Bem-vindo! Domingo, 23/04/2017.
Agora na TV 13:30h BAND ESPORTE CLUBE / 15:00h DOCUMENTÁRIOS BBC / + programas
Busca
Tempo em SC

Quarta-feira, 31.10.2012 Pensamentos, falas e omissões


As pessoas, muitas vezes, falam o que é conveniente falar, e deixam nos arquivos da cachola o que de fato gostariam de dizer. Veja só: você está de saco cheio, as coisas não aconteceram de acordo com as expectativas, a conta do telefone extrapolou o bom-senso, a sogra resolveu passar uns dias na sua casa, a Mega Sena saiu novamente para os outros, enfim, tudo deu errado (pra você). E alguém lhe diz:

- Tudo bem, Sujeito?

Você responde:

- Tudo bem.

Claro que você gostaria de dizer outra coisa, tipo assim:

- Tudo bem uma pinóia!, uma ova! Tudo bem pro Neymar! Você não consegue ser igual ao Tavares, aquele aposentado que não tem papas nem bispos na língua.

- Bom dia, seu Tavares!

- Por quê, ô coisa alegre?
**
- Que calor, hein, compadre?!

- Deve ser por causa do Verão, seu Carlos. Querias o quê, neve?
**
- E essa força, Tavares, como vai?

- Com Muita gemada e ostra do Ribeirão, dona Neuzinha. De vez em quando um viagra.no café da manhã.

Já o Fidélis, que não podia falar tudo o que pensava, especializou-se em mentalizar uma segunda resposta sempre que alguém lhe fazia uma pergunta capciosa, ou uma pergunta qualquer. (Atenção: essas frases não-ditas do Fidélis vão estar entre aspas, que é pra não confundir com as respostas faladas).

- Fidélis, amanhã a Claudete vai chegar tarde, ela tem um compromisso hoje à noite. Você pode vir mais cedo pra abrir o escritório?

- Claro, Osvaldo, sem problema.

- "P.Q.P.!!! De novo isso, seu baixinho de merda?"

- Valeu, Fidélis!

- Fica frio, chefe! - "Comigo a dona Silicone não sai, só provoca. Mas um dia eu chego lá."

Na festa de fim de ano, porém, alguns tiros saíram pela culatra. Foi na conversa que ele teve com a deliciosa mulher do Osvaldo, um montão de areia pro caminhãozinho do chefe.

- Gostando da festa, Fidélis?

- Bastante. - "Ficaria melhor se fosse só eu e você, lá no meu apê, rolando um bundalelê."

- Tá um pouco abafado aqui dentro, né?

- Verdade. Devia ter ar-condicionado. - "Se quiser a gente pode pegar um ar fresco lá fora, perto das árvores."

- E o trabalho?

- Levando. - "Mas quem leva a melhor, na verdade, é o Osvaldo. Se bem que, se eu fosse ele, não ia ficar saindo com a Claudete, você é bem mais gostosa, e nem tem silicone, dá pra ver".

- Obrigada pelo elogio, Fidélis. Realmente eles são naturais. Só fiz botox nos lábios. E com relação à essa secretária perua, eu já estava desconfiada há algum tempo.

- O quê? Eu não falei nada disso!

- Descobri que sou sensitiva, Fidélis, consigo adivinhar pensamentos. Vamos dançar ou o quê?

--------------------------------------------------------------------------------





Postado por Jaime Ambrósio às 21:32 | Marcadores: Botox   Capciosa   Pinóia  

Segunda-feira, 22.10.2012 O mesadão

Por essa o nobre deputado federal não esperava. Estava ele no conforto da sexta-feira, preparando um Jonny Walker com Red Bull, quando a filhota de 14 anos apareceu na sala.

- Oi, linda! Cadê meu beijo?

- Não tem beijo. Quero levar um papo sério antes que a mamãe chegue.

- Pois manda lá!

- À partir de agora quero receber um MESADÃO.

- Como ??

- É apenas um aumentativo. Tenho altos indícios de que o senhor recebia, lá em Brasília, o tal do MENSALÃO. Faz tempo, eu sei. Mesmo assim quero mais grana, bem mais do que essa merreca de mesada que o senhor deposita na minha conta.

- Cristina, o teu pai não é corrupto!!!

Não foi feliz na afirmação, pois a última palavra era, justamente, aquela que o loro, ali perto, mais gostava de repetir.

- Corrupto! Corrupto! Corrupto!

- Essa é velha, ô filho de arara bêbada! Cala o bico!

- Os últimos investimentos do senhor são suspeitos: o barco de pesca, o novo carro, os implantes da mamãe, o apartamento da vó, a sociedade com o tio no jogo do bicho, a casa de praia. Tudo muito suspeito.

- É dinheiro de aplicações bancárias, só isso.

- Só isso? É muito isso.

O nobre deputado, não dando muita importância aos questionamentos da filha, pôs-se a procurar o celular, pois precisava falar com o ilustre presidente do partido. Não encontrou o aparelho em nenhum bolso, em nenhum lugar.

- O celula tá comigo, “father”.

- Onde eu deixei?

- Dentro da geladeira.

- Really?

- Tinha um recado daquela sua secretária da Câmara, a Vera. Ela te agradeceu pelo colar de pérolas.

Um certo silêncio no ar...

- Ok. Esse MESADÃO vai me custar quanto?

- Ainda tô fazendo os cálculos. Depois eu te falo.

- Você vai sair?

- Yes! Tem uma passeata da galera.

- O que que é desta vez, o ingresso livre nos cinemas?

- Pápi, agora é pela ética na política, contra a corrupção.

- Corrupto! Corrupto! Corrupto!





Postado por Jaime Ambrósio às 21:29 | Marcadores: Corrupto   Yes   Galera  

Sexta-feira, 12.10.2012 Você tem moral para condenar Neymar?

Olá, queridos leitores! No futebol criou-se a cultura de que se pode fazer tudo e mais um pouco para uma equipe saciar o desejo do torcedor em ver seu time vencer. E vale tudo, mesmo! Ludibriar a arbitragem, inclusive. O mundo crucifica Neymar pelos seus mergulhos em busca de faltas. O atacante defende-se. Ele afirma fazer isso para evitar o choque com zagueiros corpulentos. A zagueirada por sua vez chia sem parar e faz do maior talento brasileiro uma espécie de Judas Iscariotes do futebol nacional. Coro que ganha força internacional.

Concordo. Neymar “de vez em sempre” exagera na trombada recebida. Encena demais. Porém, chegamos ao ponto em que colegas de profissão dele (jogadores dos times adversários) tentam transformá-lo numa pessoa mentirosa. Sim, mentirosa. Afinal, o discurso é que a pérola santista tenta por diversas vezes ludibriar a arbitragem. Igualmente não discordo. Mas o meu questionamento é: se o torcedor exige tudo por uma vitória (vale até gol de mão) por que Neymar estaria sendo transformado na nova praga do futebol brasileiro?

É para discutir decência e ética no esporte bretão? Vamos lá! E a cera para retardar o jogo? E o zagueiro que segundos antes de ser substituído desaba no gramado? E o treinador que no intervalo cobra de jogador Y: “Por que não caístes dentro da área na chegada daquele zagueiro?”. E as bolas arremessadas pela torcida para dentro de campo? E o torcedor que da arquibancada assopra um apito para confundir o time adversário? E o técnico que interrompe o jogo aos 48 do segundo tempo com uma substituição? E os times que retardam o retorno para o segundo tempo na busca por algum benefício através de um eventual interesse por combinações de resultados? E o beque que coloca a mão na bola para impedir o gol? E o cara de pau que aponta para a bola depois de acertar a canela do adversário?

Nossa! Cansei. São tantos os exemplos de mau-caratismo, que me fazem ter a certeza do quanto o ser humano é acometido por avalanches de egoísmo e interesses pessoais, a começar pelo próprio torcedor. Esses os maiores culpados. Sim, pois são eles os mais interessados numa vitória a qualquer preço. "E se não vencer a porrada vai comer" é assim que algumas organizadas reagem diante de uma derrota e entoam num recado bem claro para seus "vassalos".

Ainda bem que não é exatamente assim o comportamento dos torcedores no resto do mundo. Na Inglaterra, por exemplo, jogadores utilizadores do cai-cai são chamados de “Diver” (mergulhador) e quando usam do péssimo hábito são hostilizados pela própria torcida. Vaias “comem solta” nas modernas arenas quando “um corpo” está estirado no chão oriundo de um ato cênico. Ashley Ypung, Michael Owen e Gerrard não me deixam mentir. Aliás, para esses atletas se os gramados ingleses tivessem um trampolim seria o palco perfeito.

Ao ler algumas reportagens sobre o comportamento do neotorcedor inglês (hooliganismo está fora de moda ou pelo menos sem espaço na Terra da Rainha) observo que por lá eles dão muito mais importância ao jogo do que ao resultado final. Eles querem um time brigando pela vitória durante 90 minutos e de forma limpa. De preferência fazendo o uso do Fair Play durante todo jogo. Se perder (desde com dignidade) não há problema algum.

Muito diferente do Brasil. Torcedor por aqui não tolera outro resultado que não a vitória. E parte dos jornalistas se lança nesse tsunami devastador da moral esportiva. Empatar fora de casa, segundo alguns analistas, já deixou de ser um bom resultado. Vencer, vencer, vencer ou vencer. No livro “A Dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura”, o autor Hilário Franco define muito bem a principal proposta de jogo utilizada pelos brasileiros com a bola nos pés quando diz: “Assim como no cinema e no teatro, a representação é a essência do futebol: 11 indivíduos tentando enganar outros 11”.

Por fim, na maior parte das vezes esquecemos o tamanho do alcance e a quantidade dos exemplos dados para crianças dentro de campo durante uma partida de futebol. Neymar precisa dar o exemplo? Sim. Mas além dele, muita gente precisa pôr a mão na consciência antes de pedir o expurgo do “filé de borboleta” santista num desses mergulhos defensivos. De nós jornalistas pedintes da desprezível malandragem durante os jogos da Libertadores, a zagueiros adeptos da cera, até treinadores que orientam quedas de atacantes e, logicamente, a arquibancada pulsante pela obrigação de vitória. Todos precisamos pensar duas vezes (ou quem sabe mil vezes) antes de criticar a simulação do maior patrimônio da seleção brasileira de futebol.

É aquela história, né?! Somos implacáveis com as atitudes dos outros e complacentes com as nossas.

Então, até você mudar completamente seu comportamento, deixe Neymar e seus saltos ludibriadores em paz. Caso contrário, a sua hipocrisia vai ajudar a contaminar (ainda mais) o futebol. Afinal, discurso bom é o discurso utilizado como prática pelo balbuciante.

HASTA LUEGO!!!

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)

ps. a revista Placar traz esse tema na edição do mês de outubro. qualquer semelhança não é mera coincidência.





Sábado, 06.10.2012 Essa tal felicidade mané



Felício, professor de Geografia aposentado, e cujo nome conspirava a seu favor, tinha sempre uma resposta (ou observação “filosófica”) à altura de qualquer pergunta (ou afirmação prepotente) de alguém. Dia desses um vizinho cosmopolita e falastrão, que havia retornado de uma viagem de 15 dias à Europa, pôs-se a discorrer sobre a maravilha que é visitar o Velho Continente. Que lá sim é civilização, os teatros, os restaurantes, os vinhos finos, a arquitetura, a tecnologia; que um país é pertinho do outro, é só pegar um trem e pronto: Itália, França, Inglaterra, Portugal, Alemanha. Felício só ouvindo, preparando a réplica.

