Bem-vindo! Quinta, 20/07/2017.
Agora na TV 11:00h JOGO ABERTO / 12:30h MEIO-DIA CATARINA / + programas
Busca
Tempo em SC

Segunda-feira, 24.06.2013 De amor e gordura

Estava mudado o Sinval. Dava para perceber no corpo fino que exibia: cintura de nadador, tórax de academia e glúteo, glúteo dele mesmo, só que mais firme. Bunda mole era coisa do passado. O ponto de partida foi a paixão . Conheceu a Celinda num boliche, depois de fazer três strikes e se achar o máximo. Então o coração disparou e os hormônios entraram em ebulição. Era a mulher da vida dele, tinha uma tatuagem de colibri no ombro esquerdo e a chamavam (a ela, não à tatuagem) de Linda. Ululante, Aurélio! Feia só se o cara fosse vesgo. Trocaram alguns olhares, mas Sinval percebeu que a garota também observara a sua (dele) barriga de chope. Então, como se estivesse numa sacristia, jurou para si e pelas coisas mais sagradas que iria perder aquele “calo sexual”, herança maldita deixada por seu pai. Em nome do amor tudo seria possível. Ah!, o amor faz coisas. Revisou alguns conceitos, entrou numa academia e passou a consumir apenas produtos light. Três meses depois Sinval havia perdido 10 quilos e acabou ganhando o coração de Linda. Lindo!, se não fosse o primo carnívoro de Alegrete, que chegava para passar as férias, conforme o planejado. E agora? Bom, cada um na sua, pensou Sinval. Enganava-se redondamente.

- Vivente, mas que magreza é esta, tchê?

- Ô, Leopoldo, como vai? É o trabalho...

- Aperta a ossada aqui.

- E a viagem?

- Boa, mano velho. Mas tô que nem um bagual de fome. Tu tens que me levar pra melhor churrascaria da cidade, e vai ser daqui a pouco.

Sinval quis negociar. Quem sabe peito de frango grelhado com molho shoyu, uma salada de agrião e rúcula? Conhecia um restaurante ótimo, preço camarada.

- Tá me estranhando, primo? Carne branca é pra doente e pasto, se me for do agrado, eu como lá nas coxilhas.

- Churrasco, também, Leopoldo.

- Churrasco em qualquer lugar! Com o Grêmio onde o Grêmio estiver.

- O problema é que... (Nunca ganhava uma discussão com aquele parente dos pampas.)

- Pára de frescura, Sinval! O pai aqui é que decide o que a gente vai comer nos próximos dias. Tu parece um guaipeca sem dono. Vô te indireitá, índio velho. E deixa que a conta eu pago.

Na churrascaria.

- Tá vendo esta picanha? É assim que precisa ser, com uma camada de granito. A

gordura é que dá o sabor.

- É, isso é verdade...

- A mesma coisa acontece com a costela, tá vendo?

- Se o garçom não for tão rápido eu consigo ver.

- Boa essa, Sinval Tavares!

Era o fim do condicionamento, da leveza da alma, do amor, de tudo. Por outro lado (mas Sinval não queria admitir o outro lado) voltou a comer uma boa e suculenta carne de primeira. Depois de algumas churrascarias e restaurantes o pobre homem começava a viver um déjà-vu estético, um já-passei-por-isso. O pecado da gula oprimia sua consciência, provocava devaneios boturnos, principalmente quando dormia de barriga para cima. E se enfiasse o dedo na garganta? Leopoldo, se descobrisse, com certeza o mandaria colocar o mesmo dedo em outro lugar.

Celinda tinha viajado, foi passar uns dias na casa dos avós, em Corumbá. E quando voltasse? Desanimado ele abriu o jogo para o primo, falou do regime (de 64 quilos) e do namoro.

- O quê, Sinval?... Mulher que ama aceita o homem do jeito que ele é.

- Sei, mas...

A moça voltou e quis fazer amor num motel. Sinval morrendo de medo, comprimindo a barriga até ficar com a respiração ofegante, o rosto roxo. Tudo para esconder aquela lua nova crescente. Mas Linda percebeu, mulher percebe tudo.

- Amor!... Eu nunca tinha dito pra você, mas á-á-doro homem com uma barriguinha assim, sabia?

Saíram do motel e ela confessou que estava com muita fome.

- Eu tava pensando, amor, que tal a gente comemorar? Faz tempo que eu não vou a uma boa churrascaria. Você pode até levar aquele seu primo, o Leopoldo...






Postado por Jaime Ambrósio às 21:15 | Marcadores: Strikes   Ululante   Boliche  

Sábado, 01.06.2013 Perdido no supermercado

Início da noite, quase oito horas. A mãe o manda comprar uma dúzia de ovos, também quer uma caixa de papelão pequena, que é para acomodar o gatinho que ganhou da vizinha.

