Bem-vindo! Segunda, 21/08/2017.
Agora na TV / / + programas
Busca
Tempo em SC

Segunda-feira, 18.07.2011 Dona Marta e as baratas

A dona de casa pegou um chinelo para matá-la. Desistiu. Só de imaginar o impacto do golpe, aquele som crocante da morte, a massa disforme grudada na sola, uma pústula de odor inconfundível, só de imaginar o estômago embrulhava. Então apanhou o spray, arma química letal, mas de efeito um tanto lento. Agitou o frasco. Estava pronta. Apontou para aquele inseto nefasto, odiado por todos os credos, cores e ideologias.
- Covarde!
- Heim?! Quem falou?
- Eu, a barata indefesa.
Podia ser um sinal de loucura, ou algo dentro do suco de laranja industrializado; mas também podia ser uma nova realidade cósmica, um realinhamento biológico, qualquer coisa assim que vem nessas revistas. Por via das dúvidas dona Marta (que deu origem ao verbo "martar") decidiu prosseguir com o diálogo.
- Baratas não falam.
- Vocês é que não ouvem o que elas dizem.
- Ok, mas vou borrifar o seu corpinho nojento do mesmo jeito.
- Covarde!
- É a lei da sobrevivência, filha.
- Não me chame de filha, ser humano asqueroso!
- Olha quem fala! A própria cara do asco, do nojo, da repulsa (dona Marta conhecia muitas expressões, lia bastante, fazia palavras-cruzadas...)
- Assim somos aos olhos frágeis de vocês. Mas assim são vocês pelas atitudes diárias aqui na Terra. Quer que eu cite alguns exemplos, ô exterminadora de araque?
- Era só o que me faltava, uma barata PHD em filosofia! Não precisa citar exemplo nenhum, eu vejo os noticiários. Mas ocorre que não dá pra generalizar. Tem pessoas de bem...
- Bingo! Chegou onde eu queria...
- Bingo é coisa antiga...
- Se não dá pra generalizar como é que vocês querem acabar com toda e qualquer barata? Genocidas!!!
- Acontece que vocês baratas são todas iguais, provocam medo e repulsa, aquilo tudo que eu já falei.
- A recíproca é verdadeira. No entanto não saímos por aí matando humanos. Aliás, nem é preciso.
- Porque não conseguem.
- Porque não é da nossa índole. Vou lhe mostrar uma coisa...
Bateu as asas sem sair do lugar e soltou um silvo agudo. Logo o apartamento ficou cheio de baratas, milhares, milhões.
- Elas podem atacar agora, com um simples gesto meu. Elas podem devorar todo esse teu corpinho flácido. Baranga!
- Covarde!
- E não adianta rodox, mortox, botox, Venenox... “porque se mata uma nasce outra em seu lugar”, já dizia o grande Raul ao referir-se às moscas. Nós estamos de olho em vocês, humanos!
Em seguida a barata dá outro sinal e as companheiras de estirpe somem pela janela afora.
- O que é que você quer?
- Nada, só quero que sejamos "amigas".
- Quais as condições?
- Que eu possa andar por aqui à vontade, subir nos móveis, na televisão, dormir dentro das panelas vazias, nas gavetas, no bolso de algum casaco...
- Nunca, eu abomino baratas!!!
- E eu não suporto humanos, argh!
Dona Marta agita novamente o spray; a barata convoca novamente a turma...
(Cada leitor do site pode imaginar o final que quiser, mas é apenas mais um "round" nessa "luta pela sobrevivência")





Postado por Jaime Ambrósio às 21:47 | Marcadores: Spray   Round   Genocidas  

Domingo, 03.07.2011 Ciumismo


Ciúme doentio aquele da Maria Júlia, coisa de endoidar qualquer sujeito. Um dia o Armando chegou em casa com um botão a menos na camisa, foi um furdunço. Aliás, ele mal abriu a porta e ela (a mulher, não a porta), lá da cozinha, já havia percebido a falha na camisa.
- Armando, cadê o botão?
- Que botão?
- Não se faça de ingênuo! O botão da terceira casinha de cima pra baixo.
- Sei lá, deve ter caído, nem notei.
- Caído uma ova! Isso foi coisa de guenga na hora de desabotoar.
Outro dia foi porque ele apareceu assobiando uma música antiga do Roberto Carlos.
- Armando, quem é ela?
- Ela quem, amor?
- A maulher da música, seu cínico.
- Como assim?
- Você chega em casa cantando "Amada Amante" e ainda tem a coragem, a cara de pau, o despautério (???) de fazer de conta que não houve nada? Não desaponte a minha inteligência, Armando!
Então Armando começou a refletir sobre a situação. Armando ficou armando alguma. Decidiu que seria olho por olho, dente por dente, boca, pescoço, todas as partes. Pescoço, eis aí: Armando lembrou que que na noite anterior, na cama, antes de aluz se apagar e o sono chegar, ele percebeu uma pequena mas insinuante mancha , ou qualquer outra coisa, naquela região fatídica do corpo humano feminino.
Ora, ora, homem também sabe ser ladino, concluiu ele com um risinho de vingança. Abriu a porta cantando um samba do Zeca Pagodinho, olhou pra esposa (que se preparava para inspecioná-lo da cabeça aos pés e foi logo largando o verbo:
- Maria Júlia?!
- Que foi, destemperado?
- Que marca é essa no teu pescoço?
- Que pescoço? Que marca?
- Não se faça de ingênua, Maria Júlia! Quem é ele?
Depois de consultar o espelho, para rever o ponto avermelhado que originou a explosão do marido, Maria Júlia era outra mulher.
- Tolo, é apenas uma espinha que infeccionou. Eu passsei uma pomada...
- Espinha, espinha de quem?
- Armando, isso é ciúme?





Postado por Jaime Ambrósio às 20:11 | Marcadores: Detemperado   Despautério  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes