Bem-vindo! Quinta, 20/07/2017.
Agora na TV 11:00h JOGO ABERTO / 12:30h MEIO-DIA CATARINA / + programas
Busca
Tempo em SC

Quinta-feira, 26.04.2012 Parábola do carro sujo


Marinalva entendia que certas coisas não mudam mesmo, e que insistir nisso é besteira. Por exemplo, o João Pedro, marido dela. Sempre o mesmo, de segunda a domingo; a única diferença é que nos fins de semana ele fazia churrasco e jogava baralho. No mais tudo era igual naquela casa, até o canto do passarinho na gaiola. Estava acostumada a Marinalva. Mas aconteceu o caso do carro, um certo milagre.
O carro de João Pedro não sabia o que era banho há muito, muito tempo. Parecia estar sempre voltando do rally dos sertões. Numa sexta-feira os três (conta-se também o carro) foram fazer o “rancho” quinzenal. Na porta de entrada do supermercado João Pedro lembrou que deixara o celular dentro do automóvel. Voltou. A mulher prosseguiu. Então um homem de barba e cabelos compridos perguntou se João não queria lavar o carro. Lavar? Como assim? Lavar, senhor, por fora e por dentro, encerar, polir, dar brilho. Não demoraria mais do que 45 minutos, o tempo das compras. João Pedro ficou calado por alguns segundos, olhando para o veículo e refletindo sobre o sentido da vida na Terra... Respondeu que sim, que o homem poderia lavar o carro.
Uma hora depois apareceram com as compras.
- João Pedro! Roubaram o nosso carro!
- Não, não roubaram.
- Roubaram! Tem outro no lugar, novinho.
- Não. É o nosso. Olha a placa.
- ?
- Eu só mandei lavar, só isso.
- O que houve com você?
***
Em casa ele ajudou a guardar as compras, coisa que Marinalva sempre fazia sozinha. Depois disse que a janta seria dele, uma receita da mãe.
- Tem certeza que você está bem, João Pedro?
- Sabe o homem que lavou o carro, aquele que eu dei o dinheiro?
- Sei.
- Acho que era Jesus Cristo.
- Ah é?... (quase engasgando com a ameixa) E por quê?
- O jeito dele. Ele falava através de parábolas, como na Bíblia. Eu compreendi que, naquele instante, lavar o carro por fora e por dentro era um aviso de purificação. Ou seja, é preciso limpar não apenas a sujeira do corpo, mas também a da alma, a sujeira interna. Talvez esteja me faltando isso.
- Um banho? Com certeza. Mas vê se não faz lambança no banheiro.
- Eu falo da alma, mulher. Acho que preciso mudar.
- ?... (“Aquele livro do Paulo Coelho não fez bem pra ele.”)
Marinalva e o ponto de interrogação. E se João Pedro continuar com esse papo estranho? E se essa coisa ficar ainda mais séria? E se ele quiser entrar praquela Igreja da gritaria? E se disser que sexo é só pra procriação? E se cortar a TV Cabo?
- Você não precisa mudar nada, meu bem. Assim tá bom. Senta aí que eu preparo um uísque. Ah, a Neuza avisou que ela e o Valdir vão chegar um pouco mais tarde pro jogo de canastra. Eles vão trazer vinho que compraram lá na serra ...





Postado por Jaime Ambrósio às 11:59 | Marcadores: Parábola   Rally   Paulo Coelho  

Sábado, 21.04.2012 Uma pequena partida de futebol

Pai que é pai assiste aos jogos do filho, pequeno atleta que acredita no sonho de ser um grande craque. Aliás, o pai acredita muito mais, faz planos e cálculos para o futuro, não em real, mas em euro, dólar, yen. Mãe que é mãe também dá uma força, embora não acredite muito nessa falácia. É melhor o Pedrinho estudar advocacia, quem sabe medicina. Ora, quantos moleques que gostam de bola podem ser um novo Ronaldinho? Um Neymar? Ou Messi? Não, este é argentino metido não conta. Depois daquele gols à la Maradona? Coooonta. Tudo bem, mas não é preciso espichar.

Uma pequena partida de futebol, salvo alguns lances risíveis de quase-gol, por vezes é de um tédio soporífero. Mas que importa isso? A torcida, feita de parentes, amigos e vizinhos, está lá festejando, vibrando, exagerando e - para felicidade do casal que cuida do bar - gastando uns trocados com cerveja, refrigerantes e salgadinhos.

Fui ver meu sobrinho, Marco Antônio, já que tio também é torcedor.

Primeiro lance do jogo: centro, saída de bola. Um cachorro entra correndo no campo, feliz da vida, e toma conta da gorduchinha. Quem diz que o bicho quer largar da bola? A torcida vai ao delírio. Mas a torcida também quer ver jogo, mesmo que não tenha pago ingresso. Então o juiz, como se fosse um dos três patetas, tenta a todo custo expulsar o invasor de quatro patas, que domina a bola com as patas e a fuça e corre pra lá e pra cá, dribla um, dribla dois. Delírio. Finalmente o juiz consegue pegá-lo pela coleira e levá-lo para fora do portão. Começa a partida, e tudo acontece, até futebol. Sim, claro, tem uns meninos com habilidade, sabem driblar, driblar; o problema é que não gostam de servir os companheiros, querem a todo momento chegar na cara do gol e chutar, e marcar, o que raramente acontece.

Marco Antônio quase marca quatro vezes em quinze minutos. Acho o seguinte: em jogo de criança a cada dois quase-gols o juiz devia assinalar um, ficaria mais interessante. Por conta dessa emoção, da expectativa de ver a rede balançar, já estávamos na terceira garrafa de cerveja às 10 horas da manhã. E não é que o garoto marcou?

- Gol! Gooool!
- Golaço! É isso aí, Marco! É assim que eu te ensinei.

Pai não fácil! Foi apenas um golzinho simples, bola repicando, e que ainda contou com a colaboração do goleiro. Aliás, a mãe do fulaninho frangueiro olhou para o nosso lado com uns olhos de matadora:

- Convencidos!

Tudo bem, tudo bem, é só o desabafo de uma pobre mãe. O fato é que aquele gol rendeu, depois, mais algumas cervejas, por conta do entusiasmado pai.

- E aí, goleador? Pra onde você quer ir agora, Barcelona ou Real Madri?
- Pra casa, pai, que o Daniel vai pra lá daqui a pouco. Ele tem um game de combate novinho-novinho.






Postado por Jaime Ambrósio às 08:33 | Marcadores: Fulaninho   Frangueiro   Messi  

Sábado, 14.04.2012 Dona Celestina e a arte

O artista plástico trouxe sua obra para uma feira de produtos agropecuários. Além dos visitantes interessados em negócios outros foram até lá por causa da exposição de animais, várias espécies de bípedes e quadrúpedes. O artista, elemento um tanto estranho ao ambiente, instalou na entrada do pavilhão vários galhos retorcidos e envernizados, que pareciam chifres, ou apenas galhos, ou outra coisa qualquer. As pessoas olhavam e seguiam, mas de vez em quando alguém parava para observar melhor. Foi o que fez dona Celestina; porém, com outra intenção.

- Como eu queria essa lenha toda lá em casa!

- Heim??

- Pro meu fogão de chapa de ferro.

- Pois saiba a senhora que isto aqui é arte, pura arte.

- Mas bem que pode dar boas labaredas, não pode?

- A Santa Inquisição acabou faz muito tempo. Sabia?

- Santa o quê?

- Santa ignorância!

- Ignorância é dizer que pau torto é arte.

- E a senhora lá sabe o que é arte?

- Sei, sim. Eu conheço a “arte” de cozinhar, e esses galhos me serviriam muito bem. O senhor já comeu galinha caipira preparada numa panela de ferro?...

Deduziu-se que os dois eram bons de briga, que adoravam uma discussão, pois nem o artista magoado, nem a magoante senhora aplacaram seus ânimos. As frases foram ficando menores e mais velozes, transformando-se em pequenas pedras de insultos, munição vernacular.

- Ogra!

- ???? (desconhecia a palavra, que doeu de qualquer maneira) – Charlatão!

- Frustrada!

- Desocupado!

- Balofa!

- Tísico!

- Sua...!

- Seu...!

Por fim, depois de uma pausa para as línguas (a portuguesa e a deles), dona Celestina entendeu que a melhor maneira de vencer aquele artista seria comprando sua obra, e assim se posicionou, como consumidora. Para livrar-se dela o artista quintuplicou o preço de cada uma das quatro peças. Pois a mulher, fazendeira que tal, não regateou, abriu a bolsa e entregou o dinheiro. O artista, perplexo, teve que fazer o negócio, entregar sua criação àquela incendiária matuta; por outro lado recebera uma boa grana, o que lhe deu grande prazer, principalmente para o estômago, uma vez que artista também come. Dona Celestina saiu rindo, vitoriosa, carregando um monte de galhos retorcidos e envernizados.

- Não vejo a hora de fazer a feijoada!

Mas em casa, enquanto iniciava o fogo com uns gravetos, pôs-se a observar a mercadoria adquirida. Até que aquilo era interessante, tinha um certo mistério. Achou que ficaria bonito ali na grande sala de visitas, perto da mesa de peroba.

- Francisco, traga lenha seca lá do galpão!






Postado por Jaime Ambrósio às 09:10 | Marcadores: Peroba   Galpão   Charlatão  

Sexta-feira, 06.04.2012 Farra: a batalha do boi contra os homens embriagados


O boi no meio dos homens. O boi medrado, constrangido, só. Os homens alcoolizados, berrantes e unidos. A Farra vai ser grande. Há cachaça e disposição para muitas horas. Encurralado o boi espuma, raivoso. Sabe que a batalha é difícil, sem mediadores, mas tentará ficar em pé, fugir. Não sabe para onde…

Ali na meirinha, próximo ao mar, não há saída; de um lado uma multidão imprevisível, de outro as águas revoltas do mar grosso.

- Intisica o boi! Intisica o boi! – grita o bacuri, filho menor de um dos pescadores. O pai, atiçado, bebe mais uns goles da boa pinga de alambique e dispara festeiro com um galho espinhado na mão. Une-se ao bando que corre atrás do animal cansado, que corre, a esmo.

De todos os lados, de todos os modos, o boi recebe saraivadas que marcam o couro. A raiva aplaca a dor, só fica a dor da raiva, maior, incontrolada. Sangra o boi pelas têmporas e fuça, mas ainda corre, não se entrega. Ainda não. Mas os músculos vão enfraquecendo, chegam ao limite da resistência. Ele para um pouco. Faz isto de vez em quando para recuperar a respiração, que é ofegante, parece acabar. Nestes momentos os farristas também param um pouco, recompõem-se na inacabável bebida.

- Intisica!

Recomeça a festa dos homens, que não é a festa do boi.

Enquanto isso alguns velhos da comunidade, algumas mulheres, iniciam os preparativos para o grande churrasco. Cada família deu sua parte. São os sócios do boi que dividiram entre si as despesas com a compra do animal. Recolhem a lenha seca, amontoam-na junto à churrasqueira improvisada, grande.

O boi, espumando a raiva pela fronte, corre de um lado a outro, tentando chifrar alguém. Às vezes consegue, com menor ou maior estrago. Então a Farra cresce. O boi, isolado na sua condição de boi marcado, ataca e se defende, mais perde do que ganha. O tempo passa para ele. A carne, humilhada em visíveis chagas, fraqueja, os músculos perdem a vitalidade.

Os velhos fazem o fogo, que vai arder na achas de lenha seca. É preciso muita brasa. As mulheres limpam o local, preparam o ambiente da festa. Depois, enquanto aguardam o desfecho da Farra, velhos, mulheres e crianças improvisam o Boi-de-Mamão, folguedo açoriano tradicional. Estão lá, rusticamente, a Maricota e Bernunça, personagens consagrados. A cantoria, ao som de viola e pandeiros, é por demais conhecida. O refrão repete-se exaustivamente.

E faz-se a dança.

O boi, fustigado pelos golpes de varas e paus, vai perdendo cada vez mais força. A baba espumante, que é raiva e cansaço, mistura-se ao sangue vermelho-escuro, formando bolhas incandescentes que se alongam até a terra pisada. .

Está prostrado o boi. Desanca no chão à mercê dos homens que, agora, aproximam-se com faca amoladas, machadinhas e serras; que bebem mais cachaça no gargalo; que gritam, vitoriosos.

Na churrasqueira as brasas ardem, anunciando que tudo está pronto.

O boi acuado. De um flanco os farristas afoitos; de outro o mar grosso.

Mas o que ninguém esperava, acontece, como num clarão bíblico. O boi se ergue, com estranha e inesperada força, e corre, desanda, na direção das águas revoltas.

Por um breve instante os farristas, atônitos, calam; cala também a cantoria. Depois, possessos, os homens embriagados rugem, esbravejam. Alguns espumam pela boca enquanto cospem pragas atrozes.

No mar, de águas calmas (assim, de repente), o boi serena, numa mansidão crepuscular. Não precisa atacar, não se defende. Deixa-se levar, resoluto, e submerge nas águas profundas, vitorioso.

(A LEI EXISTE, AS PESSOAS SABEM DISSO, MAS....)





Postado por Jaime Ambrósio às 10:23 | Marcadores: Intisica   Acuado  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes