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Terça-feira, 27.09.2011 Óculos pra longe

Seu Maurício tinha passado por quatro óticas para fazer um orçamento. Não ia fechar negócio na primeira delas, que dinheiro da gente não é capim, o dos outros até pode ser. Precisava de óculos pra longe, pra perto ele já tinha. A recomendação foi da médica da família (saia mais barato ter uma só), a doutora Patrícia, que veio lá do Paraná: "Melhor o senhor enxergar direito quem vem de longe, porque se parecer que é ladrão, dá tempo de correr". E não é que tem lógica, pensou ele, que era mais mão de vaca do que a própria vaca. Mas então... Seu Maurício resolveu encerrar a pesquisa de preços numa ótica lá da esquina. Não custava conferir mais uma.
Entrou. Uma moça bonita de óculos bonitos veio recebê-lo. Sentou, sentaram. Logo outra guria (seu Maurício era gaucho), de óculos iguais, ofereceu-lhe uma água mineral básica e se afastou. Ele bebeu, no más. Cibele, este era o nome no crachá da atendente, já começou a negociar, enquanto seu Maurício observava, curioso, a existência, aparentemente desprovida de lógica, de um bar, isso mesmo, um bar, lá no canto da ótica. Ô loco! Tô no lugar certo? Sim, estava. Cibele lascou o primeiro preço, e, enquanto o homem ameaçava discordar do valor ela perguntou se ele não queria uma taça de vinho. Vinho, aqui? Sim, ela disse. Sim, ele disse. Ela mesmo foi até o bar.
- Pode ser este, um merlot?
- Se não for azedo que nem aquele do meu primo lá de Uruguaiana, pode ser.
Continuaram a prosa mercantilista. Seu Maurício, já um pouco alegrinho, disse que nas outras lojas os preços estavam melhores. Mas veja bem, seu Maurício, e o senhor vai ver bem, bem melhor... E interrompeu a explicação para oferecer um uisque.

- Pode ser este, um 8 anos?
- Tô acostumado com 51, lá do armazém do Ismael Tatuira, mas que seja...
- Então, seu Mauricio - prosseguiu ela depois de servir o drynk - é um pouco mais caro, mas o senhor leva um óculos escuro de brinde, e que óculos! - E mostrou alguns modelos, enquanto o homem ficava mais alegre do que lambari de sanga, como dizem no Rio Grande.
- É justo. Mesmo assim não dá pra dar mais um desconto, uma choradinha?
- Daí só se eu falar com a gerente, a dona Carla, mas ela tá em reunião, e se eu entrar lá agora ela pode atirar o Blackberry dela em mim. Sabe?, aquele celular grandão... Uma vez ela atirou, pegou de raspão na coitada da Carina, que tava quieta lá no canto da sala, fazendo umas contas.
- Melhor não falar com ela, esse negócio de telefone voador não é boa coisa. Mas...
- O senhor não quer mais um uisque?
- Mas nem terminei este ainda. Eu queria te dizer...
- Não tem problema, eu completo a dose.
E completou, e disse que faria a venda em 10 parcelas, e que os estojos eram mega lindos, e que ele podia vir fazer os ajustes sempre que precisasse, de grátis, e que tinha uma prima que se casou e foi morar em Passo Fundo, e que...
- Não me diga! Sabes que sou parente de um sobrinho do Teixeirinha?
- De quem?
Fecharam negócio. Seu Maurício entregou o papel da doutora com as medidas, ou seja, os graus. Então a vendedora pediu pra ele colocar uns óculos pra confirmar as especificações.
- O senhor tá me vendo bem?
- Na verdade vejo três. Você é a prenda do meio?
- Hehehehehe!! Daqui a 10 dias ele vai ficar pronto. Ah, vamos ver agora a armação pro senhor. Tem essa, estilo mais sóbrio...
- Me diga uma coisa: a dona Carla só contrata gurias que usam óculos?
- São óculos fake.
- Uma marca importada?
- Hehehe! São de mentirinha, só pra fazer propaganda. Todas usam: a Karol, a Tayná, a Carina, a Marcela...
- Posso pagar com um cheque de mentirinha?... Tô brincando. E se quer saber, vou levar também pra minha patroa, pro guri pequeno, pro cachorro. Pode ser desses que nem o de vocês, que não precisa de receita... E tu não tem aí aquele tal vinho do Porto, que é meio adocicado, parece licor?
Saiu. Ainda bem que não tinha vindo de carro. Mas teve que se informar sobre como chegar ao terminal de ônibus, porque tudo estava embaralhado. De fato precisava de óculos para ver longe...





Postado por Jaime Ambrósio às 22:53 | Marcadores: Blackberry   Uruguaiana  

Sábado, 17.09.2011 Ju, o sonho interrompido

Estava sonhando com a atriz que tem boca carnuda e olhos negros. O universo media 40 metros quadrados ou mais e se chamava suite. Tudo em volta eram detalhes, somenos, ou caprichos demais: hidro, som da hora, TV digital magrinha, colada na parede, cama giratória e uma vista para o infinito. Mas o que contava naquele encontro mágico não era nada disso e sim as carícias da atriz, que também era dona de um lindo par de pernas roliças e longas seios discretos, nem pouco, nem tanto, e uma escultura anterior simetricamente nacional. Se na novela e no cinema a deusa carnal era um ciclone de desejo, dentro do sonho ela girava como um furacão de volúpia, 200 km de adrenalina por hora. E tudo estava apenas começando. Mas, de repente, houve um terremoto, ou algo parecido, na parte externa do sonho, que alguns chamam de vida real.
Era a namorada dele, que de vez em quando dividia a mesma cama.
- Betinho! Acorda Betinho!
- Hã? Que foi? Ah, é você, Onilda?
- Não, é a Juliana Paes de camisola.
- Hã?... (espantado, claro, com aquela afirmação)
- O que houve, Betinho? Você tá suado, você roncava de um jeito estranho. Cuidado com a pressão alta.
- Não foi nada, não foi nada. Agora me deixa dormir...
- Você tá zangado porque hoje eu não quis? É isso? Você tem que entender...
- Esquece, boa noite!
Queria retomar o enredo perdido, a trama do pecado. Outras vezes ele havia acordado no meio de um sonho e depois, ao adormecer de novo (mas tinha que ser imediatamente), conseguia reencontrar-se com a história a partir do ponto rompido. Era só fechar os olhos, meditar, e se deixar levar...
Dez minutos depois.
- Betinho! Betinho!
- Hã?... Não, agora não! Onilda, o que foi dessa vez?
- Que gemedeira era essa?
- Na...nada. Sei lá.
- Quem é Ju?
- Que Ju?
- A mulher do sonho. Você não parava de falar o nome dela. Me conta ou não tem mais noivado e nem nada.
- Ok, era a Juliana Paes, essa mesma que você falou antes. Coincidênca, não? Olha, foi apenas um sonho, não tenho culpa nenhuma. Aliás, a gente não escolhe os nossos sonhos, eles é que escolhem a gente (Onde foi que leu isso?)
- Descarado! Mentiroso! Mas eu vou descobrir, ah se vou!
- Eu juro, Onilda. É Ju de Juliana Paes.
Ela virou de lado, travou os dentes, ficou calada, pensando mil coisas, maquinando algumas. Ele lá, de barriga pra cima, amante interrompido, sem entender as mulheres: havia falado a verdade, a pura verdade, pelo menos em termos. Dequalluer maneira, refletiu, é nisso que dá assistir novela. Então começou a acariciar a Onilda de leve...





Postado por Jaime Ambrósio às 10:54 | Marcadores: Ciclone   Furacão  

Segunda-feira, 05.09.2011 Precim, preção

Entrou na loja de ferragens (dessas Mil e alguma coisa) com uma pequena lista de compras na mão. Há quanto tempo não fazia aquilo, compras? Primeiro pediu aquela borrachinha que vai na torneira da pia, num tem? Tem. Precisava resolver de uma vez por todas o problema do vazamento ou a mulher o expulsaria de casa. Quanto custa? (Sempre perguntava o preço de cada mercadoria, nunca se sabe quais são as reais intenções do comércio, num tem?
- Doze centavos, senhor.
- Como?
- Doze centavos, senhor.
- Como? (Não, ele não tinha problema de surdez)
Assim também não. Ora, onde é que existe algum produto que custe apenas 12 centavos? Nem bala (de comer, claro). Pensa: a gasolina em Florianópolis quase três reais o litro (logo ultrapassa a cerveja, que não deixa de ser combustível para muitos. Melhor ir pra Pasárgada, lá longe onde não é preciso dirigir); um livro, sabem quanto custa um livro qualquer? Por aí, ou mais... Um quilo de bacalhau, então, nem se fala, nem se come. Como é que uma borracha, mesmo no diminutivo, pode custar apenas uma dúzia de centavos? Uma borracha, olha só, que vai resolver uma situação de vazamento e salvar um casamento. Rimou, mas a frase vai ficar assim mesmo.
- Não seriam 120 centavos, rapaz?
- Não senhor. Tá aqui na etiqueta, 12 centavos.
- Tem certeza?
Paciência. Na verdade seu Valério Valdo, esse era o nome do homem, tinha esse negócio de querer ser justo. Assim como não gostava de ter seu bolso extorquido pela usura, também não achava certo levar vantagem em detrimento dos outros. Vai que o coitado do vendedor estivesse redondamente enganado, assim como um zero à esquerda ou à direira?
Pediu em seguida uma dúzia de buchas para broca número 8, precisava fazer umas modificações na despensa.
- Quanto cada uma?
- Quatro centavos.
- Quatro o quê?
- Centavos
- Tem certeza?
Sim, o vendedor tinha certeza. Depois Valério Valdo quis uma bisnaga de silicone, mas avisou (tentava ser engraçado às vezes) que não era pra fazer implante, mas sim para vedar uma rachadura. Eita, seu Valério! Das sete marcas diferentes, com sete preços diferentes, escolheu a segunda mais barata. Levou ainda uma fita isolante e duas lâmpadas com preços aparentemente normais.
No caixa a moça risonha e bonita, que tinha o nome Cibelly no crachá, perguntou se ele não queria comprar uma saboneteira para a pia do banheiro, coisa boa, última novidade no Paraguai e na 25 de março. Tudo bem, iria fazer um agrado para a Patrícia, a digníssima esposa.
- Quanto, senhorita?
- Cinquenta, senhor.
- Centavos?
- Não, né, reais.
- O quê?
De fato Valério Valdo estava um pouco por fora dos preços.
- Vai levar, senhor?
- Não!
- Tem certeza, senhor?





Postado por Jaime Ambrósio às 21:33 | Marcadores: Bisnaga   Pasárgada  

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