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Quinta-feira, 15.08.2013 PROCURANDO NEVE

Maria Fernanda queria ver a neve. Mais do que qualquer pessoa ela queria estar lá, de braços abertos sob os flocos de algodão gelado. Insistiu, bateu o pé. A família meio contra, é longe, muito frio, vai pegar resfriado. O mano fazendo piada, dizendo que era só raspar dentro do congelador, jogar aquele gelinho macio pro alto e pronto, eis a neve. Maria Fernanda no ataque, que é a melhor defesa, respondendo que se fosse assim ele não precisava ir pra Oktober, podia muito bem tomar chope, e de boa qualidade, por aqui mesmo. E a Festa do Pinhão? Era só fazer uma panelada em casa e ouvir o Gaúcho da Fronteira. Por fim ela argumentou, séria, que dificilmente saía de casa, mesmo porque estava sem namorado há um certo tempo. Desse jeito iria criar limo, aos dezoito anos.
Então todos concordaram, Fernandinha iria para São Joaquim, ela e uns amigos, numa van alugada. Mas antes da partida, claro, precisou ouvir as mil e tantas recomendações da mãe, afinal, era a primeira viagem que a menina fazia sem ninguém da família por perto.
No entanto, contrariando as previsões da Previsão, a neve não caiu naquele primeiro dia, um sábado de cara feia que congelava até as vísceras dos visitantes. Mas eles estavam lá, cumprindo com o seu papel ensaiado, caminhando nas ruas, tomando chimarrão ou café bem quente, esfregando as mãos e repetindo a cada pouco a mesma expressão: “Que frio!” Lá também estavam Maria Fernanda e os amigos à mercê da natureza, que é pródiga, mas inconstante, na arte de encantar turistas. Mesmo assim, na ausência dos sonhados flocos dançantes, divertiam-se de alguma maneira. Jogavam baralho, bebiam quentão, contavam piadas repetidas, empanturravam-se no café colonial e conheciam novas pessoas. Foi assim, nessa pequena ciranda de povos, que Maria Fernanda se deparou com um rapaz do Ceará. Logo foi possuída por aquela incontrolável sensação de pele que costumam chamar de amor à primeira vista.
No domingo nova frustração, o tão aguardado fenômeno continuou escondido nas brumas de Deus. Embora tentasse disfarçar, com frases conformadas, a maior parte das pessoas não conseguia esconder a decepção. Muitos vieram de longe para ver o tão anunciado espetáculo. Maria Fernanda, entretanto, tinha os olhos transbordando de felicidade: a magia da neve esvoaçando sobre a terra concentrava-se lá dentro, em algum recanto inexplorado da alma... Então, pela enésima vez, a mãe ligou, mas desta vez para contar que a cidade deles estava coberta de gelo, uma paisagem branca de morrer, linda como nunca se viu. Até parecia algum lugar da Europa.
- Você precisava estar aqui, filha.
Mas ela só chegou à noite, cansada e ao mesmo tempo leve, sem se importar com as gozações do irmão: Não teve nenhuma avalanche, maninha? Estava feliz, não houve a neve, mas houve a viagem para vê-la. É assim como pescar: às vezes você volta sem nada, mas a pescaria valeu à pena. Para Maria Fernanda tudo valeu à pena. Depois do longo banho, depois de ter arrumado suas coisas, abriu o coração:
- Mãe, eu quero ir pro Nordeste!





Postado por Jaime Ambrósio às 15:56 | Marcadores: Pródiga   Ceará   Euroa  

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