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Domingo, 02.12.2012 A santa e o vinho

Primeiro a reza, depois o vinho - explicava dona Manuela ao filho. Que diferença isso fazia?, matutava João Rodrigues, um pouco preocupado com aquela escalada religiosa. Foram à Nova Trento por dois motivos: visitar o Santuário de Madre Paulina e comprar produtos coloniais, especialmente vinho de garrafão. Um desses motivos é sempre a desculpa para o outro, a ordem de importância é que muda de pessoa para pessoa, dependendo da fé e da gula. O rapaz queria degustar sem demora um bom tanto daquela sagrada bebida numa das várias cantinas espalhadas por lá; a mãe, no entanto, já havia detalhado o roteiro: primeiro a Igreja Matriz São Vigolo, depois o grandioso Santuário de Madre Paulina, em seguida a Igreja São José, com uma pequena parada nas barracas para comprar lembranças (há de tudo, até pulseira com a imagem da Santa); por fim, o Morro da Cruz, onde fica o vizinho santuário de Nossa Senhora do Bom Socorro. Vinho, queijo e salame só na hora de voltar para casa.

Na igreja de São José, enquanto a mãe rezava compenetrada, João Rodrigues deu uma escapadela e foi procurar uma cantina. Bebeu logo dois copos de vinho tinto, sob os aplausos da bela italiana que o atendeu. Demorou-se um pouco ali, claro. Mais adiante, outro copo. Agora, sim, estava pronto.

Na verdade, mesmo sendo um grande apreciador de vinho, ele estava ali também por um motivo religioso: pagar uma promessa lá no alto do Morro, no topo do mundo. A mãe é que havia escolhido o local e o tipo de penitência. Ele apenas concordou, já que era inexperiente nesse negócio de barganhar com santos. Precisava, agora, de muita determinação. Havia aceitado subir o morro a pé caso a Fernanda voltasse para ele, o que de fato aconteceu há pouco mais de um mês. Entretanto, as coisas não iam lá muito bem entre os dois. João Rodrigues soube que a moça só voltou pra ele porque queria esquecer o outro, que preferiu uma outra. Mas promessa é promessa, precisava saldar a dívida. O problema era o tamanho do percurso em direção ao Céu: 525 metros de altitude, cerca de quatro quilômetros em linha torta. Será que aquele namoro valia tanto esforço?

A mãe levaria o carro, que saber dirigir assim, na base da primeira e da segunda marchas, ela sabia. Lá em cima, no aguardo do filho pagador de promessa, ficaria rezando (que nunca é demais) e descansando um pouco as pernas.

Eram 14 Estações simbolizando a Via-Sacra de Cristo. Na quinta João Rodrigues não agüentava mais. Mesmo assim tentou subir mais um pouco, afinal era ainda jovem. Mas as pernas não obedeciam ao comando do cérebro e a respiração estava ofegante. Com certeza precisava deixar de fumar, fazer exercícios aeróbicos regularmente, pegar uma academia, comer menos carne vermelha, mais frutas e legumes, essas coisas. Então reconheceu a derrota do corpo, pediu uma carona e chegou, finalmente, ao Santuário de Nossa Senhora do bom Socorro, que tem uma visão encantadora, ou, que seja, uma vista. Dona Manuela, sentenciosa, disparou o verbo:

- Você quebrou a promessa, meu filho. Vais acabar perdendo a Fernanda de novo.

- Tudo bem, mãe... tudo bem.

- Como assim? Você não é “louco” por ela?

- Nem tanto. Olha, tem uma italianinha que a senhora precisa conhecer. Até me deu o telefone dela...

- Valha-me, Santa Paulina!


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Postado por Jaime Ambrósio às 07:17 | Marcadores: Padre   Nova Trento   Vinho  

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