- Não seja por isso, vizinho. Aqui, saindo da “Ilha de Todos”, cheia de recantos e encantos (tirando-se os espantos), atravessando a ponte, a gente encontra um mundo parecido com aquele, tudo também é próximo. E tem vinho colonial, pousadas rústicas, hotéis modernos, construções em estilos variados, praias e morros, danças no palco e nas ruas, muito chope, culturas diferentes. É só pegar o carro e pronto: São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz e suas águas, São Pedro, Alfredo Wagner, Rancho Queimado, Nova Trento. Se quiser prosseguir tem muito mais opções e nem é preciso gastar tanta gasolina.

Quando Felício se referiu às águas da região de Santo Amaro ele quis dizer mais, pois levou em conta não só os benefícios das termas (para o corpo) mas, veladamente, também os da cachaça, produzida à cântaros por lá (para o espírito dos inquietos). Moderadamente, concluiu ele ao arrumar o discurso,.

- São coisas diferentes, Europa e aqui, Felício!
- Diferentes, mas parecidas. Veja você alguns nomes: Nova TRENTO, Nova VENEZA, Ingleses, Santo Antônio de LISBOA, Treze Tílias (o Tirol brasileiro), Okotober...
- Oktober não é um lugar, é uma festa.
- Alemã. E tem outra: as belezas daqui são incomparáveis.

Mas resolveram comparar. O vizinho propôs que a cada “coisa européia” que ele citasse, Felício fizesse uma comparação com algo daqui. Eram duas velhas crianças brincando de palavras.

- Torre Eiffel.
- Farol de Santa Marta.
- Mônaco.
- Lagoa da Conceição.
- Barcelona.
- Figueirense... do ano passado, ou a seleção alvinegra dos útimos 50 anos.
- Falei da cidade.
- Ah, bom!... Passa essa.
- Os Alpes suíços.
- Urupema e Urubici abaixo de zero.
- As touradas de Madrid.
- A farra do boi de Governador, se quiser, mas sou contra.
- Bacalhau à Gomes de Sá com vinho do Porto.
- Tainha recheada à Zé do Cacupé com cachaça envelhecida.

A despeito das agruras do dia-a-dia e das coisas lá de Brasília, Felício era um nativo radiante por algumas razões: morava a poucos metros do mar; tinha amigos e alguns filhos devotos das coisas boas; não era rico, mas o que possuía usava para o bem-viver; o canário da gaiola cantava mais que o curió do vizinho; o time do coração ia bem na foto, embora a defesa fosse um problema cardíaco; as águas estavam sempre para peixe e Felício adorava pescar. Mas era a natureza “alumiada” da Ilha o que mais lhe trazia satisfação de guri pequeno. Mesmo com o desvario imobiliário, mesmo com a volúpia devastadora dos construtores (não há, ainda, loteamentos no mar, nem chalés pendurados no Céu), a poesia das formas naturais persiste.

Gostava de levantar com o sol. Se o céu estivesse nublado de quase chuva, quem lhe acordava era o canarinho de peito amarelo, relógio pontual que executava uma alegre sinfonia de trinados. Então Felício abandonava a casa e por algumas horas ia morar no mundo aberto, feito de terra, areia, mar e mato.

E por conta de tanta beleza que não dava pra contar a Ilha se enchia cada vez mais de turistas deslumbrados. Vinham daqui e dali, de vários pontos do mundo, e recentemente até de lá, de onde os países são geminados, coladinhos uns nos outros como as casas do Ribeirão e de Santo Antônio, lembranças dos Açores. Nem essa “invasão” diminuía o folguedo na alma mané de Felício.

- Visse, vizinho? A Europa veio até a gente. Ó-lhó-lhó!





Postado por Jaime Ambrósio às 11:30 | Marcadores: Mané   Oktober   Cântaros  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes