Mas não fui eu, juro!
- Rasga, Janaína! Rasga! E me traga os óculos, devem estar dentro da geladeira. Depois volta aqui, preciso que você comente uma outra história.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:28 | Marcadores: Escafedeu-se   Caribe   Shakespeare  

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