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Quarta-feira, 27.04.2011 Essa tal felicidade mané

Felício, professor de geografia aposentado, e cujo nome conspirava a seu favor, tinha sempre uma resposta (ou observação “filosófica”) à altura de qualquer pergunta (ou afirmação prepotente) de alguém. Dia desses um vizinho cosmopolita e falastrão, que havia retornado de uma viagem de 15 dias à Europa, pôs-se a discorrer sobre a maravilha que é visitar o Velho Continente. Que lá sim é civilização, os teatros, os restaurantes, os vinhos finos, a arquitetura, a tecnologia; que um país é pertinho do outro, algumas quadras, é só pegar um trem e pronto: Itália, França, Inglaterra, Portugal, Alemanha. Felício só ouvindo, preparando a réplica.
- Não seja por isso, vizinho, aqui, saindo da “Ilha de Todos”, cheia de recantos e encantos, (tirando-se os espantos), atravessando a ponte, a gente encontra um mundo parecido com aquele, tudo pertinho. E tem vinho colonial, pousadas rústicas, hotéis modernos, construções em estilos variados, praias e morros, danças nos palcos e nas ruas, muito chope, culturas diferentes. É só pegar o carro e pronto: São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, e suas águas, São Pedro, Alfredo Wagner, Rancho Queimado, Nova Trento. Se quiser prosseguir tem muito mais opções, e nem é preciso gastar tanta gasolina, que agora tá pela hora da morte.
Quando Felício se referiu às águas da região de Santo Amaro, ele quis dizer mais, pois levou em conta não só os benefícios das termas (para o corpo) mas, veladamente, também os da cachaça produzida à cântaros por lá (para os espíritos inquietos). Moderadamente, concluiu ele ao arrumar o discurso.
- São coisas diferentes, Europa e aqui, Felício.
- Diferentes, mas parecidas. Veja você alguns nomes pátrios: Nova TRENTO, Nova VENEZA, Ingleses, Santo Antônio de LISBOA, Treze Tílias (O Tirol brasileiro), Oktober...
- Oktober não é é um lugar, é uma festa.
- Alemã. E tem outra: as belezas daqui são incomparáveis.
- Então resolveram comparar. O vizinho propôs que a cada “coisa européia” que ele, o vizinho, citasse, Felício fizesse uma comparação com algo daqui. Eram duas velhas crianças brincando de palavras.
- Torre Eiffel.
- Farol de Santa Marta.
- Mônaco.
- Lagoa da Conceição
- Barcelona.
- Agora com o Neymar ficou complicado
- Falei da cidade.
- Passa essa...
- Os Alpes suíços.
- Urupema e Urubici abaixo de zero.
- As touradas de Madrid.
- A farra do boi de Governador. Mas é proibida, eu sou contra...
- Bacalhau à Gomes de Sá com vinho do Porto.
- Tainha recheada à Zé do Ribeirão com cachaça de lá mesmo.
A despeito das agruras do dia a dia e das coisas lá de Brasília, Felício era um nativo feliz, por algumas razões: morava a poucos metros do mar; tinha amigos e alguns devotos das coisas boas; não era rico, mas o que tinha usava para o bem-viver; o canário da gaiola cantava mais que o curió do vizinho; o time do coração ia bem na foto, embora a defesa fosse um problema cardíaco; as águas estavam sempre para peixe e Felício adorava pescar. Mas era a natureza “alumiada” da Ilha o que mais lhe trazia satisfação de guri pequeno. Mesmo com o desvario imobiliário, mesmo com a volúpia devastadora dos construtores (não há, ainda, loteamentos no mar, nem chalés pendurados nas estrelas), a poesia das formas naturais persiste.
Gostava de levantar com o sol. Se o céu estivesse nublado, quem lhe acordava era o canarinho de peito amarelo, relógio pontual que executava uma alegre sinfonia de trinados. Então Felício abandonava a casa e por algumas horas ia morar no mundo aberto, feito de terra, areia, mar e mato.
E por conta de tanta beleza que não dava pra contar, a Ilha se enchia cada vez mais de turistas deslumbrados. Vinham daqui e dali, de vários pontos do mundo, até de lá, de onde os países são geminados, como as casas de Santo Antônio de Lisboa, lembranças dos Açores. Nem essa “invasão” diminuía o folguedo na alma Mané de Felício.
- Visse, vizinho? A Europa veio ater a gente, ó-lhó-lhó!





Postado por Jaime Ambrósio às 19:02 | Marcadores: Alumiada   Oktober  

Quarta-feira, 20.04.2011 Os energúmenos do trânsito

Quantos energúmenos o trânsito comporta? Mais do que sonha a nossa vã sabedoria... Eles estão por aí, infiltrados nos cruzamentos, em frente às danceterias e bares, nos estacionamentos... e nas rodovias. Alguns jazem nos cemitérios, mas esses só incomodam os defuntos que gostam de assobiar melodias de Mozart e Haendel. Os demais incomodam, incomodam muita gente aqui. Claro que não são todos iguais, a diferença está no grau da idiotice. Os menos nocivos, que ficam no nível dos chatos insuportáveis, são aqueles que, por falta de autoconfiança e sensibilidade (acústico-cultural), equipam o carro com os mais potentes equipamentos e desfilam pelas ruas com o som no último volume, no último limite dos tímpanos. Dane-se o silêncio dos comuns! Mas o que eles gostam mesmo é de estacionar em algum ponto movimentado, onde haja garotas fúteis e descerebradas. Sentem-se os maiorais da Terra. Nesta laia juntam-se também os que adoram acelerar e ao mesmo tempo pressionar a embreagem, cantando pneu, rodopiando, soltando o inconfundível monóxido para todos os lados. Asfixiam o ar e riem à vontade. De que rides, ó néscios?, diria um perplexo Shakespeare.

Tem aqueles que ao beber demais acham-se demais, correm demais. Não há reflexo nem nexo. Por fim a falta de sorte, que rima com corte, que rima com morte. Ou morrem, ou matam, mas de qualquer maneira viram estatística e engordam as páginas policiais. Fica o sangue no asfalto a desenhar perguntas; fica o pranto, convulsivo, a procurar respostas.

E o que falar dos energúmenos que, depois das baladas transcendentais de sábado à noite, reúnem-se num grupo fiel e aventureiro para os festivos rachas? Sabem exatamente aonde ir, e vão, mostrando arrojo, desenvoltura e sagacidade, tudo conseguido através de pequenas ajudas químicas. Querem impressionaras namoradas, que os assistem na margem da rodovia, espevitadas, gritando euforicamente como loucas indomáveis. É o apogeu da adrenalina. Eles lá, em duplas (não seriam parelhas?), perfilados, roncando os motores, até que alguém dá o sinal. Lá vão os intrépidos jovens em suas máquinas voadoras, desafiando o tempo e o vento. A odisséia no asfalto dura poucos segundos, mas a sensação que fica dura bem mais, traz um gozo prolongado ao ginete urbano, possuído pelo êxtase da aventura criminosa. Dificilmente há empate, então o vencedor nem sai do carro, aguarda o próximo “adversário” para mais um pega. São donos do destino, acham que nada de errado lhes acontecerá, ou pouco ligam pra isso. Mas às margens da estrada agrupam-se pequenas casas, barracos com operários que tiveram o sono interrompido por causa do barulho infernal. Alguns espiam pelas janelas e soltam palavrões; outros deixam pra lá, tentam dormir assim mesmo, é apenas ,mais um perigo na vida, a exemplo de tantos outros. Os energúmenos dentro dos carros, potenciais assassinos, sabem que suas mães estão em casa, seguras; as vítimas serão as mães dos outros.

Deus nos salve dos energúmenos do trânsito!... ou a polícia.

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Matéria de site: “Acidentes no Transito”

No Brasil mais de 40.000 pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de transito, porém acredita-se que estes números são maiores pois as estatísticas são falhas. Só nas rodovias paulistas em 2001 ocorreram 61.000 acidentes com 2.300 mortes e 23.000 pessoas gravemente feridas. Até 15 de fevereiro já morreram 703 pessoas nas rodovias federais, resultado de 13.400 acidentes. Em todo o mundo o trânsito ceifa vidas, porém os números brasileiros são alarmantes e disparam na frente de qualquer país do mundo.

CAUSAS MAIS COMUNS DE ACIDENTES DE TRANSITO

Erro humano, em todo o mundo, é responsável por mais de 90 % dos acidentes registrados. Principais imprudências determinantes de acidentes fatais no Brasil: por ordem de incidência:

* Velocidade excessiva;
* Dirigir sob efeito de álcool;
* Distancia insuficiente em relação ao veiculo dianteiro;
* Desrespeito à sinalização;
* Dirigir sob efeito de drogas.

Fatores determinantes das imprudências:

* Impunidade / legislação deficiente;
* Fiscalização corrupta e sem caráter educativo;
* Baixo nível cultural e social;
* Baixa valorização da vida;
* Ausência de espírito comunitário e exacerbação do caráter individualista;
* Uso do veículo como demonstração de poder e virilidade





Postado por Jaime Ambrósio às 10:41 | Marcadores: Energúmenos   Monóxido   Mozart  

Domingo, 17.04.2011 Bingo!


Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar o acontecimento. Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais alegre, passou uma colônia nova e raspou o bigode ralo que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer o frango assado?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:33 | Marcadores: Bingo   Profano  

Quinta-feira, 14.04.2011 A vida, que continua

Um grupo de percussão toca no Largo da Alfândega. Em volta algumas pessoas acompanham o ritmo com palmas cadenciadas; outras só observam. Salvador é aqui, numa sexta-feira com o dia pela metade, meia-hora, se muito. Os pombos de sempre comem milho jogado pelo velhinho de sempre, que se deleita com o espetáculo das aves. Não quer a música dos tambores, o velho; quer a beleza das asas ruflando, uma sinfonia de liberdade e paz.

Um homem, que é negro e magro, está estirado no chão ali perto, bem perto. Alguns pombos ainda famintos o cercam, ninguém mais o cerca. Está dormindo o homem, anestesiado pela cachaça, ou está morto. Quem sabe? Quase não tem lembranças, mal sabe quem é. Talvez esteja sonhando, porque, a despeito de tudo, sobram-lhe os sonhos, secretos e ligeiros, límpidos ou nebulosos. O cão, que é comprido e o conhece de outros rumos, lambe-lhe os pés descalços e aninha-se ao lado. Já compartilharam pão e desdém juntos, noites frias em cobertores de jornais. Agora, ali, são dois bichos alheios ao mundo, às pessoas e aos ruídos do universo. Uma chuva fina e sorrateira cai sobre seus corpos, mas nada muda.


O pequeno espetáculo do grupo de percussão termina. As pessoas vão para o trabalho ou para casa ou para nada. A vida continua.

O homem estirado no chão desperta com o barulho do silêncio. Levanta e sai saracoteando pelas ruas, dançando uma batucada que ficou retumbando dentro da alma. O cão o segue na confusão dos passos.





Postado por Jaime Ambrósio às 22:19 | Marcadores: Percussão   Sinfonia  

Segunda-feira, 11.04.2011 A risada de Tati


Não se contentando em ser bonita e ter um sorriso pra lá de Colgate, Tati (a intenção foi a rima) decidiu também ter a risada mais popular da rua, da casa, do bairro, do trabalho...
Como alguém pode ter uma risada tão assim?, forte, longa, mas sem parecer um escândalo? Pelo contrário, é riso de alegria pura, que mexe com as almas em redor, que contagia... Rir naturalmente, que é riso sincero, que não mente. Rir para o mundo, para a vida, para as gentes; não rir de gentes, dos outros, como tantos outros, aqui e ali, que cospem pregos estridentes, pra ferir os egos ou difamar.
Talvez o RH da empresa devesse dar um adicional de riso para a Tati. Imaginem no contra-cheque: adicional de riso. Mas não, isso é um dom, algo que veio da natureza. Não tem preço.
Tati é assim: você avisa que vai contar uma piada, e ela já está com a gargalhada pronta, na ponta da língua. No ônibus, quando ri, destrói todas as conversas, que recomeçam depois, mais animadas. E se empacotasse e vendesse esse produto, a risada? Ficaria milionária. Mas não se vende risada, espalha-se apenas pelo ar...

Fizeram uma pesquisa sobre a importância do riso. Na revista “Vida Simples” foi publicado esse texto:

“Para a antropóloga Miriam Goldenberg, que lidera a pesquisa, as pessoas que riem bastante tornam-se mais atrativas, porque demonstram capacidade de brincar com os problemas, rir de si mesmas e não se importar tanto com o que os outros pensam.Dar uma boa gargalhada é algo sério . Ri melhor quem ri com o outro, quem compartilha a sensação de estar descontraído e de bem com a vida; porque isso indica intimidade e ajuda a manter e a fortalecer as relações. Então, da próxima vez que alguém começar a gargalhar numa reunião de trabalho, por exemplo, não esquente. O ambiente vai ficar mais leve: afinal, rir não tem contra-indicação.”

Ria, Tati, sem moderação. O Ministério da Saúde recomenda.





Postado por Jaime Ambrósio às 15:39 | Marcadores: Miriam Goldenberg   Rh  

Terça-feira, 05.04.2011 Farra de quem?


Altino, quem diria, não era extamente o mesmo Altino. Agora estudava e trabalhava seriamente, compenetradamente. Mas estava valendo a pena, fez uma reciclagem nos conceitos e deixou de lado certas farras inconseqüentes, inclusive a do boi. Na última vez que alguém o convidou houve um entrevero que dividiu as águas, e olha que foi com o Dejanir, um amigo da infância, que não volta mais (a infância, pois o amigo pode ser que ainda volte um dia).

- Altino, a gente reuniu um grupo de sócios. Vamos brincar com o boi?
- Só se a tua irmã for também.
- Epa! Deixa a Catina fora disso.
- Então deixa o Altino aqui fora também.
- Mas você sempre gostou. Olha, o boi já tá na carroceria da caminhonete. Só falta você.
- E eu lá sou boi?
- Não quis dizer isso. O pessoal tá esperando, tem muita cachaça da boa.
- Agora só bebo vinho, que faz menos mal à saúde.
- De farra com mulher você ainda gosta?
- Pergunta pra Catina.
- Epa!

Dejanir ameaçou erguer o braço bombado, mas recuou, em nome da antiga amizade.

- Qual é o problema em participar de uma farra?
- É? Então se coloca no lugar do boi.
- Perai, o animal tá condenado mesmo, vai virar churrasco de qualquer maneira. Você não gosta de uma picanha no ponto?
- Mas não de boi vivo. E quer saber, tô pensando em virar vegetariano.
- Ihhh!...
- Qual é a graça de ficar açoitando um boi, rindo dele, que fica lá, acuado, sem conseguir se defender? Qual é a graça de humilhar um bicho desesperado, espumando de raiva?
- O problema é sério, então?
- Que problema?
- o teu.
- Não deu outra. A farra que se viu foi a de Altino e Dejanir.
- Animal vestido!
- É? Experimenta essa patada, istepor.
- Os “sócios do boi”, que aguardavam na caminhonete, correram para separar a briga. Altino foi o mais prejudicado, levou uma direita no supercílio esquerdo. Nisso alguém gritou, observando que o boi havia se aproveitado do vacilo para fugir. Por sorte, do animal, uma viatura da PM chegava naquele momento. O boi foi recolhido e o farristas sumiram, foram dividir o prejuízo (fazer o quê?) e beber o resto da cachaça.

Catina, toda condoída e tal, cuidava muito bem dos ferimentos de Altino...





Postado por Jaime Ambrósio às 21:59 | Marcadores: Farra   Sócios Do Boi     

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