Bem-vindo! Quarta, 26/07/2017.
Agora na TV 13:30h OS DONOS DA BOLA / 15:00h SUPER BÔNUS / + programas
Busca
Tempo em SC

Terça-feira, 29.05.2012 Diário de bicicleta

Pai, não tá fácil sair de bicicleta nesta cidade, nem voltar. As ruas do centro são tão estreitas que os carros precisam andar de lado. Bicicleta só se for voadora. Na Beira-Mar tem uma ciclovia, mas o problema são as garotas: elas fazem caminhadas com aqueles shorts curtos, aquelas calças coladíssimas. Daí que eu fico olhando pra elas e acabo fazendo besteira no volante, quer dizer, no guidão. Já entortei o aro várias vezes, esfolei os joelhos e os cotovelos, mas nada grave, não se preocupe. Ontem um guarda quis me multar porque eu derrapei na pista e quase derrubei uma velhinha do outro lado. Nem bati nela, mas a coitada quase morreu do coração.

***

No sábado uma galera me convidou pra ir até a Joaquina, de bike. Eu fui, mas quase não voltei. Calma, pai, nada muito sério! Na ida até que a coisa foi relativamente tranqüila , a não ser o fato de eu lamentar o fato de não ter nascido pássaro, de fato. Tem uma subida danada até o Mirante da Lagoa. Fui obrigado a parar várias vezes pra descansar e tomar água, pra repetir, mentalmente, que eu chegaria até o destino, mesmo que fosse só no pensamento. Depois do Mirante, pra felicidade geral das minhas pernas, o mundo era bem mais fácil, uma grande descida se desenhando pela frente.

Na praia foi legal. A gente tomou banho de mar e algumas cervejas, também teve pelada (futebol de areia, pai!!) e uma discussão sobre o governo da Dilma. Depois alguém lembrou que a gente precisava voltar, e que não haveria moleza. Fui forçado a admitir que para cada descida há uma maldita subida na proporção inversa. Cheguei em casa era domingo à tarde, pai. Nem era eu, era uma coisa que sobrou.

***
Teve um passeio ciclístico hoje, mais de 150 pessoas. Eu fui, achei que seria bom conhecer outras fisionomias , fazer novas amizades. Mas aí foi o seguinte: o pneu de uma bicicleta estourou. De qual bicicleta era o pneu? Da minha, claro. Voltei pra casa caminhando, com uma bicicleta ao lado, caminhando também. Um moleque abusado, da janela de um Astra, ainda teve o topete de gritar: Carrega nas costas!
***

Você me perguntou com andam as coisas do coração. Andam assim, em ritmo de bicicleta. É um tanto difícil, pai, competir com esses garotos sarados e seus carros. Não que o amor seja uma competição,não que uma uma máquina dessas faça diferença. Pensando bem, faz. No baile das bruxas a Bete me pediu pra levá-la pra casa. Tive que chamar um táxi, e pagar. Dia seguinte voltei pra pegar a magrinha.
***
Pai, acerta aí com a mãe, vocês precisam abrir a mão e depositar um dinheiro pra eu comprar... uma moto.





Postado por Jaime Ambrósio às 22:34 | Marcadores: Bike   Cilovia   Magrinha  

Quarta-feira, 23.05.2012 Deus na praça XV

Escrevo este texto assim, na primeira pessoa do presente sem indicativo. A segunda e a terceira pessoas estavam ausentes. Mas veio o Pai de todas, o próprio verbo. Eu poderia fazer de conta que o assunto em questão teve a ver com o Zé do Anzol, o Chico Escova ou o Mário das Quantas, personagens inventados que, no entanto, estão pescando por aí. Mas faço de conta que o acontecido foi comigo: eu vi Deus na Praça XV.

Estou sentando num daqueles bancos democráticos, consumindo vinte minutos do meu tempo livre, pensando nesta insólita crônica que do quase nada se fez. De repente Ele chega, como se fosse mais um na praça, e senta-se ao meu lado. Está vestindo uma camisa que é metade do Figueirense, metade do Avaí. Como sei que é Ele? Sabendo. Há certas coisas que a gente não consegue explicar. Bom, tem também aquela sensação estranha, um certo arrepio no corpo, um sinal confirmando que ali está o Todo Poderoso em carne e osso, ou em qualquer outra matéria. Estou lúcido, assim como a figueira centenária que a tudo assiste.

- E aí, beleza? – pergunto sem saber direito como iniciar a conversa.
- Beleza, e você?
- Levando a vida, ou deixando a vida me levar. Como devo me dirigir a Vós?
- Do jeito que tu quiseres, filho.
- A primeira letra, ao Te designar, precisa ser sempre maiúscula?
- Não, Jaimão, o importante é a intenção. Nossa Senhora, não consigo evitar as rimas!
- Eu também não, Paizão. Falando nisso, tens lido as minhas crônicas? No site da Band SC?
- Nem sempre, preciso dar atenção a todos os colunistas. Mas gostei daquela do Papai Noel Banguela, que você postou no Natal. Uma verdadeira lição de vida. Você até que é bom!
- Boa, Mestre! Mas me diga uma coisa: por que a camisa homenageando os dois times aqui da capital? Ou a gente é da turma da Costeira, ou do pessoal ali do Estreitcho, como eu.
- Preciso ser diplomático, fazer uma média com todos os fiéis.
- Até com os argentinos, por exemplo?
- Si, pero Maradona no és el mejor.
- Pelé, claro!
- Yes, e depois Garrincha, Zico, Rivelino, Romário, Ronaldo gorducho e Ronaldinho Gaucho. Outra rima, bah, tchê! E tem agora aquele menino do Santos. Tenho um carinho especial por ele.
- E aqui em Santa Catarina, tens ido aos jogos?
- Sim, claro.
- Em todos, ao mesmo tempo?
- Por isso é que sou onipresente.
- E que tal?
- Sou um torcedor participativo. Por exemplo, no Scarpelli cansei de gritar “Fica Zunino”; na Ressacada eu gritava “Fora Zunino!”. E o Zunino ficando, ficando, está além das minhas forças. Mas eu preciso ficar do lado do povo.
- Mas me confessa, sem demagogia, qual é teu time do coração?
- O Santos, claro, mas não espalha, aqueles torcedores são muito convencidos.
- Mudando um pouco de assunto, amigão: e a violência, as drogas, a crise na Europa e nos EUA, a demora na duplicação da BR-101, a corrupção em Brasília, o Cachoeira?...

Não responde, apenas me dá um tapinha nas costas e some, como a me dizer: Isso é com vocês, ô istepor! ! Então se aproxima aquele sujeito da bíblia, que fica anunciando o fim dos tempos. Levanto-me, já é hora de voltar ao trabalho.







Postado por Jaime Ambrósio às 20:36 | Marcadores: Figueira   Onipresente   Demagogia  

Domingo, 13.05.2012 MPB - diálogo de conquista


O vendedor de sempre oferece as rosas de sempre e faz graças ao inventar amores. Paulinho, num canto, é calado. Jaz assim há muitas noites, ali mesmo, naquela mesa consagrada. Passa o tempo tentando decifrar as palavras que brotam nos olhos dela, a moça que serve todos, que traz bebida e um certo perfume sedutor, que também fala pouco, apenas o suficiente para poder anotar os pedidos no bloquinho. Paulinho a deseja por causa daquela boca úmida e misteriosa, mas não só por isso. Talvez ela saiba dessa verdade oculta, que se torna visível quando a MPB invade o ambiente e sonoriza as falas dos casais.

Então, como num louco ensaio amoroso, os dois, que sabiam um do outro apenas o nome, criaram um diálogo suspeito através das músicas que bailavam em suas cabeças.

- “Olá, como vai?”
- “Eu vou indo e você, como vai?”
- “Tudo bem, eu vou indo, correndo...”

Foi assim no começo, como num sinal fechado. Ela com pressa, porque lhe pediam tequila com limão e sal. Ele até feliz, recebera um pouco de atenção e algumas meias-palavras. Bebeu mais uma taça de vinho e arriscou uma vida inteira numa única frase.

- “Precisamos nos ver por aí.”
- “Pra semana, prometo, talvez nos vejamos”

Era mais do que poderia esperar. E assim, a cada pequena pausa no atendimento, o diálogo dos dois ia tomando outros rumos, outras canções surgiam.

- “Que nobreza você tem, que seus lábios são reais?”
- “Que queres tu de mim?”
- “Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer. Eu amo você, mas não sei o que isso quer dizer.
- “A gente sabe o que é amor quando um simples beijo queima o coração, um sorriso, um olhar, um toque, um aperto de mão.”

Era preciso pensar além, investir na emoção.

- “Seja minha menina, só minha, bailarina. Sou um triste pierrô mal-amado, mestre-sala desacompanhado...”
- “É, só eu sei quanto amor eu guardei, sem saber que era só pra você.”

Declarar-se sem pudor, sem medo da tal felicidade.

- “Meu coração tem manias de amor. Amor não é fácil de achar. A marca dos meus desenganos ficou, só um amor pode apagar.”
- “Quando um coração que está cansado de esperar encontra um coração também cansado de esperar, é tempo de se pensar que o amor pode de repente chegar.”

Confessar, pedir, embrenhar-se na poesia como num mergulho em águas desconhecidas.

- “O nosso amor não vai parar de rolar, nem fugir e seguir como um rio, como uma pedra que divide o rio. Me diga coisas bonitas.”
- “Vem me fazer feliz porque eu te amo. Você deságua em mim, eu oceano. Esqueço que amar, é quase uma dor”
- “Amor, e o que é o sofrer para mim que estou jurado pra morrer de amor?”

E porque era hora, avançar o sinal, seguir.

- “Se você quer ser minha namorada, ah! que linda namorada, você poderia ser!”
- “A água é potável, daqui você pode beber. Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”

- “Eu quero te roubar pra mim, eu que não sei pedir nada. Meu caminho é meio perdido, mas que perder seja o melhor destino.”
- “Fundamental é mesmo o amor.”

É certo, pensou Paulinho. Mesmo assim queria tirá-la daquele lugar, feito Odair José. O ciúme era uma dose de uísque brega e quente que rasgava o peito.

- “Marina, você faça tudo, mas faça um favor: não pinte este rosto que eu gosto, que eu gosto e é só meu. Marina, você já é bonita com o que Deus te deu.”
- “Não fazes favor nenhum em gostar de alguém, nem eu, nem eu, nem eu. Quem inventou o amor não fui eu, não fui eu, nem ninguém.”
- “Se não eu quem vai fazer você feliz?”

Ficam um tempo em silêncio, como se não houvesse mais melodia no ar. O bar esvaziando aos poucos, devagar. Por fim só ele naquela mesa, o último boêmio. Marina sentada ali perto, quedada de tanta labuta, como a Tereza Batista Cansada de Guerra. Olham-se com a plenitude da alma e os olhos do querer. Lá nos fundos do bar o cantor de MPB sabe que é preciso tocar a última canção, aquela que compôs especialmente para os dois: “Marina e Paulinho”, violão e voz.

Então Paulinho se levanta, feito um bailarino imprevisível, e toma Marina nos braços, e eles dançam, dançam por toda a eternidade daquela música.













Postado por Jaime Ambrósio às 08:47 | Marcadores: Mpb   Pierrô   Boêmio  

Terça-feira, 01.05.2012 A velhinha hipocondríaca

O Adelino da Farmácia até que não precisava reclamar, afinal, a dona Lindaura, velhinha entrando na casa dos 80 (embora morasse em apartamento), era sua melhor cliente. Se todos gastassem como ela seria uma beleza. Mas a danada era assim, como dizer?, muito perguntadeira, e sem papas na língua. Isso trazia um certo "desconforto" para os clientes que não a conheciam.

- Seu Adelino, amanheci com uma coceira estranha hoje.

- Que coceira? Aonde?

- Coceira que coça, ô infeliz! Lá atrás, nas divisórias.

- Tá bem, tá bem! A senhora vai levar uma pomada...

- Mas não é ardida, né? A minha pele é muito sensível, como a de um bebê. Sem contar que é numa região muito perigosa, seu Adelino.

- Sei, sei. Mais alguma coisa?

- Comprimidos.

- Pra que?

- Pra dor, né? Pra que que seria? Já passei dessa fase, Adelino! Só não sinto dor no cabelo e nas unhas. Me vê aí alguma coisa diferente.

Ou seja, a velhinha tinha mania de doença. No dia seguinte lá estava ela de novo, batendo o ponto.

- Adelino, tu não acreditas! A coceira passou...

- Que bom, dona Lindaura! Que bom!

- Passou pros braços agora. Jesus, que agonia!

Não dava para não rir, mesmo assim o farmacêutico tentou demonstrar um ar sério e mandou a velhinha ao médico, que fosse fazer uma consulta, que voltasse depois com a receita. Para não perder a viagem dona Lindaura pediu uns efervescentes com gostinho de frutas.

- Pra minha azia.

No geral os médicos diziam que ela estava bem, principalmente levando-se em conta a idade avançada dela. Dona Lindaura ficava braba, dizia que eles não sabiam de nada, que a cabeça doía sempre, que não conseguia comer direito, que as juntas incomodavam, que faltava ar quando dormia. Os filhos, que pagavam dois planos de saúde para a velha, não agüentavam mais tanto médico, mas mãe hipocondríaca também é mãe, e assim faziam os desejos dela.

- Então, dona Lindaura, a senhora procurou um especialista pra ver que coceira era aquela?

- Não, porque a coceira passou.

- Passou pra onde, agora?

- Sumiu. Mas comecei a tremer um pouco nas mãos. O doutor disse que é normal, que pode ser dos nervos. E eu lá sou nervosa? Mas me diga, Adelino, tens alguma coisa pra isso?

Já estava na hora de dar uma liçãozinha na velha. Então entregou um laxante forte, dizendo que era um remédio indicado para tremedeira. Devia tomar duas colheres das de sopa nos próximos dois dias. Voltou uma semana depois, minguada, abatida.

- A tremedeira diminuiu, Adelino. Mas preciso de uma pomada pra assadura. Não sei o que me aconteceu nesses dias. Alguma coisa que comi...





Postado por Jaime Ambrósio às 14:12 | Marcadores: Papas   Perguntadeira   Laxante  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes