Bem-vindo! Quinta, 20/07/2017.
Agora na TV 11:00h JOGO ABERTO / 12:30h MEIO-DIA CATARINA / + programas
Busca
Tempo em SC

Quarta-feira, 23.11.2011 João da Mula


..era um caboclo do interior do Estado que viu um bang-bang na tevê e decidiu que também ia ser mocinho neste mundo ingrato mundo. Mas era magro e desengonçado, desdentado também, e um olho saltava para fora, sem contar que o braço da mão direita não existia. E o pior de tudo: não tinha um cavalo bonito, era uma mula que se chamava Estrela, companheira inseparável, mas já velha e de pouca serventia. Revólver ele também não tinha, nem rifle de cowboy, muito menos uma winchester, como naqueles filmes antigos. No máximo aquela pistola enferrujada que achou num ferro velho e que não funcionava mais. Sem problema, até porque a campanha do desarmamento do governo nem tinha chegado lá.

Chamava-se de João da Mula porque não havia outra maneira melhor de chamá-lo. Ainda mais montado no animal e vestido daquele jeito (calças amarrotadas por dentro das botas, cinto largo com fivela grande, um lenço no pescoço e um velho chapéu de couro afundado na cabeça). Fazia várias rondas pelas poucas ruas do lugarejo no afã de amedrontar quem se dispusesse a praticar algum delito. Mas não acontecia nenhum crimezinho, nenhum tiro suspeito ou rasgo de faca. Parecia um lugar fora do mapa do país, um reino imaginário. E mesmo que algo acontecesse João seria, com certeza, a última esperança da terra. Riam dele, pois não dava para conter o riso, caçoavam da sua postura de mocinho jeca, faziam piadas, inventavam histórias. João tornara-se um personagem importante, uma fonte de riso fácil. Por sua causa o lugar era menos triste.

Um dia João inventou um crime para poder desvendá-lo e provar sua valentia. Vestiu-se de preto (com umas roupas antigas que achou num baú), colocou uma máscara grotesca no rosto e invadiu a capela durante a missa de sábado à noite, noite de chuva, poucos fiéis. Era na hora da humilia quando aquele ser inesperado interrompeu um salmo de Davi e se apossou da imagem de Nossa Senhora esculpida em ouro. Ninguém pôde fazer nada, tão rápida foi a ação do execrável larápio, que, ladinamente, se embrenhou no mato. Logo-logo todo o povaréu estava sabendo do roubo da santa, e mesmo com o tempo carrancudo veio até o local para constatar o ocorrido. Veio também o João da Mula, em cima da mesma, sem sela, armado até os dentes que não tinha. Disse com a voz esganiçada que iria atrás do maldito pecador, que medo não tinha, estava abençoado por Deus e carregado de chumbo. Dito isto correu para o mato pelo mesmo caminho que, supostamente, o ladrão havia seguido. Estavam boquiabertos, deveras espantados com a coragem e a determinação do "bocó" João da Mula.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:47 | Marcadores: Bocó   Larápio   Bang-bang  

Domingo, 13.11.2011 Sagu de Malbec

Edna queria fazer sagu com vinho tinto. Mas não tinha Sangue de Boi ou Canção ou qualquer outra marca mais “apropriada” para essa iguaria. Então pensou que poderia abrir uma daquelas garrafas que o marido, o Joel, trouxera da Argentina. Como não conhecia nada de vinho, ou quase nada, pegou um Malbec que estava mais à mão e jogou na panela para ferver. Colocou cravo, açúcar e tudo o mais que a receita pede. Depois de pronto, devidamente frio, foi provar, e constatou que o sagu ficou uma grande porcaria. Tudo por causa daquele vinho argentino de quinta categoria, sentenciou ela.
Joel, à noite, resolvera abrir uma garrafa, para brindar alguma coisa lá do trabalho, e percebera, então, a falta do Malbec aquele.
- Edna, cadê o Alamos, o Malbec Gran Reserva? Você bebeu sozinha?
- O quê, nego? Um vinho ruim daqueles, que estragou o meu sagu? Se fosse um Campo Largo, docinho, ainda vá lá.
- Edna, era um vinho fino, safra 2005, de Mendoza, no pé da Cordilheira dos Andes, tipo exportação, uma delícia. E você colocou no sagu, naquelas bolinhas de isopor sem gosto nenhum?
- Que ficou uma droga, por sinal. De tão bom que era o vinho...
- Jesus!... Escuta, Edna, esse tipo de vinho não é pra fazer sagu, nem Cuba, nem Porta Aberta, nem nada disso. É vinho pra beber, saborear cada gole, é praticamente um alimento pra alma...
- Me digue uma coisa: onde é que o senhor aprendeu tanto sobre vinho? Tô te estranhando. Sim, porque no começo, quando a gente casou, era só vinho de garrafão: Garibaldi, Vô Luiz, aqueles de Nova Trento, muito do bom por sinal. Agora só quer vinho de garrafa, que tu diz que é coisa fina. Como é que tu mudasse o gosto!
- Ué, nas viagens da firma lá pra Argentina, lendo sobre vinhos, conversando, degustando.
- Conversando com quem? Degustando quem, Joel Francisco? Por acaso bebesse com alguma leona do tal time do hóquei, aquelas lá do Pan, hã?
- Quem me dera!!!
- Quem te dera, safado? Dou-te é com o blackberry nos cornu, como diz a minha amiga Karla lá do Campeche. Cretino!
- Calminha, doce de uva. Que tal a gente sair hoje à noite, comer pizza, num rodízio, beber?... Talvez um Campo Largo bem docinho, heim?...
- É, por que não? Vamos sair, sim, mas também mudei um pouco o meu gosto. Tem um restaurante novo, muito bom, de sushi, chique do úrtimo, bem. Eles servem inclusive o tal do caviar, sai um pouco mais caro, mas vale a pena. E tem um champagne lá da França, nego, Moet-não-sei-das-quanta, que é bem melhor que a Sidra do Revéillon, menos doce, claro. Vê se não esquece o cartão de crédito, porrrr favor...
- Edna Moreira!!....





Postado por Jaime Ambrósio às 00:21 | Marcadores: Malbec   Cordilheira Dos Andes   Garibaldi  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes