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Terça-feira, 18.03.2014 O acaso

O menino na bicicleta é feliz e corre. A mãe dissera cuidado, moleque, vai devagar. O menino não sabe do cão, que vem pela calçada, contornando a quadra. Corre o cão, com pressa de que? No cruzamento o acidente. O menino dá uma cambalhota no espaço - um salto mortal? - e despenca na crueldade da pista. O cão, que foi arremessado pela bicicleta, bate na lateral de um carro apressado e vai parar em cima de uma boca de lobo. Por alguns segundos os dois ficam inertes, silenciosos. Depois ouvem o movimento das pessoas que se aproximam, vozes que se aproximam.

O sangue do cão goteja no bueiro, desaparecendo na imensidão do esgoto; o sangue do menino é um filete que escorre lento pelos sulcos imprecisos do asfalto, tentando formar algum desenho urbano. A humanidade está dividida no cruzamento das duas ruas: algumas pessoas acorrem o menino, outras o cão. Os dois respiram sofregamente. Não há choro nem latido, a dor é calada, ou ainda não é dor. O pranto que se ouve é da mãe do menino, que chega com as mãos na cabeça; é da garota trêmula que procurava pelo poodle fugido.

A ambulância leva o menino, que da maca ainda pôde olhar para o cão estirado. Por alguns segundos eles se contemplam, como querendo trocar um indecifrável pedido de perdão. Mas não há culpados aparentes na lógica dos acasos, há vítimas.

Um homem de alma compadecida leva o cachorro para a clínica veterinária. A humanidade, enternecida com as duas dores, separa-se, segue, porque é preciso viver.





Postado por Jaime Ambrósio às 11:25 | Marcadores: Bueiros   Goteja   Cão  

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