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Segunda-feira, 26.10.2015 A letra da cozinha

Tem muito adolescente que se perde por se achar, se achar demais. Sabe tudo, imagina tudo, quer tudo, mas pouco faz, a não ser ficar grudado no computador a maior parte do tempo livre. E conhece mil garotas, e fica com fulana, beltrana e Joana. Só que não, nem sempre é isso, puro papo. Mas os pais, muitos deles acreditam, e dão força: Eita, garoto!
Dona Claudete, viúva, decidiu intervir no mentirismo e no folguismo do filho.
- Aonde você pensa que vai, Carlinhos?
- Vou de plano B, a Bruninha, já que o plano A não deu certo, a Ana pegou um resfriado. Preciso de cinquentinha, mãe.
- Seguinte, não tenho condições de ter uma empregada, a vida não tá fácil, então, antes de mais nada, você vai encarar primeiro o plano C, cozinha. Lava toda aquela louça, porque eu caaaaansei de ser escrava de filho mandrião, folgado e que se acha. O buraco, agora, é mais embaixo, é o ralo da pia.
- Mãe, que violência é essa?
- Isso se quiser ganhar “trintinha” pra sair e voltar a meia noite. É a crise, garoto, reclama com a Dilma!
Ele na cozinha, pouca prática, muita preguiça. Pra piorar quebrou um copo e fez um talho na mão. Adeus balada.
Em compensação a Zuleica, filha da vizinha, veio lhe fazer companhia.
- Plano Z, filho? 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:31 | Marcadores: Trintinha   Beltrana   Cozinha  

Segunda-feira, 19.10.2015 Estradas, vinhos e pinguelas

A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.
Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, quatro adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.
Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.

- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.
Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houvesse nenhuma interferência física de elementos modernos, tudo ao redor seria, de fato, uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.
Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso pergunta se somos da cidade.
Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.
Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.
- Cadê as vaquinhas, tio? 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:12 | Marcadores: Canelinha   Milharal   Polenta  

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