Bem-vindo! Segunda, 21/08/2017.
Agora na TV / / + programas
Busca
Tempo em SC

Terça-feira, 30.08.2011 Os dentes da ira

Não há dúvida: é preciso ter cuidado com os dentes, de preferência no trânsito. Os carros não se movimentavam naquele congestionamento repetitivo de final de tarde. Quando vão construir a décima terceira ponte? Continuando... Mas Carlos não estava nem aí, sentia-se um novo homem, tinha acabado de sair da clínica odontológica onde fizera uma limpeza geral e um clareamento instantâneo, usando uma técnica moderna. À noite estrearia o novo sorriso com a Maria Paula no rodízio de sushi. Estava feliz o Carlos, nem se importava com a lentidão dos automóveis. Atrás dele um cara enfurecido dentro de um velho Gol. Era Alfredo, que estava de relações cortadas com a Juliana, não ia sequer pro rodízio de pizza do Kobrasol e ainda por cima perdera o emprego. Carlos, por sua vez, não parava de se olhar no espelho, arregaçando a boca para poder curtir amplamente os brancos dentes. Alfredo percebeu aquele rosto arreganhado ali adiante e não se conteve. Saiu do carro, que não andava mesmo, e foi tirar satisfação. Primeiro bateu com força no capô do Fiesta, afundando a lataria uns dois centímetros, depois encarou o incrédulo motorista que estava feliz.
- Tá rindo der quê, ô palhaço?
Carlos tentou explicar que fez clareamento instantâneo e que apenas estava, estava... Não deu tempo. A direita de Alfredo, que com a esquerda havia puxado Carlos pelo colarinho, veio rápida e impiedosa. E o trânsito fluiu... Calos mal teve tempo de se recompor, engatou a primeira e acelerou bruscamente, quase batendo no C3 metálico. Quando a fila novamente parou ele procurou o espelho, que estava lá, escancarado. Abriu a boca, e com o dedo indicador tocou nos dentes superiores. Um deles, bem lá na frente, estava trincado, quase quebrado. O coitado (Carlos, claro) tentando não acreditar naquilo. Forçou um pouco mais e... plac!, uma parte soltou-se completamente, ficando colada na língua. Naquele instante de terror Carlos ouviu uma buzina teimosa, daquelas de final de campeonato. Pelo espelho pôde ver, lá atrás, o agressor rindo frouxamente (até porquê, pensando bem, iria receber o seguro-desemprego e já tinha um negócio em vista). Então Carlos livrou-se do cinto. Iria sair e executar o seu direito de vingança, mas os carros já se moviam outra vez. O acaso interrompeu o homem violento que se formava. Jesus!, como encarar a Maria Paula no rodízio de sushi?





Postado por Jaime Ambrósio às 10:02 | Marcadores: Sushi   Kobrassol  

Segunda-feira, 22.08.2011 As ceias de Pedro Leopoldo (Os fantasmas famintos)

(Conto extraído do livro "As aldeias de todos nós", recém públicado pela editora da UFSC)


Os amigos íntimos já se foram, assim como a esposa e o último cão. Os parentes próximos, que eram poucos e distantes, também embarcaram na mesma nave. Pedro Leopoldo era um homem relativamente só nos seus 80 anos. Quer dizer, tinha uma filha, Clarisse, que o visitava nos fins de semana. Na verdade Clarisse sempre quisera que o pai morasse com ela, no apartamento, mas ele fazia questão de ficar na velha casa, cheia de lembranças e coisas. Bom, também tinha uma empregada que fazia de tudo, menos a comida, que isso era um capricho dele, uma certa devoção. Como ela dormia no emprego as refeições eram sempre para dois pratos, coisa simples, caseira, com temperos cultivados no próprio quintal da casa, lá nos fundos. Margarete, assim, tinha tempo para assistir às novelas. Mas em dia de futebol, na hora da transmissão, ela sabia que se respirasse um pouco forte já vinha bronca. Então se contentava com a pequena TV da cozinha que o velho deixava ligada enquanto preparava os alimentos.

Davam-se bem os dois. Margarete, viúva na esteira dos cinqüenta anos (nunca mais quis saber de outro homem), conhecia cada particularidade daquele homem; talvez, se quisesse, poderia adivinhar os pensamentos dele. Às vezes, quando não havia nada mais interessante para fazer, e o calor era muito, ficavam na varanda à mercê do vento que nem sempre era agradável. Pedro contava longas histórias sobre cada um dos seus comparsas, causos que não terminavam mais. Margarete, com a santa paciência que Deus lhe dera, ouvia cada frase sem reclamar, ou fingia ouvir e deixava o pensamento escorrer para as próprias recordações. De qualquer jeito conhecia, em detalhes, a vida de todos eles.

Tinha algumas manias o velho, como assistir aos jogos do Internacional, clube do coração, com a camisa do time virada do avesso. Era para dar sorte, explicava, o que nem sempre acontecia. Na última Copa do Mundo fez o mesmo com a camisa canarinha, a verdadeira, pois nunca gostou daquela azul. Também falava sozinho, às vezes, como se alguém estivesse por perto, ouvindo-o, e Margarete sabia que “era” um dos 7 idos. A mulher não reclamava, fazia de conta que nada percebia. Mas Pedro Leopoldo, agora, havia chegado longe demais: uma vez por semana, na terça-feira, preparava um jantar especial, que servia na mesa grande da sala. Talheres para 9 pessoas. Margarete, para deixar o velho à vontade, comia rapidamente, levava seu prato para a pia e terminava a noite no quarto, com a TV pequena. Pedro, então, com as rédeas soltas, comia e bebia e contava causos engraçados. De vez em quando a empregada dava uma espiada para saber se tudo estava em ordem. Via o patrão falando, gesticulando, rindo. Às vezes tinha a impressão de ouvir outras risadas. Bobagem. Mas o Pedro Leopoldo, de fato, atravessou a trincheira proibida. E se a filha descobrisse, não iria mandá-lo para um psiquiatra? E se quisesse interná-lo num sanatório? Ai, meu Deus!

Uma coisa era certa, Bernardete não tinha medo de fantasmas, mas também não brincava com essas coisas. Ora, numa dessas o velho havia feito uma dobradinha daquelas de lamber os beiços. Tudo transcorreu normalmente: ela retirou-se para o quarto, viu novela, conferiu duas vezes o andar das coisas, deitou, “ouviu” risadas e outros ruídos paralelos, e adormeceu. De manhã cedinho acordou para preparar o café fumegante. Olhou para a mesa e teve uma espécie de engasgo: todos os pratos estavam sujos ou com sobras da dobradinha. Jesus Santíssimo! E agora? Vai ver o velho fez aquilo tudo para impressioná-la, para fazê-la crer que ele não estava ficando maluco e que os comensais fantasmas realmente existiam. Lavou toda a louça e ficou calada, não mencionou o fato a Pedro Leopoldo, que também nada falou. Decidiu, ela, esperar pela próxima terça-feira, quando ficaria de olho no espertalhão com mais afinco.

Era uma feijoada, de lamber os beiços. Bernardete demorou um pouco mais, até porque a-do-ra-va (assim mesmo, soletrante) aquela comida, principalmente por causa daquelas coisas de porco, pele, pé, orelha. E a costelinha defumada? Nossa mãe do céu! Levou o prato para a cozinha e foi deitar. Na espreita. Espiou uma vez, duas, mas acabou pegando no sono, pois tinha exagerado na caipirinha que fizera. Mais tarde acordou com uma algazarra que vinha da sala. Levantou-se e foi até lá, que medo não tinha mesmo, o santo era forte e assombração a gente derruba com reza forte. Lá estavam eles, os 7 comensais fantasmas. Bernardete engoliu um seco mas tomou coragem e se aproximou mais. Todos fizeram um brinde a ela, que percebeu algo curioso: havia duas cadeiras vagas, uma de frente para a outra. Pedro Leopoldo pediu que a empregada sentasse numa delas. Ela obedeceu, um pouco trêmula. Em seguida viu chegar, de mansinho, o finado marido Anacleto, que sentou-se na outra cadeira. Margarete sorriu e deixou fluir duas grandes lágrimas.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:54 | Marcadores: Dobradinha   Trincheira   Engasgo  

Sábado, 13.08.2011 As saborosas conversas de buteco e de rua


OS POLÍTICOS
- O problema é que tem muito político camarão no Brasil.
- Sei, do tipo que custa caro pro país...
- Não, do tipo que só tem merda na cabeça.

A CORRUPÇÃO
- E a corrupção, heim? Agora no Ministério dos Transportes, DNIT...
- A Dilma vai acabar.
- A Dilma ou a corrupção?
- Pois eu te digo uma coisa: se cortassem, em praça pública, um bago de cada corrupto, garanto que essa roubalheira acabava.
- A coisa é mais profunda e complexa.
- Então corta os dois, hehehehe.
- Não dá pra ficar só rindo da situação, você não acha?
- Não acho, não acho nada; aliás, só perco. Ontem foi meu celular; hoje a Neuzinha, depois de cinco anos. Só bebendo mesmo...