Chega no supermercado quando já começavam a fechar as portas. Entra e pergunta onde pode conseguir uma caixa. Indicam-lhe os fundos, o depósito. Vai até lá e se perde no meio de tudo. Localiza as caixas vazias, escolhe uma, mas ao puxá-la sente uma fisgada aguda, um pequeno corte por causa de um grampo indevido. Olha para a ferida, vê a gota de sangue engrossando, desmaia. Como estava cansado de tanta rua, mal consegue voltar a si e acaba pegando no sono ali mesmo, no chão.

Acorda atordoado, sem saber o que se passava à sua volta. Penumbras, vultos estáticos, silêncio de dar medo. Aos poucos readquire a lucidez. Sai de dentro do depósito e depara-se com a imensidão de prateleiras e coisas. Ele, André, e as coisas, mais nada. Fica assustado ao perceber que as portas estão fechadas, que o relógio da parede marca nove horas, que precisava levar os ovos para a mãe. A mãe!!!!.... Está nervoso, tenta raciocinar direito, com calma. Caminha entre as prateleiras e então se dá conta do tamanho daquilo tudo. Já sabe, vai ligar para a vizinha, pedir pela mãe, dizer que está preso dentro do supermercado. Preso, não, fechado. Também precisa fazer um sinal para o segurança do lado de fora. Mas está com fome, e comida não lhe falta. Pega uma barra de Prestígio, come em duas bocadas sôfregas, amassa o papel e o esconde no bolso. Procura por um telefone enquanto o pensamento cutuca sua mente com outras intenções. Liga para a vizinha, que chama a mãe. Rapidamente inverte o objetivo, diz que encontrou um colega da escola que o lembrou do trabalho de geografia para amanhã. Não pode levar pau senão pega recuperação. Vai dormir na casa do Eduardo, ela não precisa se preocupar. A mãe, acostumada com o sumiço do garoto, reclama dos ovos e desliga.

André e o supermercado.

Precisa agir de maneira certa, não fazer barulho, não ser visto pelo vigia. Precisa evitar os espaços laterais perto dos caixas, por causa das portas de vidro na entrada. Mas o homem da segurança raramente olhava para dentro.

Gosta de chocolates e wafer e rufles e sorvetes e coca-cola. Vai comendo e bebendo, colocando as embalagens num saco plástico para não deixar rastros. Gosta também de coisas que nunca provou, só de ouvir falar. Avista o mundo dos produtos importados, queijos de várias formas e cheiros. Tira o canivete do bolso, corta um pedaço de cada pedaço, experimenta-os com olhos aumentados de prazer. Tem presunto e nozes, tem vinho que vale dois salários. Consegue um saca-rolha, abre uma garrafa, ca-ber-net, chileno. Bebe uns goles, sente-se mais corajoso. Lá fora chove e o barulho é grande por causa da cobertura de folhas de zinco. Então decide que não vai mais ter cuidado com a ordem das coisas. Onde põe a mão deixa tudo desarrumado. E ri, não tanto pelo vinho, mas por que sabe que naquele momento é o dono do jogo. A chuva forte no telhado abafa qualquer barulho. O guarda se protege no abrigo atrás do supermercado.

Onze horas. Está cansado, senta, deita, adormece.

Acorda na madrugada e não enxerga nada. A escuridão é grande, o temporal interrompeu a energia . Ainda chove, mas nem tanto. Sente medo do escuro, mas precisa ir ao banheiro, tantas misturas provocaram um rebuliço no estômago e uma forte dor de barriga. Levanta-se, tenta caminhar, mas percebe que não irá a lugar nenhum. Esbarra nas prateleiras, derruba coisas. Acaba fazendo ali mesmo, num dos corredores. O cheiro é dolorido, impregna tudo. Vai para o outro lado, encolhe-se no chão para afugentar o medo. De novo dorme. A energia volta, algumas luzes acendem.

O relógio da parede marca seis horas quando André desperta. Logo alguém entrará no supermercado. Ainda tem algum tempo. Pensa em arrumar tudo, mas a bagunça é maior do que imaginava. A cabeça dói, procura um comprimido, não encontra. Pega bolachas e uma caixinha de achocolatado. Come, bebe.

Esconde-se ao lado de uma das portas de entrada, atrás de uma viga. Nas mãos segura uma caixa de papelão, dentro dela uma dúzia de ovos.





Postado por Jaime Ambrósio às 19:08 | Marcadores: Achocolatado   Penumbras   Nozes  

Todo os posts mais antigos Todos os posts mais recentes