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Segunda-feira, 16.06.2014 E raiou o dia na Lagoa


Num bar da Lagoa o homem bebe outra cerveja e naufraga nos acordes dilacerantes de uma música de dor e morte. Depois o cantor-assassino descansa o violão certeiro, deixando um silêncio de mar invadir o ambiente quase vazio. É quase noite terminada: lá fora o pescador prepara a rede. O homem no bar, que é um poeta não-publicado, se deixa transformar em versos no guardanapo indiferente. Fala de si como se falasse de outro:

No afã do beijo que não houve
engoliu cada palavra, ali na mesa de bar,
como se o desejo fosse uma mistura
de lúpulo, álcool e vogais.
Diluiu-se a cena tantas vezes imaginada,
restou o drama
do instigante teatro da procura.


A mulher saiu do bar com o coração talhado ao meio. Algo indefinido a deixara refém do presente-passado, mas uma nova emoção lhe surgia. Deparara-se com aquele homem solitário que a dissecou lenta e completamente. Olharam-se a mais não poder, sobrecarregaram-se de perguntas caladas.


Olhos são pontos de luz
que se procuram
em mesas de bar,
no refluxo de ruas.
Buscam-se por aí.

Mas faltara-lhes a mobilidade dos corpos, a necessária coragem para romper a inércia do medo. Um esperando pelos passos do outro, homem e mulher quedados diante da possibilidade de um novo voo. O que os prende? Quais segredos ou compromissos? Que livro de regras os impede de ruflar as asas? Então eles sonham, imaginam-se dançando colados, ao som inebriante da MPB; então trocam juras e promessas, beijam-se desesperadamente dentro de uma canção do Vinícius. Fundem-se em outro poema:

Seremos assim, unha e carne,
até que a morte nos devore,
até que a flor se cale
e a luz se faça...


A mulher saiu do bar como quem foge da raia, mas alguma coisa, uma parte indizível de si, ficou por lá, diluída. O homem esperou o cantor-assassino desferir mais uma canção, derradeira. E também saiu. No mirante da Lagoa parou para comprovar o milagre do alvorecer na Ilha, com a lua açoriana trocando de turno com o sol ainda sonolento, despejando os primeiros raios por entre as frestas das árvores que ainda persistem nos morros. Não estava sozinho o homem: ao lado de um grupo de turistas ela perscrutava o infinito, ela esperava. Lânguida, lépida, fúlgida, uma deusa proparoxítona, a mulher do bar. Olham-se. Beijam-se no céu imaculado da Lagoa.

Amores vêm,
vão.
Fugazes e não.
Mar, céu, chão,
todos os seres,
todas as formas.
Amar,
em qualquer conjugação,
é sempre um ponto de partida:
paixão.

A Lagoa da Conceição amanhece, enternece, torna-se clara poesia, sem subterfúgios. Ponto final. Ponto de encontro e partida.





Postado por Jaime Ambrósio às 18:54 | Marcadores: Vinicius   Afã   Derradeira  

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