ELEIÇÕES
- Do jeito que a coisa anda, na próxima voto no Chimbica.
- Chimbica? Não conheço.
- É o meu papagaio, um cara honesto,sincero, que não faz promessas ridículas.
- Vais votar num bicho, é isso?
- E sanguessuga o que é? E corrupto? E raposa velha? Tudo bicho.


FUTEBOL
- Sabe qual é o maior problema do Figueira?
- Sei lá, o técnico, os bons jogadores que não param aqui..
- Não, as chuteiras. Elas não obedecem, deve ter algum problema no material. Olha aquele rapaz, o Wellington, o Fernandez, o Maicon... As chuteiras não obedecem, uma pena.
- E sabe qual o maior problema do Avai?
- O Zunino? A torcida que gosta dele?
- Não. A amnésia que ataca aquele pessoal da defesa.

AS COMADRES
- Como fostes de fim de semana, Matide?
- Tudo nas mesmas, Genilda: o mesmo pudim de cachaça como marido, o mesmo carro de duas portas, sem ar, um sufoco...
- Troca, comadre, nem custa tanto.
- É, tô pensando nisso. Mas o carro até que pode esperar um pouco mais. Já o Valdir...
- Ai, coitchado!

OS COMPADRES
- ... Pois é, Nivaldo, a situação até que não tá tão ruim: consertei a casa, troquei os pneus do carro. Tá certo que é um carro de duas portas, sem ar, mas é um carro.
- Melhor que duas bicicletas.
- Então, então. Mas a dona Encrenca vive reclamando.
- Troca, compadre, não custa muito.
- Se se for por duas de vinte...
- Tô falando do carro, istepor!

CERVEJAS
- Tens aí uma Stella do jeito?
- Tenho uma Devassa pegando jeito. Pode ser?

CACHAÇAS
- A de Minas é a melhor.
- Prefiro a de Luis Alves mesmo.
- Na verdade pinga é pinga, não importa a marca.
- O problema é o tombo depois, Velho.





Postado por Jaime Ambrósio às 12:00 | Marcadores: Istepor   Zunino   Raposa Velha  

Sábado, 06.08.2011 Um espirro no trânsito

Em qualquer lugar ou situação ele é um atraso de vida, com sua repetência irritante e seu borrifo escandaloso. Já houve jogador de futebol com torcicolo, velhinha que perdeu a perereca (voou), e até cabra macho que terminou a empreitada antes do tempo, sobressaltado. Já, amor?

Mas no trânsito a coisa pode ser ainda pior. Um espirro não mede as conseqüências mecânicas. Paulo Alexandre (professor de português de cursinho) dirigia o carro com a calma de sempre, cuidadoso, diminuindo a velocidade na faixa de pedestres, deixando a moça bonita passar, também o velho carregando a sacola de compras. A rigor, um bom motorista. Mas aconteceu, e a gramática não explicou. Maldito resfriado! O espirro veio incontrolável, absoluto como Deus. Não deu tempo de tirar o pé do acelerador, pelo contrário, o motorista atordoado pisou ainda mais fundo. Pá-plac!, a onomatopéia da barbeiragem.

Desceu do carro, desceram; tentou se desculpar, dizendo que o problema foi o espirro. O quê? Espirro? Isso mesmo (irônico, para disfarçar o nervosismo): esternutação (?), jato, esguicho, borrifo, expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada por irritação na mucosa nasal.

Antes de a vítima, do trânsito e do léxico, tentar uma reação chula e braçal, o PM interveio.

A vítima: “Não quer explicar ao guarda o negócio do espirro?”

Paulo: “Que espirro?”

O guarda: “Não explica nem justifica, bateu atrás é culpado”.

O professor descansou a gramática, de nada adiantaria dizer ao policial que a culpa foi de um espirro autoritário, inculto. Ora, bateu atrás o seguro paga, conformou-se. Aliás, deveria haver, isso sim, um seguro contra espirro. Por que não? Acertou os conformes e entrou no carro, que agora teria que ficar alguns dias parado na oficina. Tudo por causa de um espirro lazarento...Então parou numa farmácia e comprou uma tonelada e meia de vitamina C efervescente, aspirina, antigripal e outros medicamentos que previnem acidentes de trânsito.





Postado por Jaime Ambrósio às 23:51 | Marcadores: Léxico   Borrifo   Esternutação   Mucosa   Lazarento     

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes