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Quinta-feira, 20.01.2011 O Problema do Côco

Podiam falar mal dela, mas que falassem bem, ou seja, de acordo com a concordância gramatical. Não admitia os erros “básicos”, nem o excesso de gírias. Tá ligado?

Podiam cobrar caro pelos produtos que ela consumia, mas pelo menos que anunciassem os preços corretamente. Xuxu? Só faltava um anúncio do DVD da Chucha... Embora, refletiu ela, alguns etimologistas aceitem as duas grafias do legume. Mas o que mais deixava a professora Analice à beira de um ataque de nervos gramatical era o controvertido COCO, cuja água é light, mas cuja polpa tem excesso de caloria. Vai entender a natureza! Gente, pelo amor de Deus! A palavra é paroxítona terminada em O, portanto, não leva acento. Se nem isso sabem escrever certo, então o melhor é irem catar coquinho.

Era viúva e viu a uva. Gostou. Mas estava sozinha e numa espécie de TPM prolongada (Lembram da Melina?). Portanto, que não a provocassem com falhas gramaticais estúpidas. A irmã, Analúcia, preocupada com aquele diagnóstico, trouxe-a para passar o Natal e o Revéillon na casa de praia, em Floripa. No caminho da rodoviária até o balneário Analice descobriu um cartaz promovendo o espeto corrido da CHURRASCARIA do ZÉZINHO, com acento onde não devia. Senta, e espera!

Analice na praia. Guarda-sol, cadeira, óculos escuros e fator 30. Quando viu uma barraca já começou a sentir um arrepio. “Já sei que vou me incomodar hoje.” Tentou se manter calma. Mas sentiu sede e a bebida mais recomenda era água... de coco. Foi comprar, resoluta. Não deu outra, já na primeira barraca: CÔCO GELADO. Jesus Cristo! Na segunda, idem...; idem na terceira. E ela indo.

Finalmente!... Nem tudo está perdido na pátria do improviso! Detestava frases rimadas. Mas, tudo bem.

- Por favor, uma água de coco!

- Pois não, madama!

- É hoje! Quanto?

- Três real.

- Primeiro: o correto é: três reais. Segundo, não existe “chapeuzinho” aqui no primeiro Ó do coco.

- Então é aqui no segundo? – apontou o pobre vendedor.

A professora, que tinha a obrigação ética de explicar a correta ortografia, perdeu as estribeiras.

- Exatamente!

E saiu, bufando. Iria tomar uma coca-cola ( normal) que a Analúcia trouxera na bolsa térmica.

- Que ódio!

Pra complicar, ou não, ainda ouviu o vendedor de picolé comentar com um colega: Eta coroa boazuda! O dia, enfim, não estava de todo perdido. Analice até esboçou um sorriso.

Eu, heim! É ruim.





Postado por Jaime Ambrósio às 12:02 | Marcadores: Problema   Côco   Jaime Ambrosio  

Sexta-feira, 21.01.2011 Pérolas nas Areias das Praias

O PRIMO DE LÁ E O PRIMO DE CÁ
- Que baita rio, primo!
- Não é rio, primo, é mar.
- Não faz mar, é baita do mesmo jeito.
- Se tu dix... Agora vamos beber uma boa gelada.
- Primeiro uma marvada quente, primo, purinha. Eta nóis!

UM CARA OTIMISTA
Decidiu contrariar a previsão do tempo, que anunciava céu encoberto, e foi à praia assim mesmo, sem sol, fugindo da mesmice e do ócio. Arrumou a cadeira, sentou de frente pro mar e o infinito, abriu uma latinha e concluiu que aquilo sim é que era vida boa. Mar, gaivotas, barcos, ilhas... Mas cadê as mulheres? Não fosse por isso: tirou a última Playboy de dentro da mochila e começou a ler as fotos, admirando cada palavra...

A CARA DO OUTRO, O PESSIMISTA
- Se você quiser, Gisele, a gente vai pra praia, mas tá nublado, pode chover.
- Nem tanto, vai abrir. E o importante é sair de casa, pra não mofar.
Foram. E choveu justamente quando estavam instalados na areia. Carlinhos com cara de “viu-eu-não-falei?” começou a arrumar as coisas (pra voltar), vitorioso. Mas choveu rapidinho, logo parou. E saiu o maior sol. Carlinhos com cara de...
- O sol tá muito forte, Gisele!
- Vem aqui que eu passo o fator 30 – ela, vitoriosa.
- Pode dar uma insolação, câncer de pele. Não viu aquela reportagem na TVBV?
- Vi, mas não se preocupe, eu trouxe também o fator 50. Vai mergulhar, vai.
- Com essa água fria?
- Fria? Tem caipirinha ali na barraca do milho, pra esquentar.
- Depois de ontem à noite? Maluca!
Até que chegou a hora de Gisele explodir, sem TPM mesmo, porque paciência tem limite.
- Vai, Carinhos, vai comer a macarronada da tua mãe! Mas eu vou ficar, faça sol ou faça nuvem. E vai de ônibus, “filhinho”, porque o carro é meu!

VAI UM PROTETOR AÍ?
O garoto, cheio de ginga, tatuagem e conversa, achava que havia descoberto a fórmula infalível de “ganhar” as meninas do sol e mar. Simples: é só se aproximar e pedir para que uma delas faça a “gentileza” de passar a loção nas costas, do cara, claro. A partir daí rola um papo legal, uma amizade instantânea, troca de telefones, etc.
O tal garoto, munido de muita confiança, dirigiu-se às três beldades incrustadas na areia fofa. Estendeu o tubo de creme e engatilhou a artilharia verbal. Houve um silêncio geral como resposta, enquanto surgiam três surfistas “bombados” que estavam na barraca ao lado comprando água e cerveja. A “gentileza” foi toda deles.
- Deixa que eu passo, brother.
- Eu ajudo.
- Também tô nessa.
No nariz e na boca é suportável. O problema é nos olhos, dá um belo dum ardume, uma irritação danada, uma coceira dos diabos...

A QUESTÃO DO ACENTO
A professora de português, que já é conhecida de alguns leitores daqui, vai comprar água de coco. Então percebe, de novo, que na propaganda da barraca CÔCO está assim, com o maldito acento circunflexo.
- Um COCO, moço, mas, por favor, sem o “chapeuzinho”, que é errado.
O vendedor, um pouco contrafeito, tira o boné da cabeça, dizendo que o freguês é quem manda.





Postado por Jaime Ambrósio às 09:38 | Marcadores: Jaime Ambrosio  

Quarta-feira, 26.01.2011 O sumiço das pontes

Algo de muito sério e misterioso estava acontecendo na Terra, essa nossa casa deveras negligenciada (por eu, tu, nós e “eles”, as “otoridades”, como diz o demolidor de mesa Vânio Bossle). Em várias partes do mundo registrou-se, ao mesmo tempo, mas não ao vivo e via satélite (por algum problema), o desaparecimento de grandes obras e objetos do patrimônio público. Em Washington foi a Casa Branca (com o presidente e alguns asseclas dentro); em Buenos Aires a estátua de Carlos Gardel e, para desespero ainda maior dos hermanos, a camisa de Maradona na Copa de 86; em Londres foi o Big-Bem; em Paris, claro, aquela torre metida a besta; no Paraguai... no Paraguai?!...; no Oriente Médio algumas pirâmides e duas odaliscas; na China a antiga muralha que pode ser vista até de Marte, mas que eu nunca vi; no Rio o Cristo.. O Cristo?

Flori(p)anópolis, no sul mágico do Brasil, amanheceu... - Que é isso? – sem as três pontes. As três, sim, inclusive a “Velha Senhora”, que virou cartão postal, adoeceu e espera há muitos e muitos anos pelos medicamentos eficazes, muitos deles vindos do exterior. A população, logo que soube da novidade, ficou dividida entre o pasmo e a crendice. Os mais afoitos logo trataram de fazer alguns comentários sobre o inusitado “fenômeno”.

CIDADÃO AVULSO 1 – Sinais dos tempos, em que não haverá mais estradas sobre as águas e o mundo se dividirá em duas partes antes da explosão final.

RATO (que na verdade é um sonoplasta) – Eu não disse, Jaime?! Eu não disse?! Mas vocês riram, você e o Guido...

DONA MARIA DA CAIEIRA DO SACO – Ólho-lhó-lhó! E num é que o mári inguliu as pônti gêmea e também a enferrujada, aquela de bunito?! Agora é que as vaca vão pro brejo.

RONÉRIO SILVA – Sempre fui a favor do transporte marítimo de passageiros, talvez agora me entendam...

GERMANO – Resta sabê se os ônibus tão preparado pra andá sobre o mar sem afundá.

CIDADÃO AVULSO 2 – Precisamos de pontes que liguem o homem ao Criador do homem.

RATO – Eu falei...

ZEZINHO DO MORRO ALTO – Eu vi, tava indo pescá na passarela da ponte que vem, era bem cedinho, inda escuro. De repente, uma luz no Céu, grande, que puxou todas elas. Parecia um filme que eu quase vi lá em casa.

Era um sábado, e um rebuliço bem maior que o apagão ou a Novembrada. Um caos. Claro que alguns nem ligaram, afinal, não teriam que se deslocar pro trabalho, tanto de lá pra cá, quanto daqui pra lá. Mas outros precisavam atravessar aquele pedacinho de mar perdido na terra, como a turma do Continente, que queria ver o campeonato de surf na Joaquina; ou os jogadores do Avaí (e seus torcedores mordidos) dispostos a ganhar a revanche. Ora, acontece que tudo foi cancelado, até o jogo do bicho na Banca do Mané. Claro que os donos de barcos não perderam tempo. A preços exorbitantes começaram a transportar os habitantes mais apavorados. Neném, que não era o da Costeira, foi fazer o mesmo, com seu barquinho acanhado.

- Num pódi é batê um vento súli!

E assim prosseguiu o drama dos ilhéus e continentais, até o sono derrubar os que ainda conseguiam dormir. No meio da madrugada, quando a balbúrdia havia serenado, eis que a três pontes retornaram à Terra, ou seja, ao mar. Misteriosamente. Florip(a)nópolis amanheceu em festa, era domingo de sol. Mas o que apenas alguns perceberam, de imediato, provocou, depois, um espanto geral: a Hercílio Luz, a Velha Senhora com dores lombares, ficou exatamente entre as duas pontes de concreto.

E assim quase tudo voltou ao seu lugar. Em Nova Iorque, por exemplo, a Casa Branca estava lá de novo, mas o presidente, o presidente não havia retornado.





Postado por Jaime Ambrósio às 18:53 | Marcadores: Jaime Ambrósio  

Terça-feira, 01.02.2011 Pai e filho futebol clube

Mais bonito que bola na rede é a presença de crianças nos estádios. Elas dão um brilho especial aos jogos, são espontâneas, etc. Claro, os adultos que as conduzem precisam ter uma certa paciência, posto que, por natureza, elas são exímias fazedoras de perguntas, além de eternas famintas. A primeira vez de uma criança num estádio de futebol é inesquecível, para ambos os lados. Por exemplo: papai Eduardo e seu filho Dudu.
Chegam descontraídos, camisa e boné do Figueira, mãos dadas. Um dos policiais revista Eduardo, que traz o celular e o radinho de sempre, nada fatal.
- Pai, porque ele não me revistou?
- Porque você é uma criança...
- E se eu tivesse uma arma escondida?
- Tá bem, vou pedir pra ele te revistar.
- Por quê? Eu não tô armado!
O menino quer pipoca e coca, que é pra rimar; Eduardo quer cerveja, mesmo que seja sem álcool, mas gelada. Procuram a fileira, os números. Sentam.
- Vai ter desfile da Coloninha, pai?
- Não, Dudu. É o batuque da Gaviões, a torcida organizada.
- Organizada? Mas tá todo mundo pulando que nem doido.
- É assim mesmo.
Entra o famoso trio de arbitragem.
- Por que tão chamando o juiz de ladrão se o jogo nem começou?
- É assim mesmo.
- Depois eles vão xingar a mãe dele?
- Talvez. E vê se come a pipoca.
- Por que eles não ligam aquela TV?
- É o placar eletrônico, Dudu, que dá o resultado do jogo.
Os jogadores entram. Aplausos, fogos, assobios.
- A festa não tem que ser depois que o time ganha?
- Também.
Começa o espetáculo, a gorduchinha rola, pois é redonda. Logo vem o primeiro quase-gol do Furacão, depois outro, mais um quase-gol.
- Pai, preciso fazer xixi.
- Espera o intervalo.
- Não dá.
Pai e filho desaguando. Eduardo com o radinho numa das mãos. Gooool!!! Pensa em sair correndo, mas deduz que nunca chegaria a tempo de rever o lance, não tem telão. Dudu empolgado também.
- Eu dei sorte, pai, saiu o gol porque a gente veio fazer xixi.
- É, pode ser.
No segundo tempo vem o empate. Na sequencia uma bola na trave adversária (que joga contra) e um pênalti não marcado (pelo juiz do contra).
- Ó, pai!.. Tão mexendo com a mãe do juiz.
- É assim mesmo. Agora vamos fazer xixi de novo.
- Mas eu não tô com vontade.
- Não importa, Dudu? Vamos!!!





Postado por Jaime Ambrósio às 11:10 | Marcadores: Coloninha   Figueira  

Quinta-feira, 03.02.2011 Tainha e Costelão

Era uma vez, em algum lugar na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, uma moça muito bonita chamada Tainha e um gaudério pilchado que atendia pelo nome de Costelão. Ela, toda escamosa e figueira (corrigindo: fagueira); ele, cheio de si, no más, trazendo um lenço colorado no pescoço, botas até o joelho e um grande bigode pendurado nos beiços. Era o advento da tradicional Festa Campeira e do Colono, um encontro da cultura e da gastronomia dos dois estados.
Maria Tainha, que sabia preparar frutos de mar como ninguém (especialmente o peixe que lhe dera o nobre apelido), veio do Pântano do Sul a convite dos organizadores. Queriam incorporar àquela festa a comida típica do litoral catarinense. Costelão, filho de um criador de gado, tinha a fama de ser o maior churrasqueiro das estâncias.
Quis o destino que a barraca dos dois ficassem lado a lado, confundindo o cheiro da carne assada com o dos pratos da famosa Ilha de sol e mar. Mas a fumaça do fogo de chão já começava a incomodar a moça, pouco adepta da tal carne exagerada. O gaucho, pra desfazer a fama de grosso, tratou logo de iniciar uma prosa com a bela vivente. Apresentou-se.
- Costelão, ao seu dispor.
- Brigada, inda num tô com fome.
- Eu, me chamo Costelão.
- Ah!... Eu sou Tainha do Pântano.
- Prazer!
- Nem tanto. Esse incêndio aí vai demorá muito? Não é o caso de chamá os bombeiro?
Não foi muito interessante o início da conversa, claro.
Costelão ligou o aparelho de som, música gauchesca daquelas de “animar até defunto”. Depois de quase meia hora Tainha resolveu intervir.
- Ô nego! Não tens aí o Daza, Swing Manero, Tijuquera ou aquele maluco, o Agostinho das latinha?
- Quem, quem ?
- Ihhh! Pelo jeito não conheces nada mesmo. Abaxa o volume, fazendo favô.
O gaudério matutou lá consigo: “É de chinoca assim que eu gosto, um pouco difícil, coxuda que nem leitoa no engorde e mais bonita do que laranja de amostra”. E tratou logo de fazer um agrado, tirou uma lasca de alcatra, cortou em pedacinhos e levou para a vizinha impaciente. Que aceitou, pois não era de seu feitio recusar uma gentileza. E não é que o aperitivo era do bom mesmo?
- Já comesse ova? (perguntou Tainha)
- Ovo? Já.
- Não!... Ova?
- Não.
- E berbigão ensopado?
- Também não, prenda.
- E lula?, marisco?, ostra gratinada?, sopa de siri?, camarão na abobra?
- Camarão, sim, no espeto.
- Tens muito que aprendê no litoral, nego.
E ela nos pampas. Na manhã seguinte ele a levou para conhecer a invernada e a fazenda dos pais. Tainha ficou por lá três dias, montando em cavalo, tomando chima, comendo carne seca e outras carnes churrasqueadas. Depois disso Costelão acompanhou-a até o Pântano do Sul, iria visitar a família dela.
No fim das contas ficou tudo misturado, picanha na brasa com pirão de peixe, moqueca de cação com paleta de cordeiro assada, e por aí. E assim, na desordem dos sabores, engordaram e viveram felizes...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:58 | Marcadores: Chinoca   Vivente   Ova   Moqueca   Pirão  

Quarta-feira, 09.02.2011 Amor e futebol

Juliana ama Nano, que ama Juliana, que era avaiana, assim, como uma rima teimosa. Agora Juliana torce pelo Figueira, igualzinho ao Nano. É que antes estava complicada a relação dos dois, a ponto de o amor querer desmoronar, gol após gol. Quando a TV passava algum jogo do Furacão, Nano não dava bola nenhuma pra Juliana, porque a bola corria era lá no gramado, redonda, incerta. Juliana ficava secando, secando, enquanto fingia fazer as vinte unhas. Por outro lado, quando a telinha mostrava alguma partida do Leão (que urra, urra, urra...) Juliana não ligava, obviamente, para as investidas dele (do Nano, claro), que ficava secando, secando, enquanto fingia ser o Rodrigo Santoro do Estreitcho.

E os jogos na capital? Nano no Scarpelli, livre e solto como os quero-queros lá no gramado; Juliana de ressaca na Ressacada, à mercê dos aviões que voam mais ao alto. E os clássicos? Cada um no seu canto, no seu quadrado, cantando versos de amor ao próximo:

- “Aí, aí, aí...”

- “Eira, eira, eira!...”

Por tudo isso Juliana, numa decisão extremamente difícil e dolorosa, arbitrada pelo coração (e auxiliada pelo cérebro), virou a casaca, trocou as cores , o hino, os percursos, etc. Antes isso do que a dor da separação, avaliou ela. Duda, grande amigo de Nano, e Figueirense roxo de tanto alvinegro, não deixou por menos:

- Viu?, o amor nem sempre é cego, às vezes enxerga muito bem.

Mas tem casos em que a torcedora prefere perder o namorado a trocar de time. Tem torcedor idem. E tem os que acreditam que a prevenção ainda é o melhor remédio. Por exemplo, o Carlinhos conheceu uma certa garota e tal. Dançaram, beijaram-se, ficaram-se. Pouco sabiam um do outro, o que importava era a atração que estavam sentindo, certo? Até que o rapaz resolveu fazer uma pergunta, uma perguntinha apenas, aparentemente ingênua, despretensiosa:

- Ei, gata, qual é o teu time do coração? O da Ilha ou o do Estreito?

- Sou Avaí, claro!

Carlinhos levantou-se (estavam sentados) feito um tufão, um furacão enfurecido, um Catarina desenfreado. Saiu sem ao menos pagar a conta, que fiou por conta dela, que ficou por conta.

- Amor e futebol têm dessas adversidades. Nada como a rotina de seu Alberto e dona Carmem, que torcem pelo mesmo time há muito tempo e por isso não travam nenhuma discussão durante as partidas: seu Alberto gosta de ir ao estádio; dona Carmem prefere ouvir o jogo em casa, no rádio que ganhou de aniversário.





Postado por Jaime Ambrósio às 09:31 | Marcadores: Furacão   Estreitcho   Figueira   Avai  

Sábado, 12.02.2011 O espirro

Em qualquer lugar ou situação ele é um atraso de vida, com sua repetência irritante e seu borrifo escandaloso. Já houve jogador de futebol com torcicolo, velhinha que perdeu a perereca (voou), e até cabra macho que terminou a empreitada antes do tempo, sobressaltado. Já, amor?

Mas no trânsito a coisa pode ser ainda pior. Um espirro não mede as conseqüências mecânicas. Paulo Alexandre (professor de português, de cursinho) dirigia o carro com a calma de sempre, cuidadoso, diminuindo a velocidade na faixa de pedestres, deixando a moça bonita passar, também o velho carregando a sacola de compras. A rigor, um bom motorista. Mas aconteceu, e a gramática não explicou. Maldito resfriado! O espirro veio incontrolável, absoluto como Deus. Não deu tempo de tirar o pé do acelerador, pelo contrário, o motorista atordoado pisou ainda mais fundo. Pá-plac!, a onomatopéia da barbeiragem.

Desceu do carro, desceram; tentou se desculpar, dizendo que o problema foi o espirro. O quê? Espirro? Isso mesmo (irônico, para disfarçar o nervosismo): esternutação (?), jato, esguicho, borrifo, expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada pela irritação da mucosa nasal.

Antes de a vítima, do trânsito e do léxico, tentar uma reação chula e braçal, o policial interveio.

A vítima: “Não quer explicar ao guarda o negócio do espirro?”

Paulo: “Que espirro?”

O guarda: “Não explica nem justifica, bateu atrás é culpado”.

O professor descansou a gramática, de nada adiantaria dizer ao PM que a culpa foi de um espirro autoritário, inculto. Ora, bateu atrás o seguro paga, conformou-se. Aliás, deveria haver, isso sim, um seguro contra espirro. Por que não? Acertou os conformes e entrou no carro, que agora teria que ficar alguns dias parado na oficina. Tudo por causa de um espirro lazarento...Então parou numa farmácia e comprou uma tonelada e meia de vitamina C efervescente, aspirina, antigripal e outros medicamentos que previnem acidentes de trânsito.





Postado por Jaime Ambrósio às 23:16 | Marcadores: Léxico   Borrifo   Esternutação   Mucoa   Lazarento     

Terça-feira, 15.02.2011 O roubo da vaca


Pedro Monteiro da Silva foi quem registrou a ocorrência na DP de Canasvieiras. Roubaram a vaca Princesinha que estava no seu cercado (dele, mas da vaca). E ainda: o animal foi visto, depois, no pequeno sítio de Eldo Silveira. Pronto, estava iniciada uma confusão se fim.

Eldo, chamado a depor, contou que havia comprado a vaca de Argemiro Antunes, que disse ter feito negócio com Haroldo Arnoldo, que confessou ter dado a Nicanor Bernardino duas cabras e uma bicicleta velha em troca do bicho. Este último (não o bicho, Nicanor), assegurou ao delegado que a vaquinha, em verdade, era cria de Chico Farinha, quer dizer, de uma vaca dele.

O delegado Jofre Simão, que não gostou muito daquela história matreira, mandou chamar todo mundo. Seria assim uma espécie de acareação coletiva. Deu pior a emenda: teve que agüentar muita discussão e troca de xingamentos. Nenhum acordo sobre o animal. Quem seria acusado de roubo e quem ficaria com a vaca? Por enquanto ela permaneceria na propriedade de Eldo Silveira, por enquanto. Mas como encaminhar o inquérito? Não havia flagrante, nem provas, nem qualquer documento de posse; havia uma denúncia. O delegado liberou todos, assegurando, porém, que iria descobrir quem era o ladrão.

Mas no dia seguinte Pedro Monteiro retornou à DP.

“Dotôri, o senhor retira a queixa porque nóis já acertamo tudo. Vamo matá o bicho e fazê um surrasco no sábado.”

Caso encerrado, ou quase.

Ninguém viu, só dona Lurdinha, madrugadora das antigas, que ficou de bico calado. Neco Viriato estava de partida, iria morar numa encosta de morro lá em Santo Antônio e fabricar queijo colonial e ricota. Como o caminhão do compadre Vieira tinha uma grande carroceria e a mudança de Antônio era coisa pouca, o plano deu certo. O bacuri Pedrinho, ainda sonolento, foi até o sítio ali perto, amarrou uma corda no pescoço da vaca, que não reagiu nem nada, e a levou até o pai, dele. Deu um pouco de trabalho fazer a Princesinha subir pela rampa improvisada, mas valeu a pena.

Não para Eldo Silveira, obrigado a dormir e acordar sempre com a mesma pergunta:

“ Cadê a vaquinha? Cadê ? ”





Postado por Jaime Ambrósio às 21:58 | Marcadores: Santo Antônio   Canasvieiras   Bacuri  

Quarta-feira, 16.02.2011 Bingo!

Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar o acontecimento. Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais leve, borrifou um perfume e raspou o bigode ralo, que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer o frango?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:56 | Marcadores: Hostia   Bingo   Missa  

Sábado, 19.02.2011 Causos e ditos da Ilha

Um lanço grande de tainha é um mundo de peixe, disse o Zé da Rede, senhor da pesca e das frases arrumadas. Um mundo de peixe. Como lá na infância, no açude da usina. Passado e presente. Antônio olha para a alegria dos pescadores, se identifica com aquele menino que ajuda na arrumação da pescaria, que deixa uma ou outra tainha escorregar das mãos, que ri de um peixe esquisito e vermelho, perdido ali...

Antônio estava encantado com a nova experiência vocabular e com o perfil descontraído e gozador dos pescadores, que adoravam contar histórias. Então descobriu um punhado de livros que explicavam a descendência açoriana deles, outros dicionários com os termos e expressões mais comuns daquele universo ilhéu. Devorou rapidamente cada página, fez anotações, repetiu palavras. E não foi só. Também comprou um pequeno gravador, que usava no bolso da jaqueta jeans sem manga ou do bermudão de linho. Espionagem léxica. Em casa ouvia de novo as histórias do bar e verificava as falas que ainda não conhecia. Estava quase se saindo um manezinho de ocasião. A cada dia ficava mais parceiro com os nativos: Zé da Rede, Chico Farinha, Osvaldir, Miltinho, Véio Chulapa, Alvina, Seu Cardoso, Zeferino do Bode, dona Lurdinha, Pedro Dionísio, Nego da Zulma, Cajurino, Vaguinho...

E não é que meio sem querer-querendo Antônio presenciou, com aqueles ouvidos que Deus lhe dera, uma arenga entre duas mulheres que disputavam o mesmo pescador? Rapaz sortudo o Vaguinho.

- Sua lambisgóia entojada, pode tirá o cavalinho da chuva! O Vaguinho é meu e num tem pra ninguém mais. Ouvisse?
- Ó-lhó-lhó! Tás tola, amiga? E antes que máli lhe pergunte, quem foi que deu o primeiro beijo no Vaguinho, lá na festa do marisco?
- Désse outra coisa, isso sim, pissirica!
- Bisca!
- Disgramada!
- Miserenta!
- O vaguinho nunca vai me trocá por uma ranhenta que nem tu.
- Sai pra lá, somgamonga despeitada!
- Eu te acarqueto os óio!
- Vai te cagá, tranqueira!
- Vou te dizer-te uma coisinha pra ti!
- Não me intisica que eu te quebro os cornos!

Antes de as duas se engalfinharem por amor alguém chega como quem é rei da Ilha, o próprio Vaguinho.

- Guinho?!
- Amôri?!
- As duas parem já com essa palhaçada!
- Então decida entre eu e essazinha aí!
- Nenhuma. Agora eu tô com a Gi.
- A Gi da padaria? Aquela broa sem gosto?
- Ela mesmo!... Sem gosto, não!
- Ô essa menina! Vem comigo, vamo comprá sonho com doce de leite.

As duas em direção à padaria, Vaguinho atrás. Rapaz de sorte esse Vaguinho.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:13 | Marcadores: Léxico   Bermudão   Ilhéu  

Terça-feira, 22.02.2011 Conversa de ônibus

(SENTIDO CENTRO-BAIRRO)


... te digo, cumadre, o Jandí tá assim mesmo, não tem mais jeito. Vorta toda santa noite fedendo pinga; às veiz fede perfume barato de guenga (A COMPANHEIRA ARREGALA OS OLHOS). O que ele precisa mesmo, cumadre, é de um bom par de chifre. Má dexa comigo, que hômi não me farta. Tem até o véio Dorico da vendinha, que tá de ôio arregalado pra cima de mim. Nunca dei trela, mais se quisesse eu nem precisava pagá as compra. O Jandí que espere, vai é arrumá prá cabeça. Lazarento! Istepô!

- Vige, cumadre! Tá desse jeito a coisa?
- Óia, si num fosse pelo menino eu mandava o Jandí às fava. Ma e daí, o qué que eu vô fazê? Sô meio songamonga pra consegui argum emprego. E num acho que ele ia aceitá assim a minha decisão, que hômi nenhum gosta de sê jogado pro escanteio.

(OS PASSAGEIROS MAIS PRÓXIMOS JÁ COMEÇAM A FICAR INCOMODADOS COM A CONVERSA DAS DUAS: MATILDE, MULHER DE JANDIR, E GENILDA, COMADRE E CONFIDENTE.)

- Que horas é agora, cumadre?
- Seis e quinze.
- Vô pegá o Juninho na creche, vô dexá com a dona Neusa do açogue, e sabe pra onde é que euzinha vô? Lá pro buteco perto da zona. Quero pegá o disgramado no fraga. Só quero vê o cagaço dele. Aí vamo vê dispois se o mardito vai tê razão de discutí comigo. Vai é ficá nas minhas mão.

- É, cumadre?

(MESMO COM MUITO ESFORÇO É QUASE IMPOSSÍVEL
DEIXAR DE OUVIR A CONVERSAÇÃO DAS DUAS.)

- Sabe o que eu penso, Genilda, si num qué, por quê casô? Num tá satisfeito com o que tem, vá simbora sim sinhô, má dexa tudo comigo e me dá pensão. Pra mim e pro moleque.
- Sê acha mesmo que ele tem alguma bisca, uma amiga, assim?
- Uma pissirica, uma bisca sim, cumadre. (GENILDA TEM UM SOBRESSALTO)
- E se ele num tivé naquele bári hoji, Matilde?
- Tenho certeza que vai tá.
- Só por causa que ele bebe umas pinga num qué dizê que anda botando galho na cumadre.
- Tás tola?

(UMA SENHORA, NO BANCO DE TRÁS, SE LEVANTA
BRUSCAMENTE, ENQUANTO FAZ CARA DE REPULSA, E VAI PARA PERTO DA PORTA DE DESEMBARQUE. FICA EM PÉ. O ÔNIBUS JÁ NÃO ESTÁ LOTADO, SOBRAM ALGUNS LUGARES.)

- Genilda, Genilda, me diga, tu que já teve hômi, já viveu ajuntada com o cumpadre Tonho, eu acaso sô coisa que num serve pro Jandí? Virei um trapo? Menina, tô ainda é muito intera. Então me diga: por que é que ele vorta da cachaça e num qué nadica de nada comigo? Só assim quando for feriado, dia santo...

(O OUTRO PASSAGEIRO DO BANCO DE TRÁS TAMBÉM SE
LEVANTA, MOVENDO A CABEÇA DE UM LADO PARA OUTRO EM SINAL DE REPROVAÇÃO. – Ô GENTINHA!)

- E tem mais: agora deu pra chiá por causa da comida. Que só faço
feijão, arroz e bife, que nunca tem uma saladinha diferente,
um macarrão com carne moída, uma dobradinha. Que que há?! Já num basta no domingo que tenho de fazê maionese, farofa e tainha recheada? De veiz em quando ele até faiz um surrasco de custela, e convida o Dorico, que sempre vem. Nem sabe o Jandí...
- Péra, péra , cumadre, ele até que tá certo. Trabalha, traz dinhero,
tu tem mais é que é alimentá ele direito.
- Vige, tô te desconhecendo! E aquele pudim de cana merece
comida melhó?
- Ô, cumadre, também num é assim. Hômi é hômi, é tudo igual.
- Ma não comigo. Tás tola?

(O CASAL DA FRENTE TAMBÉM SE LEVANTA, RINDO
BAIXINHO.)

- Dijaoje mesmo, cumadre, ele teve o tupete de dizê que as minhas unha tavum muito cumprida e sem esmalte. Vá si catá! Quem ele pensa que é cum aquele bafo de bode, aquele fedô de suvaco sujo?
- Nem tanto, cumadre, nem tanto.
- Ô essa menina! Tás é defendendo muito o Jandí. Tô te estranhando!
- Dexa de bobági, Matilde. Só acho que o Jandí num é esse bicho que tu dize.
- Então, então, eu é que tô errada, é isso?
- Num falei isso, num falei isso.
- Ói, cumadre, eu conheço a praga que tenho. No começo, eu tô bem lembrada, era amôri prá cá, amôri prá lá, me dê uma beijoca, vai, me dê isso, me dê aquilo. Mais agora!...

(SÓ RESTAVA MEIA-DÚZIA DE PASSAGEIROS.)

- ... Num sei, o marido é teu, mais eu aicho que tu tá fazendo um
escarcéu por nada. Dexa a coisa assim como tá. Ele ainda gosta de ti, mas os hômi são assim mesmo, querem sempre arguma coisa melhó.
- Genilda?!
- Que que é, mulhé?
- Tô te estranhando, cumadre!
- Ólho-lhó-lhó! És a maió!
- E me abre essa janela, que só tu num percebeu que tá um calô dos inferno aqui dentro.
- Peraí, tô abrindo...
- Ô cumadre Genilda?!
- Fala, Matilde.
- Esse teu perfume, agora que apercebi... e num é que é mesmo?!
- Que que tem?
- É bem o cheiro do Jandí quando vorta mais tarde.
- Me... me dê licença, cumadre, que eu vô descê.
- Genilda!, esse num é o teu ponto.
- Licença, cumadre, dê um bejo no afilhado.

(NO PONTO FINAL MATILDE SALTA, “P... DOS CORNO”.)





Postado por Jaime Ambrósio às 21:24 | Marcadores: Bisca   Zona   Disgramado   Trela   Lazarento  

Sexta-feira, 25.02.2011 Conversa de pescador


Num costão por aí.

- Puxô?
- Inda não.
- Arruma o anzóli...
- Mas como eu ia lhe dizendo no caminho, Dorico, a Matilde tá uma pessoinha amarguenta que só vendo.
- A modi de que, Valdí?
- Sei não. Coisa de mulé. Começô cismá que ando saindo com bisca, que chego tarde
e num dô conta da obrigação. Ora, Dorico, nem sempre o sujeito tem fogo pela mulé de casa. E ademais, que mal há de passar no buteco depois do serviço?
- Mal nenhum. Opa! Tá puxando...
- O que é?
- Deve de sê um gordinho... Ihhh! O afreventado escapô.
- Num esquenta. Isso é que nem mulé, sempre aparece outra.
- Então, então!
- ... A Matilde tá muito intojada pro meu gosto, num tem? Até na comida ela me apronta. Dijaoje o pirão do almoço tinha escama de tainha. Se tem coisa que me dexa malino é pirão com escama. E qué vê o berbigão: a songamonga nem lava pra tirá a sujerada. Fica aquele gosto forte de ferruge que só mesmo a cachaça resolve.
- É invejume, Valdí, invejume. A Matilde tem raiva das tuas noitada, mas bem que a danada gostaria de se esbaldá por aí de noite.
- Ah um relho no lombo!
- Nem tanto, Valdí, nem tanto.
- Opa!...
- O que é?
- Um baiacu barrigudo.
- Apincha na água.
- ... Num digo que a Matilde seje uma mulé que num vale nada. Tem suas qualidade. Num arrasta asa por aí, nem nada. Mas é muito reclamona e aluada. E agora deu pra querê se pintá toda. Parece uma lambisgóia. A módi di que? Me digue tu, que tem muita idade e já passô por isso.
- Sei não, sei não!
- Ah, e tem outra coisa. De uns dias pra cá deu pra me fazê provocação. Disse que eu vô arrumá pra cabeça. Numa noite dessas ela descobriu um perfume de outra no meu cangote. Pronto! Ficô sortando fogo pelas fuça. Então inventô, a módi de me dá um cagaço, que tinha se deitado, numa tarde dessas, com um conhecido meu já meio fora de uso.
- Miserenta!
- Também acho, Dorico. E ainda confessô que só num deu a pissirica porque o tal do hômi ficô com o rojão arriado.
- Istepôr! Bisca! Catinguenta! Vai me pagá! Quem a disgramada pensa que é pra falá assim?
- Que é isso, Dorico?!
- A... acabô de escapá uma tainhota perdida. Lambisgóia!!!
- Qué sabê, vambora que o mar num tá pra pexe. A gente compra uns dois quilo de mistura ali na praia e leva pra casa.






Postado por Jaime Ambrósio às 22:51 | Marcadores: Baiacu   Lambisgóia   Cagaço   Songamonga  

Quinta-feira, 03.03.2011 Escafedeu-se o conto

Um dia o autor perdeu um conto e quis assassinar a empregada.

Por engano ele (avesso à tecnologias) tinha deletado o texto do computador, mas havia uma cópia, uma cópia impressa. Mas ela (a empregada) jurou pela alma do finado pai que não havia jogado no lixo aquele envelope marrom. Hmmm! Como sabia que o conto estava dentro de um envelope marrom? Janaína tremeu um pouco nos alicerces, mas confessou (coitada!, ela que tinha como maior defeito não saber mentir): havia lido a história, patrão. O autor (que a despeito de ser um pouco destemperado tinha bom senso e não sabia humilhar nem uma barata) perguntou o que ela tinha achado da narrativa. O final, senhor, o final. O que tem o final, criatura? Não pode ser assim, patrão. O personagem central, ele sofre o tempo inteiro, perde a mulher para um amigo, o cachorro morre atropelado, ele perde o emprego, é despejado. Quando tudo parece perdido o homem acerta na loteria, fica milionário. A mulher, então, quer voltar; ele não aceita. Ela diz que tem direito a uma parte da grana; ele nega, responde que ela fugiu com outro, que é abandono de lar. Então ela mata ele (ela o mata, Janaína).Que seja, ela o mata ele. Mas o que tem de errado no final, ô bendita? Assim, patrão: com quem vai ficar o dinheiro? Pra ele é que não, defunto não tem necessidade de gastar. Pra mulher?, que vai enganar a Justiça? Ou pra Caixa Econômica? Pausa para reflexão e para mudar de parágrafo, que este ficou muito longo...

Mas aí, Janaína, é um desfecho sem desfecho, entende? Um final em aberto, para mexer com a imaginação do leitor. Não concordo, o autor és tu. A responsabilidade és tua. E o que mais, mulher? Ora, patrão, então o cara se dá mal sempre, apanha na vida que nem cachorro de rua, e quando fica rico, morre. Que graça tem nisso? Quem garante que ele vai ter a recompensa lá no outro mundo? Tem que ser igual nos filmes de drama: no final, depois de muita desgraça, o mocinho vence os inimigos e continua vivo, como se a vida fosse um prêmio pra ele. Mas, mulher, tu vistes, por exemplo, Romeu e Julieta? O vi, o vi e não gostei. Tava mais ou menos bom até o final, mas o neurótico do autor tinha que fazer sujeira bem na saída. Me diga: se os dois ficassem juntos, mas vivos, ia dar menos bilheteria? Não, pelo contrário. Mas o povo, que já é triste por causa da vida, ia sair do cinema um pouco mais feliz. Sem dúvida, Janaína, Shakespeare, o diretor, deveria ter avaliado melhor esse dilema: sair ou não sair feliz, eis a questão.

O autor (este daqui, não o de lá) estava deveras impressionado com a desenvoltura literária da empregada, sua lucidez crítica, seu senso de humor visceral. Tinha razão ela: o cara do conto não tinha que morrer, talvez sumir para o Caribe ou Fernando de Noronha, longe das garras da mulher, cheio de cifras, vingado. E pôs-se o autor a reescrever a história, modificando a trama, redesenhando cada personagem. Mas eis que a empregada, ávida, quase sem respirar, grita-lhe rente à porta do quarto (o autor escrevia no quarto):

- Patrão! Patrão! Achei o conto. Tava dentro do cesto de roupa suja. Mas não fui eu, juro!
- Rasga, Janaína! Rasga! E me traga os óculos, devem estar dentro da geladeira. Depois volta aqui, preciso que você comente uma outra história.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:28 | Marcadores: Escafedeu-se   Caribe   Shakespeare  

Domingo, 06.03.2011 O espelho

Fim de tarde. Congestionamento na Ilha. A vida é fragmentada, aos poucos: embreagem-acelerador-embreagem-freio; tudo de novo, outra ordem. A boa música no rádio restabelece a calma necessária, Marisa, Norah, Djavan. O sol bocejando nas superfícies, cansado. O homem olha pelo espelho, descobre a mulher lá atrás. Mas ela já o havia percebido dentro do retângulo do mesmo espelho, corpo limitado, semblante, fronte, olhos. Os olhos refletem mais a alma do que o corpo, refletem cores e segredos. Olham-se como se não houvesse mais nada para ser visto na terra, dois estranhos expostos na ilusão do espelho, imagens reversas, o reverso da paixão. O trânsito não haverá de fluir naquele momento consagrado: que o caos seja eterno enquanto dure! Entre buzinas e motores homem e mulher, prisioneiros do espelho, contemplam-se num frenético diálogo de frases mudas.

Então ela o deixa se distanciar um pouco, o suficiente para poder anotar a placa. A placa. Para ele a tarefa é mais difícil, letras e números invertidos. Mesmo assim anota-os, depois é só desvirá-los. O fluxo do tráfego recomeça, aumentam os espaços entre os carros. Ele quase bate, distraído. Olha pelo espelho e não a vê mais. Em poucos segundos ela sumiu, feito estrela fugida, um raio de sol. Por onde andarás? De que cor incandescente é teu mistério? Então uma buzina grita ao lado, urgente. Os dois se olham e sorriem, transbordados de adrenalina, como no afã do primeiro encontro. Estão marcados, amaldiçoados pela brusca paixão. No sinal vermelho ela diz que é Maria; Roberto, ele é Roberto. O sinal abre, eles seguem por caminhos diferentes, precisam obedecer seus rumos, Continente, Lagoa da Conceição.

Dois seres impacientes perdidos numa cidade cheia de direções, entre ruas e edifícios, buscando-se. Num supermercado o amor por um triz: ele no corredor das bebidas; ela escolhendo mortadela Bologna sem gordura. No shopping ela o viu de longe, correu, disse Roberto; era Eduardo, algo parecido. Perdão, moço. Nas danceterias todos são iguais, robozinhos gêmeos, mesmos gestos, prazer, fumaça, fuga, luzes fugazes, talvez uma paixão incerta, nada mais. No mirante da Lagoa ela tirava fotos com umas amigas; ele passou direto, burro. Quem sabe num barzinho de frente pro mar, lá na estrada das rendeiras? Mas tudo era em vão no sadismo do acaso.


Roberto vai ao Detran, mostra o número da placa. Precisa do telefone de Maria, ou do seu endereço. É um caso de paixão no trânsito, senhora. Quantas taxas é preciso pagar? Negativo, não lhe fornecem nada, são as regras. O Detran não sabe o que é o amor.

Maria faz o mesmo; fazem o mesmo com ela. Mas não desiste de procurar. Resolve ficar no cruzamento onde confessaram seus nomes, seu espontâneo amor. Ali ela entrega panfletos para os motoristas, propaganda de um restaurante de frutos do mar. Três dias seguidos, fim de tarde, congestionamento, o sol esparramado sobre as coisas. Mas Roberto não havia pensado nisso, em mudar seu trajeto, passar de novo por aquela avenida que não era seu caminho natural. Quando finalmente vislumbrou aquela possibilidade, Maria já não estava mais, cansara-se de provocar o destino.

Roberto procurando-a pelos espelhos, olhando em todas as direções numa louca procura. Quando o sinal abre decide mudar o traçado, buzina, sinaliza, acelera, mas é tarde, bate num outro carro, blasfema. Mas algum deus incansável estava ali, escrevendo certo por vias tortas. Roberto e Maria saem dos carros, máquinas amassadas, sorriem com alguns arranhões pelo corpo e o coração descompassado, e se abraçam como se fossem velhos amantes, como se a vida fosse um filme, um filme tolinho de final feliz. Beijam-se vorazes, alheios a tudo, enquanto a câmera se afasta lentamente e o caos, outra vez, se instala no trânsito da Ilha.

Ninguém no cruzamento entendeu aquilo.






Postado por Jaime Ambrósio às 09:42 | Marcadores: Continente   Norah   Incandescente   Bologna  

Sábado, 12.03.2011 O Dilúvio II

Durante aquele aguaceiro de vários dias, um verdadeiro dilúvio, Genuíno Porfírio concluiu que o mundo havia acabado. E já não era hora? - interrogou-se como quem fala com Deus. Não foi o fogo, nem a guerra, nem as pestes tantas. Novamente a água cobriu a terra. Sobrou ele e alguns animais, como na história daquele Noé longínquo que, além dos bichos, tinha uma família para salvar. Mas Genuíno era sozinho fazia tempo, nunca quis dividir o abrigo com outras pessoas. Tinha 70 anos no lombo encurvado, talvez mais, não menos. Ainda tinha forças para as lidas, embora a vista fosse um pouco embaralhada.

Morava numa região ribeirinha, mas precavidamente instalou-se em cima de um pequeno monte. Passara por outras enxurradas, que trouxeram a água até uma certa altura. Mas nada que pudesse prejudicar, lá no alto, as lavourinhas de mandioca, batata e milho, culturas que lhe garantiam parte da alimentação. Para completar o sustento pescava no grande rio ou abatia, com a espingarda espalhadeira, algum animal na margem do mato, que era a margem das águas, a margem da vida. Agora, entretanto, o mundo estava desabado. Mal dava para sair da casinha que, teimosamente, agüentava firme em cima de seis caibros de tronco de peroba. Pelas frestas do assoalho Genuíno podia ver a água se arrastando a dois palmos do chão, não conseguia ver a terra; pela janela tudo era um único rio debaixo do mesmo céu, o mundo havia sumido. Não havia roça, nem mato, não havia sabiás como antes. Os seus bichos ele os trouxe para dentro da casa. Estavam salvos, mas famintos. Então começou a angústia de Genuíno: não havia mais o que comer.

Logo começaram a se comportar de modo estranho, bichos e homem. Se algo não fosse feito provavelmente todos, ali, tentariam devorar-se uns aos outros. Não haveria mais complacência nem ternura, só o instinto. Sobraria o mais forte, que depois também ficaria sem comida. A vida urgia através do estômago, a fome era um demônio avassalador. E como escolher qual seria o primeiro animal? Genuíno levou em conta a relação de afeto estabelecida anteriormente com ele. O amor, mais do que egoísta, seria agora mortal.

Primeiro foi Anastácia, galinha velha que durante anos anunciou o romper da madrugada com uma seqüência exata de cocorococós prolongados. Ela pressentiu o destino que lhe era reservado e tentou escapulir. Para onde, Anastácia? O cão Godofredo cravou os dentes no pescoço da ave apavorada. Para encurtar sua dor Genuíno apanhou a faca e decepou-lhe a cabeça, que logo foi disputada por todos os bichos. O sangue também. Mal depenou a galinha teve que dividi-la entre os vários comensais. Para si reservou uma parte do peito, que temperou com sal e pimenta. Chamuscou-a na chama do lampião, que ainda funcionava graças a um resto de querosene. Mastigou, sôfrego, e bebeu água suja para limpar o estômago.

A chuva parecia querer parar, a fome não.

Genuíno precisou fazer uma nova escolha, mas os dois papagaios, Bastião e Chico, os próximos da lista, levantaram vôo e sumiram pela janela afora. Sabe Deus aonde iriam pousar as asas. Por eliminação era a vez do bode Sargento, que percebeu o perigo, mas não teve agilidade para a fuga incerta. Prostrou-se, assim, ao destino marcado. Genuíno carneou o bode, mas dividiu apenas uma parte da carne, guardando a outra para o dia seguinte. Pegou uma tábua do estrado da cama e com o facão tirou algumas lascas. Ainda restavam alguns palitos de fósforo. Acendeu o velho fogão e fez um guisado.

Quatro dias depois as águas começavam baixar lentamente. Agora eram apenas eles dois, Genuíno e Godofredo. Já podiam caminhar lá fora, num raio de alguns metros, mas havia somente lodo, nada que pudesse servir de alimento. Com sorte Genuíno conseguiu desenterrar uma raiz de mandioca, que cozinhou junto com o último pedaço do coelho chamado Cirilo.

Dia seguinte a fome chegou cedo, mas nada havia que lembrasse comida. A noite se aproximou, devagar. Homem e cão se espreitavam. Genuíno fechou-se na casa. Godofredo lá fora, rosnando. Genuíno colocou alguma pitadas de sal na mão e lambeu-as vorazmente. Depois bebeu muita água e dormiu.

O homem, da janela, analisa o cão, que analisa o homem. As horas passam. A fome perfura a carne e arranha a lucidez. Genuíno pega a faca, abre a porta e avança contra Godofredo. Os dois, homem e bicho, engalfinhados, rolam pelo chão e deslizavam até as águas profundas lá embaixo. Desaparecem.

O silêncio só é quebrado pelos dois papagaios, Bastião e Chico, que pousam na soleira da porta com um ramo de frutinhas no bico.





Postado por Jaime Ambrósio às 10:13 | Marcadores: Dilúvio   Bode     

Quinta-feira, 17.03.2011 O mão-de-vaca

O cara, decididamente, era único - a personificação perfeita do mito de levar vantagem em tudo. Certo, Gerson? Mas o sujeito atendia pelo nome de Adroaldo e o único cruzamento que sabia fazer era aquele da sinaleira, para atravessar a rua e chegar, inteiro, até o Bar do Valdir. Mão-de-vaca de carteirinha era era dono de várias pérolas do anedotário popular ali do bairro.
- Vamos ver o Figueira hoje no Scarpelli, Adro?
- Só vejo no meu radinho de pilha, que não cobra ingresso.
No boteco era assim: pedia uma pinga misturada com amargo e bebia em goles de papagaio, apenas molhando os beiços. Depois de quase uma hora pedia uma cerveja, de latinha. Gelada, heim, Valdir. E lá ficava, dando um gole, reclamando dos políticos.

- A cerveja vai esquentar, Adroaldo!
- Melhor, assim dura mais.
Gostava de comprar frutas e legumes no Cestão Popular, que tinha preço único e uma grande variedade. Mas gostava, sobretudo, porque conseguia comer bananas, goiabas e tangerinas sem pagar. Enquanto todos procuravam os melhopres produtos no menor tempo possível, Adroaldo, muito calmamente, ia colocando uma fruta na sacola plástica e outra no estômago. Ninguém reparava, nem os funcionários, que tinham mais o que fazer. Por fim ia pra casa com um quilinho de coisas na sacola e uma pança abarrotada.
- Tô colaborando pra diminuir o desperdício depois.
- Mas como deu pra perceber, tinha uma coisa que ele não economizava, o papo. Eta cabra que gostava de jogar conversa fora! Tinha resposta pra tudo e mais um pouco.
- Tua sorte, Adroaldo, é que o governo não cobra imposto de quem fala pelos cotovelos.
- Por enquanto, por enquanto. O negócio é aproveitar bastante agora.

-






Postado por Jaime Ambrósio às 10:20 | Marcadores: Scarpelli   Gerson     

Segunda-feira, 21.03.2011 Floripa 285

1
A menina: Pensei que Florianópolis viesse de Flor...
O menino: Não,vem de Floriano, aquele Peixoto.
A menina: Prefiro a mentirinha da flor.
2
Que grande cenário a Lagoa! As tintas do pintor anônimo escondem a poluição das águas, mas reproduzem a grande ousadia criativa da natureza.
3
As rendeiras do entardecer não fazem rendas, tecem a vida.
4
Um barco singra o mar, o mar sangra no pôr-do-sol, depois tudo vai virando mistério, um quadro mágico: a Ilha se desnudando em noite.
5
Claudinha queria ir pra Mole, por causa do Evandro, um colega do cuso de inglês; Júnior preferia a Joaca, porque os amigos surfistas estavam lá; Naldinho, o caçula, bateu os pés, dizendo que em Jurerê o mar era baixinho; Clarisse, a mãe, sugeriu a Brava, já que a sobrinha Leandra queria conseguir um autógrafo do Guga. Vai que ele esteja lá? O cão chamado Urso latiu, mas a opinião dele não contava, e lugar de cachorro não é na areia.
Estava formada uma grande balbúrdia enquanto o sol, tímido de ter recém nascido, aguardava.
- Chega! – disse o chefe da prole - A gente vai pra Armação do Pântano do Sul (Por causa do peixe frito da hora e de uma cachaça da boa que tem por lá)
6
A grande ponte suspensa, obra estagnada em promessas e projetos, tornou-se um elo de história, mas deixou de ser uma passagem lírica daqui pra lá, de lá pra cá. A ponte Hercílio Luz é um poema de ferro e solidão, que espera, pacientemente...
7
No Mercado Público tem tainha e camarão, samba, pescadinha, arraia e berbigão, sandália de couro, casquinha de siri, vendedor de Federal, bacalhau, caldo de cana, banana, bacanas e manes, bonés, moça bonita, peixe chamado bonito e salmão, seu João, Chico, Alvim e Nelsinho, filezinho de espada, carne seca picada, ostras e outras, lula, foto do Fernando Henrique, ic!, festas, arestas, Orestes, evidentemente, chope aqui e ali, Lili e Marli, coxinhas e coxonas, mexilhões, pingas e gringas, políticos e solícitos, desocupados, amados ou não, ala norte, outras alas. O Mercado é público, único, democrático.
8
A figueira da praça XV é uma floresta de segredos. O tronco monumental, com seus braços retorcidos, amparados por escoras metálicas, ainda suporta as folhas e os musgos, também os mistérios. A figueira sabe de coisas que mais ninguém saberá. Ouviu e ouve promessas e juras de amor, declarações insólitas, pequenas confissões de políticos, armações, cantorias.
A grande árvore conhece a alma da cidade. E se diverte com o bêbado que não para de falar, com o pregador ensandecido, com as marchinhas de carnaval, com os blocos de sujos, os vagabundos, o pintor de telas rápidas, as mulheres que dão voltas pra conseguir marido, e os jogadores de dominó.
9
A catedral atrai fiéis e turistas, desempregados, desesperados, humildes e burgueses, penitentes, historiadores. A catedral metropolitana é um monumento de pedra e fé, de argamassa e silêncios, altares, contornos neoclássicos e linhas rococó. Oração e estética.
285
A menina: E por que chamam a cidade de Floripa?
O menino: é um apelido, apenas um nome menor, mais fácil de dizer.
A menina: Então vou chamar de flor, é menor ainda, e mais bonito.

O menino: Não, né, deixa assim mesmo, pra não dar confusão.





Postado por Jaime Ambrósio às 11:22 | Marcadores: Floripa   Praça Xv   Herciloio Luz  

Terça-feira, 22.03.2011 Floripa 285

1
A menina: Pensei que Florianópolis viesse de Flor...
O menino: Não,vem de Floriano, aquele Peixoto.
A menina: Prefiro a mentirinha da flor.
2
Que grande cenário a Lagoa! As tintas do pintor anônimo escondem a poluição das águas, mas reproduzem a grande ousadia criativa da natureza.
3
As rendeiras do entardecer não fazem rendas, tecem a vida.
4
Um barco singra o mar, o mar sangra no pôr-do-sol, depois tudo vai virando mistério, um quadro mágico: a Ilha se desnudando em noite.
5
Claudinha queria ir pra Mole, por causa do Evandro, um colega do cuso de inglês; Júnior preferia a Joaca, porque os amigos surfistas estavam lá; Naldinho, o caçula, bateu os pés, dizendo que em Jurerê o mar era baixinho; Clarisse, a mãe, sugeriu a Brava, já que a sobrinha Leandra queria conseguir um autógrafo do Guga. Vai que ele esteja lá? O cão chamado Urso latiu, mas a opinião dele não contava, e lugar de cachorro não é na areia.
Estava formada uma grande balbúrdia enquanto o sol, tímido de ter recém nascido, aguardava.
- Chega! – disse o chefe da prole - A gente vai pra Armação do Pântano do Sul (Por causa do peixe frito da hora e de uma cachaça da boa que tem por lá)
6
A grande ponte suspensa, obra estagnada em promessas e projetos, tornou-se um elo de história, mas deixou de ser uma passagem lírica daqui pra lá, de lá pra cá. A ponte Hercílio Luz é um poema de ferro e solidão, que espera, pacientemente...
7
No Mercado Público tem tainha e camarão, samba, pescadinha, arraia e berbigão, sandália de couro, casquinha de siri, vendedor de Federal, bacalhau, caldo de cana, banana, bacanas e manes, bonés, moça bonita, peixe chamado bonito e salmão, seu João, Chico, Alvim e Nelsinho, filezinho de espada, carne seca picada, ostras e outras, lula, foto do Fernando Henrique, ic!, festas, arestas, Orestes, evidentemente, chope aqui e ali, Lili e Marli, coxinhas e coxonas, mexilhões, pingas e gringas, políticos e solícitos, desocupados, amados ou não, ala norte, outras alas. O Mercado é público, único, democrático.
8
A figueira da praça XV é uma floresta de segredos. O tronco monumental, com seus braços retorcidos, amparados por escoras metálicas, ainda suporta as folhas e os musgos, também os mistérios. A figueira sabe de coisas que mais ninguém saberá. Ouviu e ouve promessas e juras de amor, declarações insólitas, pequenas confissões de políticos, armações, cantorias.
A grande árvore conhece a alma da cidade. E se diverte com o bêbado que não para de falar, com o pregador ensandecido, com as marchinhas de carnaval, com os blocos de sujos, os vagabundos, o pintor de telas rápidas, as mulheres que dão voltas pra conseguir marido, e os jogadores de dominó.
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A catedral atrai fiéis e turistas, desempregados, desesperados, humildes e burgueses, penitentes, historiadores. A catedral metropolitana é um monumento de pedra e fé, de argamassa e silêncios, altares, contornos neoclássicos e linhas rococó. Oração e estética.
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A menina: E por que chamam a cidade de Floripa?
O menino: É um apelido, apenas um nome menor, mais fácil de dizer.
A menina: Então vou chamar de flor, é menor ainda, e mais bonito.
O menino: Não, né, deixa assim mesmo, pra não dar confusão.





Postado por Jaime Ambrósio às 14:26 | Marcadores: Balbúrdia   Prole  

Sexta-feira, 25.03.2011 Bola fora

Arrumou-se rapidamente, colocou o calção, a camisa do Flamengo e o tênis de sempre. Não é muito cedo?, perguntou a mulher, um tanto desconfiada. O atleta apressado respondeu que não, e saiu para mais uma partida de futebol suíço, coisa que fazia duas vezes por semana com o insuspeitado objetivo de perder a barriga, que teimava em ficar. Naquela noite o Armando, técnico, amigo e dono da bola, que colocasse um substituto, porque o jogo do Liminha era outro, no vasto corpo da Renata, uma colega de trabalho dedicada e que sabia atacar muito bem.

Duas horas e meia na casa da moca. Haja preparo físico! Saiu deveras exausto, exatamente como quem sai de uma partida que teve prorrogação e disputa nos pênaltis. Então percebeu que havia chovido, e se havia chovido o campo estava molhado. Assim, deduziu Liminha, a indumentária futebolística precisaria estar a caráter, ou seja, suja de lama. Não poderia chegar em casa sem nenhuma marca da intempérie. Por isso parou o carro ao lado de um terreno baldio, não muito longe do apartamento onde morava.. Ainda bem que ninguém percebeu aquele sujeito, àquela hora, pular o pequeno muro, sentar e rolar no capim como doido varrido. Pronto, estava devidamente emporcalhado, a Cleusa não iria suspeitar de nada, não iria fazer nenhuma pergunta.

- Posso saber onde é que o senhor conseguiu sujar a roupa desse jeito?
- Ué!, não viu a chuva? Quando a chuva cai a terra fica molhada, tudo fica molhado. Entendeu ou quer que eu desenhe, amor? (Fazia gracinhas para garantir uma certa naturalidade.)
- Entendi, entendi e vi a chuva, seu traste, mentiroso e, se não me engano, safado. Também atendi uma ligação do Armando, dizendo que o jogo tinha sido cancelado por causa dessa mesma chuva. Quem sabe o Ronaldinho aqui tem algo a dizer sobre isso, heim?! Vamos lá?

Liminha da Silva engoliu um grande seco antes de se posicionar na defesa, que no ataque não dava. Por sorte tinha um raciocínio rápido, respostas sempre na ponta da língua.
- Mas eu, eu não disse que joguei bola, disse?
- É? Então explica melhor, “benzinho”.
- Acontece que o pneu furou na estrada. Você sabe como isso é chato. Ninguém ajuda, o estepe é difícil de ser retirado, as chaves nunca estão onde deveriam estar. Fiquei um tempão debaixo da chuva.
- Sei, sei. Que pena! Não tô vendo é aquela sujeira preta de quem troca pneu, mas tudo bem, a chuva lavou, né? Amanhã cedo dou uma olhadinha no pneu furado.

O tal jogador , para interromper o interminável interrogatório da mulher, foi rapidamente tomar banho, que era a melhor maneira, naquele momento, de esconder a enorme cara de pau. Ainda teria que preparar muitas respostas, porque a Cleusa não era de entregar o jogo assim, no primeiro tempo.





Postado por Jaime Ambrósio às 17:19 | Marcadores: Indumentária   Futebol Suiço  

Domingo, 27.03.2011 Bola fora


Arrumou-se rapidamente, colocou o calção, a camisa do Flamengo e o tênis de sempre. Não é muito cedo?, perguntou a mulher, um tanto desconfiada. O atleta apressado respondeu que não, e saiu para mais uma partida de futebol suíço, coisa que fazia duas vezes por semana com o insuspeitado objetivo de perder a barriga, que teimava em ficar. Naquela noite o Armando, técnico, amigo e dono da bola, que colocasse um substituto, porque o jogo do Liminha era outro, no vasto campo da Renata, uma colega de trabalho dedicada e que sabia atacar muito bem.

Duas horas na casa da moca. Saiu de lá como quem sai de uma partida que teve prorrogação e disputa nos pênaltis. Então percebeu que havia chovido, e se havia chovido o campo estava molhado. Assim, deduziu Liminha, a indumentária futebolística precisaria estar a caráter, ou seja, suja de lama. Não poderia chegar em casa sem nenhuma marca da intempérie. Por isso parou o carro ao lado de um terreno baldio, não muito longe do apartamento onde morava.. Ainda bem que ninguém percebeu aquele sujeito, àquela hora, pular o pequeno muro, sentar e rolar no capim como doido varrido. Pronto, estava devidamente emporcalhado, a Cleusa não iria suspeitar de nada, não iria fazer nenhuma pergunta.

- Posso saber onde é que o senhor conseguiu sujar a roupa desse jeito?
- Ué!, não viu a chuva? Quando a chuva cai a terra fica molhada, tudo fica molhado. Entendeu ou quer que eu desenhe, amor? (Fazia gracinhas para garantir uma certa naturalidade.)
- Entendi, entendi e vi a chuva, seu traste, mentiroso e, se não me engano, safado. Também atendi uma ligação do Armando, dizendo que o jogo tinha sido cancelado por causa dessa mesma chuva. Quem sabe o Ronaldinho aqui tem algo a dizer sobre isso, heim?! Vamos lá?

Liminha da Silva engoliu um grande seco antes de se posicionar na defesa, que no ataque não dava. Por sorte tinha um raciocínio rápido, respostas sempre na ponta da língua.
- Mas eu, eu não disse que joguei bola, disse?
- É? Então explica melhor, “benzinho”.
- Acontece que o pneu furou na estrada. Você sabe como isso é chato. Ninguém ajuda, o estepe é difícil de ser retirado, as chaves nunca estão onde deveriam estar. Fiquei um tempão debaixo da chuva.
- Sei, sei. Que pena! Não tô vendo é aquela sujeira preta de quem troca pneu, mas tudo bem, a chuva lavou, né? Amanhã cedo dou uma olhadinha no pneu furado.

O tal jogador, para interromper o interminável interrogatório da mulher, foi rapidamente tomar banho, que era a melhor maneira, naquele momento, de esconder a enorme cara de pau. Ainda teria que preparar muitas respostas, porque a Cleusa não era de entregar o jogo assim, no primeiro tempo





Postado por Jaime Ambrósio às 08:58 | Marcadores: Futebol Suiço     

Terça-feira, 05.04.2011 Farra de quem?


Altino, quem diria, não era extamente o mesmo Altino. Agora estudava e trabalhava seriamente, compenetradamente. Mas estava valendo a pena, fez uma reciclagem nos conceitos e deixou de lado certas farras inconseqüentes, inclusive a do boi. Na última vez que alguém o convidou houve um entrevero que dividiu as águas, e olha que foi com o Dejanir, um amigo da infância, que não volta mais (a infância, pois o amigo pode ser que ainda volte um dia).

- Altino, a gente reuniu um grupo de sócios. Vamos brincar com o boi?
- Só se a tua irmã for também.
- Epa! Deixa a Catina fora disso.
- Então deixa o Altino aqui fora também.
- Mas você sempre gostou. Olha, o boi já tá na carroceria da caminhonete. Só falta você.
- E eu lá sou boi?
- Não quis dizer isso. O pessoal tá esperando, tem muita cachaça da boa.
- Agora só bebo vinho, que faz menos mal à saúde.
- De farra com mulher você ainda gosta?
- Pergunta pra Catina.
- Epa!

Dejanir ameaçou erguer o braço bombado, mas recuou, em nome da antiga amizade.

- Qual é o problema em participar de uma farra?
- É? Então se coloca no lugar do boi.
- Perai, o animal tá condenado mesmo, vai virar churrasco de qualquer maneira. Você não gosta de uma picanha no ponto?
- Mas não de boi vivo. E quer saber, tô pensando em virar vegetariano.
- Ihhh!...
- Qual é a graça de ficar açoitando um boi, rindo dele, que fica lá, acuado, sem conseguir se defender? Qual é a graça de humilhar um bicho desesperado, espumando de raiva?
- O problema é sério, então?
- Que problema?
- o teu.
- Não deu outra. A farra que se viu foi a de Altino e Dejanir.
- Animal vestido!
- É? Experimenta essa patada, istepor.
- Os “sócios do boi”, que aguardavam na caminhonete, correram para separar a briga. Altino foi o mais prejudicado, levou uma direita no supercílio esquerdo. Nisso alguém gritou, observando que o boi havia se aproveitado do vacilo para fugir. Por sorte, do animal, uma viatura da PM chegava naquele momento. O boi foi recolhido e o farristas sumiram, foram dividir o prejuízo (fazer o quê?) e beber o resto da cachaça.

Catina, toda condoída e tal, cuidava muito bem dos ferimentos de Altino...





Postado por Jaime Ambrósio às 21:59 | Marcadores: Farra   Sócios Do Boi     

Segunda-feira, 11.04.2011 A risada de Tati


Não se contentando em ser bonita e ter um sorriso pra lá de Colgate, Tati (a intenção foi a rima) decidiu também ter a risada mais popular da rua, da casa, do bairro, do trabalho...
Como alguém pode ter uma risada tão assim?, forte, longa, mas sem parecer um escândalo? Pelo contrário, é riso de alegria pura, que mexe com as almas em redor, que contagia... Rir naturalmente, que é riso sincero, que não mente. Rir para o mundo, para a vida, para as gentes; não rir de gentes, dos outros, como tantos outros, aqui e ali, que cospem pregos estridentes, pra ferir os egos ou difamar.
Talvez o RH da empresa devesse dar um adicional de riso para a Tati. Imaginem no contra-cheque: adicional de riso. Mas não, isso é um dom, algo que veio da natureza. Não tem preço.
Tati é assim: você avisa que vai contar uma piada, e ela já está com a gargalhada pronta, na ponta da língua. No ônibus, quando ri, destrói todas as conversas, que recomeçam depois, mais animadas. E se empacotasse e vendesse esse produto, a risada? Ficaria milionária. Mas não se vende risada, espalha-se apenas pelo ar...

Fizeram uma pesquisa sobre a importância do riso. Na revista “Vida Simples” foi publicado esse texto:

“Para a antropóloga Miriam Goldenberg, que lidera a pesquisa, as pessoas que riem bastante tornam-se mais atrativas, porque demonstram capacidade de brincar com os problemas, rir de si mesmas e não se importar tanto com o que os outros pensam.Dar uma boa gargalhada é algo sério . Ri melhor quem ri com o outro, quem compartilha a sensação de estar descontraído e de bem com a vida; porque isso indica intimidade e ajuda a manter e a fortalecer as relações. Então, da próxima vez que alguém começar a gargalhar numa reunião de trabalho, por exemplo, não esquente. O ambiente vai ficar mais leve: afinal, rir não tem contra-indicação.”

Ria, Tati, sem moderação. O Ministério da Saúde recomenda.





Postado por Jaime Ambrósio às 15:39 | Marcadores: Miriam Goldenberg   Rh  

Quinta-feira, 14.04.2011 A vida, que continua

Um grupo de percussão toca no Largo da Alfândega. Em volta algumas pessoas acompanham o ritmo com palmas cadenciadas; outras só observam. Salvador é aqui, numa sexta-feira com o dia pela metade, meia-hora, se muito. Os pombos de sempre comem milho jogado pelo velhinho de sempre, que se deleita com o espetáculo das aves. Não quer a música dos tambores, o velho; quer a beleza das asas ruflando, uma sinfonia de liberdade e paz.

Um homem, que é negro e magro, está estirado no chão ali perto, bem perto. Alguns pombos ainda famintos o cercam, ninguém mais o cerca. Está dormindo o homem, anestesiado pela cachaça, ou está morto. Quem sabe? Quase não tem lembranças, mal sabe quem é. Talvez esteja sonhando, porque, a despeito de tudo, sobram-lhe os sonhos, secretos e ligeiros, límpidos ou nebulosos. O cão, que é comprido e o conhece de outros rumos, lambe-lhe os pés descalços e aninha-se ao lado. Já compartilharam pão e desdém juntos, noites frias em cobertores de jornais. Agora, ali, são dois bichos alheios ao mundo, às pessoas e aos ruídos do universo. Uma chuva fina e sorrateira cai sobre seus corpos, mas nada muda.


O pequeno espetáculo do grupo de percussão termina. As pessoas vão para o trabalho ou para casa ou para nada. A vida continua.

O homem estirado no chão desperta com o barulho do silêncio. Levanta e sai saracoteando pelas ruas, dançando uma batucada que ficou retumbando dentro da alma. O cão o segue na confusão dos passos.





Postado por Jaime Ambrósio às 22:19 | Marcadores: Percussão   Sinfonia  

Domingo, 17.04.2011 Bingo!


Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar o acontecimento. Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais alegre, passou uma colônia nova e raspou o bigode ralo que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer o frango assado?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:33 | Marcadores: Bingo   Profano  

Quarta-feira, 20.04.2011 Os energúmenos do trânsito

Quantos energúmenos o trânsito comporta? Mais do que sonha a nossa vã sabedoria... Eles estão por aí, infiltrados nos cruzamentos, em frente às danceterias e bares, nos estacionamentos... e nas rodovias. Alguns jazem nos cemitérios, mas esses só incomodam os defuntos que gostam de assobiar melodias de Mozart e Haendel. Os demais incomodam, incomodam muita gente aqui. Claro que não são todos iguais, a diferença está no grau da idiotice. Os menos nocivos, que ficam no nível dos chatos insuportáveis, são aqueles que, por falta de autoconfiança e sensibilidade (acústico-cultural), equipam o carro com os mais potentes equipamentos e desfilam pelas ruas com o som no último volume, no último limite dos tímpanos. Dane-se o silêncio dos comuns! Mas o que eles gostam mesmo é de estacionar em algum ponto movimentado, onde haja garotas fúteis e descerebradas. Sentem-se os maiorais da Terra. Nesta laia juntam-se também os que adoram acelerar e ao mesmo tempo pressionar a embreagem, cantando pneu, rodopiando, soltando o inconfundível monóxido para todos os lados. Asfixiam o ar e riem à vontade. De que rides, ó néscios?, diria um perplexo Shakespeare.

Tem aqueles que ao beber demais acham-se demais, correm demais. Não há reflexo nem nexo. Por fim a falta de sorte, que rima com corte, que rima com morte. Ou morrem, ou matam, mas de qualquer maneira viram estatística e engordam as páginas policiais. Fica o sangue no asfalto a desenhar perguntas; fica o pranto, convulsivo, a procurar respostas.

E o que falar dos energúmenos que, depois das baladas transcendentais de sábado à noite, reúnem-se num grupo fiel e aventureiro para os festivos rachas? Sabem exatamente aonde ir, e vão, mostrando arrojo, desenvoltura e sagacidade, tudo conseguido através de pequenas ajudas químicas. Querem impressionaras namoradas, que os assistem na margem da rodovia, espevitadas, gritando euforicamente como loucas indomáveis. É o apogeu da adrenalina. Eles lá, em duplas (não seriam parelhas?), perfilados, roncando os motores, até que alguém dá o sinal. Lá vão os intrépidos jovens em suas máquinas voadoras, desafiando o tempo e o vento. A odisséia no asfalto dura poucos segundos, mas a sensação que fica dura bem mais, traz um gozo prolongado ao ginete urbano, possuído pelo êxtase da aventura criminosa. Dificilmente há empate, então o vencedor nem sai do carro, aguarda o próximo “adversário” para mais um pega. São donos do destino, acham que nada de errado lhes acontecerá, ou pouco ligam pra isso. Mas às margens da estrada agrupam-se pequenas casas, barracos com operários que tiveram o sono interrompido por causa do barulho infernal. Alguns espiam pelas janelas e soltam palavrões; outros deixam pra lá, tentam dormir assim mesmo, é apenas ,mais um perigo na vida, a exemplo de tantos outros. Os energúmenos dentro dos carros, potenciais assassinos, sabem que suas mães estão em casa, seguras; as vítimas serão as mães dos outros.

Deus nos salve dos energúmenos do trânsito!... ou a polícia.

*********************

Matéria de site: “Acidentes no Transito”

No Brasil mais de 40.000 pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de transito, porém acredita-se que estes números são maiores pois as estatísticas são falhas. Só nas rodovias paulistas em 2001 ocorreram 61.000 acidentes com 2.300 mortes e 23.000 pessoas gravemente feridas. Até 15 de fevereiro já morreram 703 pessoas nas rodovias federais, resultado de 13.400 acidentes. Em todo o mundo o trânsito ceifa vidas, porém os números brasileiros são alarmantes e disparam na frente de qualquer país do mundo.

CAUSAS MAIS COMUNS DE ACIDENTES DE TRANSITO

Erro humano, em todo o mundo, é responsável por mais de 90 % dos acidentes registrados. Principais imprudências determinantes de acidentes fatais no Brasil: por ordem de incidência:

* Velocidade excessiva;
* Dirigir sob efeito de álcool;
* Distancia insuficiente em relação ao veiculo dianteiro;
* Desrespeito à sinalização;
* Dirigir sob efeito de drogas.

Fatores determinantes das imprudências:

* Impunidade / legislação deficiente;
* Fiscalização corrupta e sem caráter educativo;
* Baixo nível cultural e social;
* Baixa valorização da vida;
* Ausência de espírito comunitário e exacerbação do caráter individualista;
* Uso do veículo como demonstração de poder e virilidade





Postado por Jaime Ambrósio às 10:41 | Marcadores: Energúmenos   Monóxido   Mozart  

Quarta-feira, 27.04.2011 Essa tal felicidade mané

Felício, professor de geografia aposentado, e cujo nome conspirava a seu favor, tinha sempre uma resposta (ou observação “filosófica”) à altura de qualquer pergunta (ou afirmação prepotente) de alguém. Dia desses um vizinho cosmopolita e falastrão, que havia retornado de uma viagem de 15 dias à Europa, pôs-se a discorrer sobre a maravilha que é visitar o Velho Continente. Que lá sim é civilização, os teatros, os restaurantes, os vinhos finos, a arquitetura, a tecnologia; que um país é pertinho do outro, algumas quadras, é só pegar um trem e pronto: Itália, França, Inglaterra, Portugal, Alemanha. Felício só ouvindo, preparando a réplica.
- Não seja por isso, vizinho, aqui, saindo da “Ilha de Todos”, cheia de recantos e encantos, (tirando-se os espantos), atravessando a ponte, a gente encontra um mundo parecido com aquele, tudo pertinho. E tem vinho colonial, pousadas rústicas, hotéis modernos, construções em estilos variados, praias e morros, danças nos palcos e nas ruas, muito chope, culturas diferentes. É só pegar o carro e pronto: São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, e suas águas, São Pedro, Alfredo Wagner, Rancho Queimado, Nova Trento. Se quiser prosseguir tem muito mais opções, e nem é preciso gastar tanta gasolina, que agora tá pela hora da morte.
Quando Felício se referiu às águas da região de Santo Amaro, ele quis dizer mais, pois levou em conta não só os benefícios das termas (para o corpo) mas, veladamente, também os da cachaça produzida à cântaros por lá (para os espíritos inquietos). Moderadamente, concluiu ele ao arrumar o discurso.
- São coisas diferentes, Europa e aqui, Felício.
- Diferentes, mas parecidas. Veja você alguns nomes pátrios: Nova TRENTO, Nova VENEZA, Ingleses, Santo Antônio de LISBOA, Treze Tílias (O Tirol brasileiro), Oktober...
- Oktober não é é um lugar, é uma festa.
- Alemã. E tem outra: as belezas daqui são incomparáveis.
- Então resolveram comparar. O vizinho propôs que a cada “coisa européia” que ele, o vizinho, citasse, Felício fizesse uma comparação com algo daqui. Eram duas velhas crianças brincando de palavras.
- Torre Eiffel.
- Farol de Santa Marta.
- Mônaco.
- Lagoa da Conceição
- Barcelona.
- Agora com o Neymar ficou complicado
- Falei da cidade.
- Passa essa...
- Os Alpes suíços.
- Urupema e Urubici abaixo de zero.
- As touradas de Madrid.
- A farra do boi de Governador. Mas é proibida, eu sou contra...
- Bacalhau à Gomes de Sá com vinho do Porto.
- Tainha recheada à Zé do Ribeirão com cachaça de lá mesmo.
A despeito das agruras do dia a dia e das coisas lá de Brasília, Felício era um nativo feliz, por algumas razões: morava a poucos metros do mar; tinha amigos e alguns devotos das coisas boas; não era rico, mas o que tinha usava para o bem-viver; o canário da gaiola cantava mais que o curió do vizinho; o time do coração ia bem na foto, embora a defesa fosse um problema cardíaco; as águas estavam sempre para peixe e Felício adorava pescar. Mas era a natureza “alumiada” da Ilha o que mais lhe trazia satisfação de guri pequeno. Mesmo com o desvario imobiliário, mesmo com a volúpia devastadora dos construtores (não há, ainda, loteamentos no mar, nem chalés pendurados nas estrelas), a poesia das formas naturais persiste.
Gostava de levantar com o sol. Se o céu estivesse nublado, quem lhe acordava era o canarinho de peito amarelo, relógio pontual que executava uma alegre sinfonia de trinados. Então Felício abandonava a casa e por algumas horas ia morar no mundo aberto, feito de terra, areia, mar e mato.
E por conta de tanta beleza que não dava pra contar, a Ilha se enchia cada vez mais de turistas deslumbrados. Vinham daqui e dali, de vários pontos do mundo, até de lá, de onde os países são geminados, como as casas de Santo Antônio de Lisboa, lembranças dos Açores. Nem essa “invasão” diminuía o folguedo na alma Mané de Felício.
- Visse, vizinho? A Europa veio ater a gente, ó-lhó-lhó!





Postado por Jaime Ambrósio às 19:02 | Marcadores: Alumiada   Oktober  

Sexta-feira, 20.05.2011 AS PERIPÉCIAS DA MÃO DESGOVERNADA

Agostinho descobriu, depois de alguns micos, que sua mão direita tinha vida própria. A certeza veio na festa de dez anos da empresa. De repente aquela “extremidade, articulada com o antebraço pelo punho e terminada pelos dedos” (Dicionário Houaiss), começou a “conduzi-lo” para certas direções em meio a um formigueiro de gente quase-bêbada. Todo mundo de pé, curtindo o pagode da rapaziada, ao vivo; todos se divertindo de um jeito ou de outro. Ele lá no meio, ultrapassando um aqui, atropelando outro mais à frente, esbarrando em meio mundo. Até que, finalmente, chegou onde “Ela” queria. Mas Perai!...
A tal extremidade articulada havia parado simplesmente no grupinho da diretoria. Então Ela sossegou por alguns segundos, restabeleceu-se e indicou o alvo, um belo e agitado par de glúteos. Mas não era um bumbum qualquer; era o indiscutível bumbum da mulher do chefe. Agostinho não teve outra saída a não ser segurar, com a mão esquerda, o ímpeto d’Ela, a mão direita. Mas quem disse?! Era uma força descomunal, irrefreável, algo suicida, próprio de quem não tinha nada a perder. E não foi apenas uma passada de mão, foi uma mãozada de troglodita, uma insistente checagem in loco pra não deixar nenhuma dúvida.
- Agenor???!!!
O espanto dela foi porque o marido nunca havia feito algo assim, com tamanho furor, nem em casa, muito menos em público. Só então percebeu que o Agenor estava um pouco afastado, livre e solto. E a tal mão continuava grudada. A cena que alguns viram (inclusive o Agenor) foi esta: Agostinho, o rapaz da Informática, com a mão direita inspecionando o traseiro de Clarisse ( mulher do temido diretor de vendas), e com a esquerda segurando o pulso direito, tentando fazer parar aquilo. Com muito esforço o pobre rapaz encrencado conseguiu dominá-La.
- Não fui eu, juro! (e com o indicador da mão esquerda apontava para Ela, que, cinicamente, fazia gestos de que não tinha nada a ver com aquilo).
Agenor, na obrigação de fazer alguma coisa, tentou agarrar o funcionário tarado pelo colarinho, mas a insurgente mão de Agostinho o impediu com um empurrão que derrubou outras três pessoas. Os seguranças vieram, sem muita conversa, e arrastaram a mão quase-assassina para fora, trazendo junto o seu dono.
Sorte Agostinho não ter ido parar na delegacia. Mas pegou, claro, uma justa causa sem acordo para retirar o FGTS. E agora, Agostinho? Não iria querer ser jogador de basquete (um novo Mão Santa?), nem assaltante de banco à mão armada (por causa da concorrência excessiva), muito menos político que passa a mão no dinheiro público. Era um cara do bem, embora fosse escravo da mão direita.
Em casa deixou-A amarrada na cabeceira da cama durante uma noite inteira, só a liberando na hora do aperto para irem ao banheiro. Como resposta Ela se negava a cooperar, deixando o encargo para a sua colega da esquerda.
Depois de fazer acupuntura (recomendação de uma amiga) e umas sessões de análise com uma psicóloga de corpo, parece que Ela voltou ao normal. De qualquer maneira Agostinho passou a andar com um par de algemas, deixando uma argola presa no cinto, outra aberta, para prender a mão boba, caso Ela “pensasse” em alguma atitude inconveniente





Postado por Jaime Ambrósio às 15:26 | Marcadores: Fgts   Mão Santa     

Sábado, 28.05.2011 Papo doideira (autorizado pelo MEC)


O forasteiro (embora não seja esta uma crônica de bang-bang) bate à porta numa antiga casa de madeira, mas ninguém atende. Então vai conversar com o homem que está sentado na espreguiçadeira, no outro lado da rua. Péssima ideia. Walfredo, o nativo, era daqueles que complicavam qualquer diálogo, se não por ingenuidade, então por sarcasmo ou falta de parafusos na cachola. Talvez uma mistura de tudo.
- Boa tarde!
- Tarde! Mas vai chovê.
- O senhor Armando, ele não está?
- Se foi.
- Viajou?
- Se foi pro sumitério.
- Cemitério, o senhor quis dizer?
- Não, sumitério mesmo, lá onde ocê vai sumí.
- Ah, sei. E o senhor Armando foi rezar pra alguém da família dele?
- Sim, pra ele mesmo. O home já esticô as canela, tá mortinho de souza.
- Da Silva.
- Não, o nome dele é Armando de Souza. Silva sô eu, mas com muita preguiça de morrê.
- Ele tinha alguém, algum parente vivendo com ele?
- Sim, o Bilico.
- Um filho dele?
- Um cachorro de segundo grau, que se foi desta pra outra.
- Morreu também?
- Que nada! Se mandô pra longe o guaipeca.
- Interessante...
- Mas diga lá, home, qual é a intenção da visita?
- Uma dívida antiga... dinheiro.
- Pode dexá aqui comigo, sô praticamente da família.
- Não, não! O senhor Armando é quem me deve.
- Ié? ... Bem, na verdade eu mal conhecia ele. A gente poco se falava.
- Acho que vou ser obrigado a ficar com a casa e o terreno dele.
- Nem pense nisso! O Armando num vai gostá de jeito nenhum.
- Mas ele não morreu?
- De fato, mas a assombração dele tá sempre por aí...
- ???
- ... cuidando da casa, dando comida pro Francisco. Coisa dotro mundo!
- Ah, então tinha mais alguém com ele?
- O papagaio, mas é um papagaio lerdo, que só arrepete a mesma palavra quando chega alguém aqui pra cobrá dívida.
- E qual é essa palavra,companheiro?
- Morra! Morra!
- Pensando bem, o dinheiro não é lá grande coisa. Deus há de me recompensar. Tenha uma boa tarde.
- Tarde. Mas vai chovê.
Antes da chuva, a cachaça. Walfredo assobia pro compadre Armando, que logo parece, vindo lá do fundo do quintal. E os dois vão pro buteco, rindo à toa como se fossem deputados federais...





Postado por Jaime Ambrósio às 20:37 | Marcadores: Guaipeca   Forasteiro  

Sábado, 04.06.2011 Os bombons recheados da velhinha da esquina

A vida no bairro é quase tranquila, tem gente trabalhando e crianças correndo, aposentados jogando dominó na pracinha, cachorros pocurando restos de comida e uma mão de afago, passarinhos cantndo em galhos e outros em gaiolas (mas são cantares diferentes, não são?) Na calçada da esquina, depois das cinco da tarde, tem a valhinha vendendo bombons recheados. Posagora?!
A vida só não de todo tranquila porque, de vez em quando, surge algum entrevero entre polícia e bandido, como lá em Nova Iorque. Tirante isso e algum temporal temporão, então dá pra dizer, sim, que a vida por ali é calma. Na esquina a velhinha que vende bombons sorri com seus dentes que já se foram.
No bar do Valdir os homens tomam cachaça e cerveja, falam de política como quem xinga a mãe dos outros, falam de futebol e da mulher do próximo, desde que o marido dela, claro, não esteja próximo. Na esquina, a cada pouquinho, alguém compra uns docinhos da velhinha banguela. Mais tarde, já quase escurecendo, o movimento é maior. Eita povo pra gostar de bombom! Mas são doces caseiros, enroladinhos, de várias cores...
Então, assim de repente, como num piscar de olhos, uma viatura da PM para bem próximo da velhinha, que se chama Aldina. Os homens da lei fazem umas perguntas, abrem alguns bombons e depois colocam tudo dentro da viatura, inclusive aquela inofensiva anciã.
- Vó Aldina traficante de drogas? Quem diria!!!
- Ó-lhó-lhó!
- Posagora?!
Só acreditei porque vicom esses olhos que eu tenho.
- Velhinha aligerada!
- Colocava a mercadoria dentro dos doce e enrolava em papel brioso azul.
- Os outros, de outras cores, eram pra disfarçá, pra vendê pros que gostam de doce mesmo.
- Já pensô se ela se enganasse?
- Diz que tinha senha, quem falasse a senha pagava o preço e levava a danada, que ficava escondida dentro da caixa.
- E que senha era sessa?
- Quindim de fogo. Quem disse foi o delegado.
- Quindim de fogo da vó Aldina, ó-lhó-lhó!
Dia seguinte a velhinha estava de volta, leve e solta, porque disse à polícia que não tinha nada a ver com aquilo, que apenas vendia os doces. Por conta também da tal delação premiada: confessou que recebia os bombons com papel azul do neto, o João Joãozinho, moleque ladino que ficava com quase toda a grana.
- O João Joãozinho? Modeugi!
- Sempre desconfiei daquele istepoôri malino......





Postado por Jaime Ambrósio às 19:39 | Marcadores: ó-lhó-lhó   Modeugi     

Quarta-feira, 08.06.2011 Amor e futebol

Juliana ama Nano, que ama Juliana, que era avaiana, assim, feito rima insistente. Agora Juliana torce pelo Figueira, igualzinho ao Nano. Porque antes estava complicada a relação dos dois, a ponto de o amor querer desmoronar, gol após gol. Quando a TV passava algum jogo do Furacão, Nano não dava bola nenhuma pra Juliana, porque a bola era lá no gramado, redonda, quadrada, incerta. Juliana ficava secando, secando, enquanto fingia fazer, mais uma vez, as vinte unhas mais. Por outro lado, quando a telinha mostrava alguma partida do Leão (que urra, urra, urra...) Juliana não ligava, obviamente, para as investidas dele (do Nano, claro), que ficava secando, secando, enquanto fingia ser o Rodrigo Santoro do Estreitcho.
E os jogos na capital? Nano no Scarpelli, livre e solto como os quero-queros lá no gramado; Juliana de ressaca na Ressacada, à mercê dos aviões que voam mais ao alto. E os clássicos? Cada um no seu canto, no seu espaço, cantando versos de amor ao próximo:
- “Aí, aí, aí...”
- “Eira, eira, eira!...”
Por tudo isso Juliana, numa decisão extremamente difícil e dolorosa, arbitrada pelo coração (e auxiliada pelo cérebro), virou a casaca, trocou as cores , o hino, os trajetos, etc. Antes isso do que a dor da separação, avaliou ela. Dico, grande amigo de Nano, e Figueirense roxo de tanto alvinegro, não deixou por menos:
- Viu?, o amor nem sempre é cego, às vezes enxerga muito bem.
Mas tem casos em que a torcedora prefere perder o namorado a trocar de time. Tem torcedor idem. E tem os que acreditam que a prevenção ainda é o melhor remédio. Por exemplo, o Carlinhos conheceu uma certa garota e tal. Dançaram, beijaram-se, ficaram-se. Pouco sabiam um do outro, o que importava era a atração que estavam sentindo, certo? Até que o rapaz resolveu fazer uma pergunta, uma perguntinha apenas, aparentemente ingênua, despretensiosa:
- Ei, gata, qual é o teu time do coração? O da Ilha ou o do Estreito?
- Sou Avaí, claaaaaro!
Carlinhos levantou-se (sim, estavam sentados) feito um tufão, um furacão enfurecido, um Catarina desenfreado. Saiu sem ao menos pagar a conta, que fiou por conta dela, que ficou por conta.
Amor e futebol têm dessas adversidades. Nada como a rotina de seu Alberto e dona Carmem, que torcem pelo mesmo time há muito tempo e por isso não travam nenhuma discussão durante as partidas: seu Alberto gosta de ir ao estádio; dona Carmem prefere ouvir o jogo em casa, no rádio que ganhou de aniversário. E se amam muito, como Juliana e Nano, que no dia dos namorados, de presente, vão trocar camisas, do Figueirense, claro.

Em tempo: A história de Juliana e Nano é baseada, quase por inteira, em fatos reais.






Postado por Jaime Ambrósio às 11:58 | Marcadores: Scarpelli   Ressacada  

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