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Quarta-feira, 22.07.2015 Vaquinhas, vinhos e pinguelas


A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.

Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, três adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.

Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.


- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.

Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Tudo passa, vai ficando para trás. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houver nenhuma interferência física de elementos modernos tudo ao redor é uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.

Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso perguntou se a gente era da cidade.

Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.

Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.

- Cadê a vaquinha, tio?

 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:18 | Marcadores: Agreste   Polenta   Pinheiral  

Segunda-feira, 06.07.2015 O dia que a Internet morreu

Foi assim, de repente, deixando o mundo a ver navios, mas também a ver outros portos e caminhos. No entanto, vamos esquecer Nova Iorque ou São Paulo para sermos universais na nossa aldeia, observando o caos na Rua das Gaivotas.
A menina bem menina Nanda, depois de algumas horas, desesperou-se, precisava combinar detalhes da festinha junina. Esqueceu que podia fazer isso por telefone, e saiu gritando pela rua.
- Socorro, alguém pode fazer alguma coisa? A Internet acabou!
Alexandre, que não era grande, mas tinha uma barriguinha proeminente, ficou num mato sem cachorro, porque os inimigos, umas raposas esquisitas, estavam prontas para dar o bote, no game.
Dona Isaura, sentada na varanda da casa, só ria assoprado e tossido – Ihihihihihih!!! Cof! Cof!
Marco, pra não pirar, ficou pensando em comida, e comendo o tempo todo.
Daniel dormiu longas horas, acordou e voltou a dormir longas horas.
Seu Tavares, que jogava com ele próprio no baralho virtual, ficou possesso, porque, depois de muito tempo, estava ganhando uma partida, de si mesmo.
Vítor perguntou ao pai se o mundo estava acabando.
Luisa, a mana que se metia em todas as conversas, disse O teu mundo, sim.
E a velhinha só rindo Ihihihihihihi!!!
Isaias da Rede. . . não, esse era de uma religião que proibia o uso do celular.
Mistral, que comprava de tudo pela Internet, achou muita sacanagem esse ato radical do terrorismo internacional. Justamente agora que descobrira um xampu da Eslováquia que custa mixaria?!
Mas, olha só, Fernanda, aquela menininha, descobriu que havia pássaros de verdade no Planeta, que havia tatuíras na praia, que havia conchas na areia ...
Alexandre visitou o zoo da cidade, viu bichos simpáticos, inclusive raposas.
Marco continuava com fome.
Daniel acordou de um pesadelo.
Seu Tavares jogou cartas na praça, conheceu outras pessoas e achou legal. Ah!, ganhou uma rodada de canastra!
Vítor descobriu que o (seu) mundo poderia estar começando .
Mistral conheceu feiras livres, brechós, lojas presenciais bem bacanas e baratas.
No dia seguinte, assim, de repente, a Internet voltou.
Parecia que fora apenas obra do destino, uma brincadeira, um teste para ver como esses humanos (des)ligados se comportariam, o que poderia mudar depois disso.
- Ihihihihihi! Cof! 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:56 | Marcadores: Nova Iorque   Zoo   Canastra  

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