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Quinta-feira, 23.06.2011 O rasgador de passado

(Para Natália Alcântara, insaciável devoradora de livros)

O livro se esvaindo folha a folha. Conforme a leitura avançava, rumo a um longínquo e aguardado desfecho, ele, o impotente livro, ia minguando, desfigurando-se enquanto suporte literário tradicional. O leitor, João Casimiro, tivera a idéia ao perceber que as primeiras folhas do romance estavam soltas, a cola ressecada não as segurava mais. Ora, era mesmo um livro de sebo, já amarelado pelo tempo que a tudo desgasta, já percorrido tanto por tantas mãos, tantos olhos tristes e solitários, curiosos, vadios. Então fez assim o João: cada folha lida ele a desprendia do livro, ele a jogava fora. Desta forma ficava descartada a necessidade do marcador de página. A próxima página, aliás, era sempre a primeira folha. João, o extirpador de folhas.

Em casa não havia problema nenhum, era só amassar a folha e jogá-la na lixeira da cozinha ou do banheiro. Na rua um pouco mais complicado, pois tal atitude poderia suscitar alguma reação inesperada, olhares curiosos, censuráveis. Dentro de um ônibus (João gostava de ler nos ônibus, enquanto o trânsito virava caos) uma senhora professoral percebera o gesto radical dele, mesmo que dissimulado.

- Muito feio isso que o senhor fez. Destruir livros é como rasgar verdades e sonhos.

João queria dizer, mas não disse, que um livro é uma mercadoria como qualquer outra, é comercializado, consumido, gera lucros, notadamente para as editoras e o governo. Que este, senhora, era apenas um exemplar, velho, encardido, barato; que há milhares deles por aí, que a obra já está eternizada.

- Ao invés disso por que o senhor não faz uma doação a uma biblioteca? Por que o senhor não repassa o livro para outra pessoa?

João queria fazer o mesmo com a mulher, mas não fez: arrancar cada parte do seu corpo como se fosse uma folha do livro. João, o estripador de senhoras. Um bom título. Não. Mas por que certas pessoas tem tanta pressa em julgar as outras?, em determinar um juízo de valor a partir de avaliações superficiais? João, o filósofo de butequim.

Na fila do banco ia colocando as folhas no bolso, com várias dobras. Fila de banco é bom para ler, faz o tempo passar enquanto o banqueiro ri à toa. O livro assim, minguando. Num banco de praça foi vítima de uma estranha cena de violência. Era uma noite mal-iluminada, de lâmpadas quebradas, e não havia por perto nenhuma lixeira. Então João amassou a folha e a jogou no chão. Amanhã o gari a apanharia. Mas o bandido armado, que assistira àquele pequeno espetáculo, apontou o revólver para a cara de João e o obrigou a mastigar e engolir aquele bolinho de papel. João não reagiu, apenas obedeceu à ordem, posto que não se deve contrariar uma arma carregada. E até entendeu a reação daquele “elemento de alta periculosidade”: assim como a polícia, bandido também procura descontar a raiva em alguém. Outra situação inusitada ocorreu no banheiro de um bar qualquer, pra não dizer de esquina, João constatou a falta óbvia de papel higiênico. Já era tarde, tinha iniciado o expurgo de si. Teve que fazer uma espécie de leitura dinâmica para liberar várias folhas, alguns parágrafos de grande utilidade prática.

Enfim o último capítulo!. Um livro reduzido à capa, contracapa e duas folhas. João estava na praia, não havia sol e ventava. Queria isso mesmo: ficar só, introspectivo, contemplando os barcos na linha do horizonte. Um pouco assim como o personagem do romance, que se fechou em si, isolando-se numa ilha depois que perdeu a mulher que amava por conta de algumas fraquezas. João sobe numa pedra do costão, quer tranqüilidade para ler o final do livro, já definhado. Abre-o, um tanto impaciente. Mas as duas folhas estavam soltas e uma lufada de vento, acompanhando a onda que arrebentou na pedra, levou-as mar adentro, formando no ar duas pequenas gaivotas alvoroçadas. De certa forma João já sabia qual era o desfecho da história. Guardou na mochila a capa desprovida de conteúdo e foi caminhar na areia. Agora era preciso pensar nos próximos capítulos da sua vida, preparar, talvez, um final feliz... João Casimiro, o homem que rasgou o passado.





Postado por Jaime Ambrósio às 13:35 | Marcadores: Introspectivo   Extirpador  

Quinta-feira, 23.06.2011 O rasgador de passado




Postado por Jaime Ambrósio às 12:24 | Marcadores: Alvoroçadas   Intropectivo  

Quinta-feira, 16.06.2011 A nudez da atriz


Finalmente ele estava no mesmo patamar da atriz. Mas não foi ele, bicho indomável, quem subverteu a cena; foi ela, refém do destino anunciado, quem trocou de palco.

Há um barraco mais ao fundo da favela, os dois estão lá, a porta fechada com cadeado. Não é prudente gritar. Ela finge estar calma, ela sabe representar. Precisa cumprir mais um papel, incorporar uma nova personagem. Ser ela mesma de pouco adiantaria naquele rústico cenário de interiores. Ele a quer por inteiro, em plano aberto, em close-up, em repetidas tomadas angulares. Quer cinema de ação lasciva, fotografia sensual. Também está nervoso, mas como não consegue fingir, bebe uísque, garrafa de ontem. Está suando pela camisa, liga o som, que é novinho, diz que vai tomar um banho rápido. Ela não precisa, atrizes não suam nem cheiram. Ele deixa a porta do banheiro aberta, precisa ficar atento. Como irá se comportar uma atriz assim?, que numa história é anjo das sete e pouco, noutra é demônio das nove? Está quieta, passeando os olhos pelos detalhes desalinhados da casa. Descobre um pôster seu colado na parede da pequena sala. São duas imagens que se olham com profundidade, se amam ou se odeiam numa indecifrável mistura de realidade e ficção.

O mundo é mesmo misterioso, pensa ele, enquanto se deixa inundar pela água fria. Tanto sonhou com aquela mulher inatingível, deusa de novelas e filmes, rainha das páginas centrais, mil vezes manuseadas; tanto percorreu suas curvas e seios com a volúpia do olhar, suas ancas e boca, sua tatuagem de cavalo alado, seu vulcão sossegado. Agora a atriz ali, em carne e osso, vulnerável.

Sai do banho vestindo a toalha e cantarolando. Prepara mais um uísque, acende um cigarro e coloca um CD de pagode romântico. Ela bebe um gole, pra não contrariar, mas dispensa o fumo, precisa ficar lúcida, e diz Escuta, eu preciso ir. Calma, princesa, a gente nem começou. Não vai me deixar nervoso, vai? A atriz sabe que não, que nunca se deve irritar um tipo assim. Melhor fazer o que ele deseja. É apenas mais um papel, concentra-se. Ele aponta o pôster, Viu? Eu sempre quis você. Ela solta um sorriso incompleto, misto de agrado e medo. Vamos, princesa. Não é a primeira vez, é?

Estão no quarto, que cheira a incenso e mofo. Ele nu, ela devagar. É linda a atriz, mas nas fotos é mais. Ela pergunta Tem camisinha, cara? Claro, também sabe se cuidar. Mas não há glamour ali, há cheiro de sexo e as atrizes também suam. Deusa gostosa, de pelos e penugens como qualquer mulher. Ela não queria, mas acaba deixando ele colocar a língua no universo da sua boca, boca dela, cadela, que gosta mas não diz, não late, engole o desejo. No fim do primeiro ato estão exaustos e nem o ventilador alivia o calor da carne. Ela quer um banho, É rápido. Volta com o corpo úmido e pergunta se pode ir agora. Não pode, há muita sede ainda e muita água pra beber. Ela conforma-se, entrega-se novamente. Fingirá quantos orgasmos forem necessários, é só dramatizar o prazer, arfar, gemer.

Estavam fracos de tanto amar, exauridos, quando a polícia chega, pesada e decidida. A porta cai e os soldados entram com quinhentas armas. Os dois mal tem tempo de cobrir os corpos, que ficaram à mercê dos invasores fardados. Vieram para levar o homem que seqüestrou a atriz, libertá-la. O mundo é mesmo misterioso. Ela, que domina a arte da representação, explica que está ali por livre vontade, que haviam se conhecido no carnaval, que desfilaram na mesma escola.

Mas havia uma denúncia de seqüestro relâmpago. A atriz pousava para fotos num morro da Ilha, favela desnivelada com vistas para um mar encravado de brancos barcos, velas veladas, quando houve uma correria, provavelmente por causa de algum confronto entre bandidos rivais. De repente o fotógrafo some e alguém lhe puxa pelo braço, levando-a por um caminho estreito. Ela tenta se desvencilhar, mas não consegue, e o inesperado rapaz poderia estar armado. Deixa-se levar. Algumas pessoas teriam visto a cena.

A polícia vasculha documentos, desarruma os objetos de cena, mas nada pode fazer, não há vítima nem acusação. Então deixa o barraco, ruidosamente. A atriz aproveita e também sai, está cansada de tanto encenar a vida naquele dia. Mas carrega uma certa alegria no olhar.

Ele adormece, embriagado de amor e interrogações.





Postado por Jaime Ambrósio às 22:50 | Marcadores: Lasciva   Mercê  

Quarta-feira, 08.06.2011 Amor e futebol

Juliana ama Nano, que ama Juliana, que era avaiana, assim, feito rima insistente. Agora Juliana torce pelo Figueira, igualzinho ao Nano. Porque antes estava complicada a relação dos dois, a ponto de o amor querer desmoronar, gol após gol. Quando a TV passava algum jogo do Furacão, Nano não dava bola nenhuma pra Juliana, porque a bola era lá no gramado, redonda, quadrada, incerta. Juliana ficava secando, secando, enquanto fingia fazer, mais uma vez, as vinte unhas mais. Por outro lado, quando a telinha mostrava alguma partida do Leão (que urra, urra, urra...) Juliana não ligava, obviamente, para as investidas dele (do Nano, claro), que ficava secando, secando, enquanto fingia ser o Rodrigo Santoro do Estreitcho.
E os jogos na capital? Nano no Scarpelli, livre e solto como os quero-queros lá no gramado; Juliana de ressaca na Ressacada, à mercê dos aviões que voam mais ao alto. E os clássicos? Cada um no seu canto, no seu espaço, cantando versos de amor ao próximo:
- “Aí, aí, aí...”
- “Eira, eira, eira!...”
Por tudo isso Juliana, numa decisão extremamente difícil e dolorosa, arbitrada pelo coração (e auxiliada pelo cérebro), virou a casaca, trocou as cores , o hino, os trajetos, etc. Antes isso do que a dor da separação, avaliou ela. Dico, grande amigo de Nano, e Figueirense roxo de tanto alvinegro, não deixou por menos:
- Viu?, o amor nem sempre é cego, às vezes enxerga muito bem.
Mas tem casos em que a torcedora prefere perder o namorado a trocar de time. Tem torcedor idem. E tem os que acreditam que a prevenção ainda é o melhor remédio. Por exemplo, o Carlinhos conheceu uma certa garota e tal. Dançaram, beijaram-se, ficaram-se. Pouco sabiam um do outro, o que importava era a atração que estavam sentindo, certo? Até que o rapaz resolveu fazer uma pergunta, uma perguntinha apenas, aparentemente ingênua, despretensiosa:
- Ei, gata, qual é o teu time do coração? O da Ilha ou o do Estreito?
- Sou Avaí, claaaaaro!
Carlinhos levantou-se (sim, estavam sentados) feito um tufão, um furacão enfurecido, um Catarina desenfreado. Saiu sem ao menos pagar a conta, que fiou por conta dela, que ficou por conta.
Amor e futebol têm dessas adversidades. Nada como a rotina de seu Alberto e dona Carmem, que torcem pelo mesmo time há muito tempo e por isso não travam nenhuma discussão durante as partidas: seu Alberto gosta de ir ao estádio; dona Carmem prefere ouvir o jogo em casa, no rádio que ganhou de aniversário. E se amam muito, como Juliana e Nano, que no dia dos namorados, de presente, vão trocar camisas, do Figueirense, claro.

Em tempo: A história de Juliana e Nano é baseada, quase por inteira, em fatos reais.






Postado por Jaime Ambrósio às 11:58 | Marcadores: Scarpelli   Ressacada  

Sábado, 04.06.2011 Os bombons recheados da velhinha da esquina

A vida no bairro é quase tranquila, tem gente trabalhando e crianças correndo, aposentados jogando dominó na pracinha, cachorros pocurando restos de comida e uma mão de afago, passarinhos cantndo em galhos e outros em gaiolas (mas são cantares diferentes, não são?) Na calçada da esquina, depois das cinco da tarde, tem a valhinha vendendo bombons recheados. Posagora?!
A vida só não de todo tranquila porque, de vez em quando, surge algum entrevero entre polícia e bandido, como lá em Nova Iorque. Tirante isso e algum temporal temporão, então dá pra dizer, sim, que a vida por ali é calma. Na esquina a velhinha que vende bombons sorri com seus dentes que já se foram.
No bar do Valdir os homens tomam cachaça e cerveja, falam de política como quem xinga a mãe dos outros, falam de futebol e da mulher do próximo, desde que o marido dela, claro, não esteja próximo. Na esquina, a cada pouquinho, alguém compra uns docinhos da velhinha banguela. Mais tarde, já quase escurecendo, o movimento é maior. Eita povo pra gostar de bombom! Mas são doces caseiros, enroladinhos, de várias cores...
Então, assim de repente, como num piscar de olhos, uma viatura da PM para bem próximo da velhinha, que se chama Aldina. Os homens da lei fazem umas perguntas, abrem alguns bombons e depois colocam tudo dentro da viatura, inclusive aquela inofensiva anciã.
- Vó Aldina traficante de drogas? Quem diria!!!
- Ó-lhó-lhó!
- Posagora?!
Só acreditei porque vicom esses olhos que eu tenho.
- Velhinha aligerada!
- Colocava a mercadoria dentro dos doce e enrolava em papel brioso azul.
- Os outros, de outras cores, eram pra disfarçá, pra vendê pros que gostam de doce mesmo.
- Já pensô se ela se enganasse?
- Diz que tinha senha, quem falasse a senha pagava o preço e levava a danada, que ficava escondida dentro da caixa.
- E que senha era sessa?
- Quindim de fogo. Quem disse foi o delegado.
- Quindim de fogo da vó Aldina, ó-lhó-lhó!
Dia seguinte a velhinha estava de volta, leve e solta, porque disse à polícia que não tinha nada a ver com aquilo, que apenas vendia os doces. Por conta também da tal delação premiada: confessou que recebia os bombons com papel azul do neto, o João Joãozinho, moleque ladino que ficava com quase toda a grana.
- O João Joãozinho? Modeugi!
- Sempre desconfiei daquele istepoôri malino......





Postado por Jaime Ambrósio às 19:39 | Marcadores: ó-lhó-lhó   Modeugi     

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