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Terça-feira, 17.12.2013 A CRÔNICA DO PAPAI NOEL BANGUELA


José, que não era carpinteiro, mas sabia consertar coisas, estava desempregado e gordo. Nos últimos dias as refeições eram compostas, invariavelmente, de macarrão barato, algum molho ralo, pão e limonada. Além dele tinha a esposa, que se chamava Maria, dois filhos em crescimento e um outro na barriga, querendo rebentar num dia desses.
José fazia uns bicos para garantir o mínimo que não podia faltar, mas faltava muito, e o natal estava chegando. José sempre dera presentes para os filhos e para Maria. José, e agora? Nem poderia fazer como o seu pai, que lá pelo mês de outubro recolhia os carrinhos de madeira que dera aos filhos e os pintava de outra cor. Depois, no natal, entregava-os novamente. As crianças imaginavam que estavam recebendo brinquedo novos. Agora tudo era de plástico, não dava pra pintar, e José nem faria uma coisa assim, um homem tem que poder dar presentes pros filhos.
Então, o então sempre permeia a vida. José soube de um concurso de Papai Noel. Inscreveu-se cheio de esperança, afinal tinha barriga grande e sabia ser divertido. Mas quando sorriu foi desclassificado: era sem alguns dentes na frente, justo na frente. Claro, o shopping não iria contratar um Papai Noel banguela.
José sentado numa pedra à beira do caminho. José chorando seu drama, seu infortúnio. Então lembra das palavras sábias de Maria: depois da provação vem a recompensa, é preciso ter um pouco de calma. Até quando, Maria? José que não bebe nem fuma, que não é violento e nunca pensou em roubar nem matar. Agora ali, pensando que pode fazer qualquer coisa, boa ou ruim. Então (o que norteia a vida) uma caminhonete para. O homem na direção está vestido de Papai Noel e pergunta se José não quer ser seu ajudante, ganhar uns trocados. O homem da caminhonete se apresenta, diz que é empresário, que vai distribuir presentes lá no Morro, mas que não quer ser reconhecido, por isso precisa de um estranho. José aceita, entra no carro. Ainda tem tempo de olhar para o lugar onde estivera sentado. Vê outra pessoa lá, que sorri, na pedra. José pensa que talvez seja um anjo de Deus. Aquele homem à beira da estrada acena.
Como se fosse um mercador de sonhos José entregava um presente e recebia um sorriso largo, quase uma gargalhada de criança. Mesmo assim seu pensamento era distante. Quando faltava apenas um saco para ser distribuído o homem da caminhonete disse que a jornada havia chegado ao fim, que aqueles últimos presentes eram para os filhos dele, de José. E deu-lhe também a roupa de Pai Noel e um cartão. Era só procurá-lo que ele lhe arranjaria um emprego. Precisavam de montadores na fábrica de móveis, poderia ser um bom começo.
Assim aquele homem gordo de vermelho e longas barbas postiças bate à porta da casa que é de José. Maria o recebe. Ele entrega presentes para cada um, muitos presentes, e sorri com a boca banguela, indisfarçável.
- Papai?
- É você, José?
No dia seguinte nasce Jesus, o terceiro filho de Maria e José.





Postado por Jaime Ambrósio às 17:10 | Marcadores: Banguela   Limonada   Indisfarçável  

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