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Sexta-feira, 30.09.2016 FAROL E OUTRAS CURTINHAS

PÁ E BOLA
- Mestre, o que veio primeiro, o político ou o corrupto?
- O político, que, na falta do que fazer, logo criou a corrupção.
- No Brasil?
- Não, em outro lugar, em outra época. Aqui ela apenas foi aperfeiçoada.
***
FAROL
- Pai, agora é obrigado dirigir com luz acesa de dia, né?
- Sim, é lei.
- E de noite, pai?
***
NO BAR
- A Clotilde, compadre, vive me chamando de bêbado. Eu não ligo, porque se eu disser a verdade pra ela, que sou apenas um apaixonado pela cerveja, ela me mata, porque é uma mulher danada de ciumenta.
- Se eu disser isso pra Eunice, sabe o que ela vai me responder? “Que bom! E não dá pra você sair de casa e ir morar no boteco?”
***
UMA VOLTANDO DA ACADEMIA, CANSADA; OUTRA INDO PRA PRAIA, ESNOBE
- Miga, eu li uma matéria dizendo que academia não ajuda emagrecer, não. O que emagrece, na verdade, é ficar com a boca “fechada”.
- Então faz isso, “miga”, cala a boca! E olha pra tua barriga!
***
POLITIQUICE
- Depois disso tudo, dessa turbulência maluca, você acha que o Brasil ainda tem jeito?
- Sim, claro: o jeito do Brasil. 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:35 | Marcadores: Boteco   Esnobe   Barriga  

Sexta-feira, 15.07.2016 Quitando dúvidas

Se no comércio em geral há programas para o cidadão inadimplente quitar suas dívidas, perdoando-lhe juros, parcelando os débitos, etc, também há quem tente fazer algo parecido, como o malandro que mudou a grafia de uma palavra-chave em proveito próprio.
O sujeito aproveitou um espaço frontal da casa onde morava, como se fosse mais uma igreja de esquina, e colocou uma grande faixa na entrada: “ÚLTIMOS DIAS PARA QUITAR DÚVIDAS”. Quitar dúvidas? Sim, dúvidas existenciais, dúvidas de qualquer natureza.
Sobre o amor.
- Zé Zen, o Zaroaldo me deixou por outra, quequeu faço da vida?
-Arrume outro, filha, que a vida não para. E deixa um incentivo ali na caixinha.
Sobre a crise.
- Se pago o mercado, falta pro boteco; se devolvo o que emprestei, não sobra nada. Que faço, Zé Zen?
- Paga um pouco pra cada um, e bebe menos, homem! Não esquece da gorjeta ali.
Sobre a locomoção.
- Queria comprar uma moto, mas pra isso teria que vender o fusca; mas o fusca é bom quando chove...
- Fica com o fusca, economize e compre uma bicicleta usada. E molha a mão do velho...
Até que chegou uma mulher que Zé Zen “demorou um pouco pra reconhecer”.
- Vim aqui quitar uma dívida.
- Um dúvida, a senhora quis dizer? Olha a faixa na entrada!!
- Não, é dívida mesmo, do aluguel que o senhor me deve há seis meses, e agora aqui, tranquilamente juntando uma grana pra se mandar! Olha lá fora a viatura da polícia, seu pilantra!
- E agora, quequeu faço? – ruminou o Zé Zen, em dúvida e na dívida. 





Postado por Jaime Ambrósio às 18:14 | Marcadores: Zaroaldo   Dívida   Locomoção  

Quinta-feira, 26.05.2016 Pedaladas, relação e politiquês

De tanto embate no Congresso, MPF e STF, o povo acabou conhecendo alguns termos nunca dantes navegados, palavras esquisitas que despertaram a atenção. Tanto que alguns até incorporaram os termos na conversação diária. É o caso de Vilma e Paulo, advogados que precisavam discutir a relação, já um pouco desgastada pelos vícios, quietudes e explosões.

- Vilma, vou sair, o grupo da base de apoio me espera pro futebol suíço. Volto mais tarde.

- Que decisão monocrática é essa, Paulo? Por acaso faltou quórum? Esqueceu que somos dois no plenário desta casa, na sala, na cozinha, no quarto?

- É, sem contar que às vezes tem a tua mãe, na sala, na cozinha, no telefone. Mas que regimento interno é esse, Vi? Não posso procrastinar o jogo de hoje só porque você quer discutir algum projeto pessoal casuístico. A pauta da noite é outra pra mim.

- Ah é? A gente não ia jantar fora hoje? Não era essa a ordem do dia, “presidente”?

- Ah, você quer que tudo acabe em pizza, isso? Esqueceu das tuas pedaladas sábado à tarde na Beira Mar, sem me comunicar?

- Meu Deus!, que crime de responsabilidade eu cometi? Fique sabendo que todo mundo pedala, não tem nada demais nisso. Preciso de um habeas corpus? Ou você quer que eu renuncie? Quer o meu impeachment? Fala! Eu desço a rampa da garagem e vou pra casa da mãe. Depois a gente discute a dotação orçamentária. Mas olha só: o recesso não vai te fazer bem!

- Também não é pra tanto, Vizinha.

- Vizinha?

- Não, não! É apenas o diminutivo de Vilma, de Vi, que já é diminutivo. É carinhoso. Escuta, vamos fazer uma composição, sem medida provisória, sem audiência pública ou lobby da sogra. Assim, olha: eu vou pro meu futebol suíço, você pode pedalar, mas de agasalho, por causa do vento...

- Paulo Eduardo, assim, olha...

Ou seja, iria longe a sessão. O autor da crônica encerra os trabalhos. 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:43 | Marcadores: Dotação Orçamentária   Vizinha   Pizza  

Terça-feira, 26.04.2016 As pitangas


O seu Everaldo, viúvo aposentado, roubava pitangas da dona Flores, que tinha a mesma situação social que ele. A pitangueira ficava no quintal, mas alguns galhos avançavam por sobre o muro, invadiam o céu da calçada. Seu Everaldo, finalzinho de tarde, passava por ali e se esticava todo para colher umas frutinhas. Às vezes era difícil, então ele apanhava as que caiam no chão mesmo. Dona Flores só observando da janela. Então um dia ele viu que ela o viu. Seu Everaldo sentiu uma grande cacofonia no estômago.
Decidiu que ia continuar passando por lá, na caminhada diária, mas sem pegar pitangas. Mesmo assim olhou para a pequena árvore, por força do hábito. Eis que, pendurado num galho, havia um saquinho plástico com uma dedicatória: “Para o Everaldo, com estima. Dona Flores”. Dentro várias pitangas vermelhas, suculentas, convidativas. Aliás, uma pitanga, dizem, vale por várias laranjas, em termos de vitamina C, e previne um monte de doenças, inclusive a osteoporose.
Concluindo: os dois agora moram juntos, juntaram seus desejos. E o quintal da casa se encheu de pequenas pitangueiras, que vão crescer, dar frutos...
Aliás, pitanga aguça o amor, como ficou provado. Uma simples pitanga bem intencionada, parece, vale por mil palavras açucaradas. 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:57 | Marcadores: Pitangueira   Suculentas   Cacofonia  

Segunda-feira, 28.03.2016 O vinho e a academia


Pois navegando na Internet, coisa que fazia de quando em quando, o pacato e sedentário Valdomiro se deparou com uma pesquisa pra cá de interessante. Dizia ela que uma taça de vinho tinto tem o mesmo efeito de uma hora de academia. Tudo por conta do tal Resveratrol, um elemento de boa índole, com poder antioxidante - entre outras coisas -, que habita a casca e a semente da uva. Valdomiro leu várias vezes a reportagem, pensou, pensou - e se decidiu...
Todo dia, finalzinho da tarde, lá ia o Valdomiro de agasalho e tênis... Pra quem perguntasse ele “confirmava”: estava fazendo...
ACADEMIA.
Ou seja, finalzinho da tarde, lá ia o Valdomiro... pro Bar do Valdir.
Naquele espaço consagrado aos levantadores de copos, onde ele sempre tomava uma cachacinha, agora bebia duas taças de vinho, o que corresponde, segundo a pesquisa, a duas horas de exercícios. Tá bom, né, Valdir 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:38 | Marcadores: Resveratrol   Reportagem   Sedentário  

Terça-feira, 22.12.2015 A tal gentileza no trânsito

No trânsito não há opções, há certeza, é preciso dirigir – o carro, os pensamentos, a vida. Embora nem sempre seja assim, muitas vezes os pensamentos é que nos direcionam, a vida é que nos determina. Mas não custa prestarmos atenção em uma coisa de cada vez, mesmo que seja preciso esforço para isso. Deixemos o resto pra depois, principalmente as dívidas e as dúvidas.
No trânsito há que se prestar atenção nas marchas, nos espelhos, na pista, nos carros próximos. Sim, há outras pessoas na via, todas com a mesma humanidade original. E por isso, exatamente por isso, precisamos ser gentis no trânsito, que em certas situações é um caos devidamente anunciado.
Que mal há em deixarmos alguém passar à nossa frente, em darmos a vez? São apenas segundos, e a vida é longa. Sim, tem os incautos, os imprudentes. Mas desses alguma justiça cuida, cedo ou tarde.
Gentileza, sim, gera o mesmo fruto, e pode evitar transtornos, dor no bolso, pode evitar algo trágico.
O trânsito é um grande teste, ele experimenta nossa paciência, nossa sabedoria, a capacidade de amar e perdoar, tudo em poucos metros de asfalto. Talvez a gentileza seja a maior prevenção contra a estupidez no trânsito! 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:53 | Marcadores: Paciência   Sabedoria   Estupidez  

Segunda-feira, 26.10.2015 A letra da cozinha

Tem muito adolescente que se perde por se achar, se achar demais. Sabe tudo, imagina tudo, quer tudo, mas pouco faz, a não ser ficar grudado no computador a maior parte do tempo livre. E conhece mil garotas, e fica com fulana, beltrana e Joana. Só que não, nem sempre é isso, puro papo. Mas os pais, muitos deles acreditam, e dão força: Eita, garoto!
Dona Claudete, viúva, decidiu intervir no mentirismo e no folguismo do filho.
- Aonde você pensa que vai, Carlinhos?
- Vou de plano B, a Bruninha, já que o plano A não deu certo, a Ana pegou um resfriado. Preciso de cinquentinha, mãe.
- Seguinte, não tenho condições de ter uma empregada, a vida não tá fácil, então, antes de mais nada, você vai encarar primeiro o plano C, cozinha. Lava toda aquela louça, porque eu caaaaansei de ser escrava de filho mandrião, folgado e que se acha. O buraco, agora, é mais embaixo, é o ralo da pia.
- Mãe, que violência é essa?
- Isso se quiser ganhar “trintinha” pra sair e voltar a meia noite. É a crise, garoto, reclama com a Dilma!
Ele na cozinha, pouca prática, muita preguiça. Pra piorar quebrou um copo e fez um talho na mão. Adeus balada.
Em compensação a Zuleica, filha da vizinha, veio lhe fazer companhia.
- Plano Z, filho? 





Postado por Jaime Ambrósio às 15:31 | Marcadores: Trintinha   Beltrana   Cozinha  

Segunda-feira, 19.10.2015 Estradas, vinhos e pinguelas

A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.
Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, quatro adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.
Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.

- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.
Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houvesse nenhuma interferência física de elementos modernos, tudo ao redor seria, de fato, uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.
Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso pergunta se somos da cidade.
Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.
Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.
- Cadê as vaquinhas, tio? 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:12 | Marcadores: Canelinha   Milharal   Polenta  

Segunda-feira, 28.09.2015 Feijoada


Ela é milenar, pode não ter surgido no Brasil, mas, com certeza, é pra lá de brasileira. Ocorre que, fazer uma boa feijoada hoje em dia custa caro, muito caro, tanto que o Zé Naldo foi obrigado a entregar a bicicleta como pagamento pelos ingredientes na Mercearia do Vandão. Mas fez o rango, era promessa caso o Avaí ganhasse do Internacional. A tal da carne seca, vixe!, custa os zóio da cara, reclamou o Zé. E a costelinha defumada? E o lombinho?
Mas dá pra fazer feijoada de um jeito mais em conta. Quem explica melhor é a dona Izaldina, que além de saber cozinhar gosta de fazer piada.
- Quando tu fax surraxco, ô mô quiridu, num joga os osso pros cachorro, guarda no congelador, com um pouco de carne, num tem? Guarda também o resto das linguiça. Beico usa só um pouco, que é pra dá o gosto. Pele de porco é barata, calabresa compra só umas duas e carne fresca de porco meio quilo já chega.
- E num vai nada defumado, Izaldina?
- De fumado não, ô istepor, que cigarro faz mal pra saúde, ihihihihi! Mas vai cachaça.
- Cachaça? No início ou no fim?
- Depende do cozinheiro: ele bébi a hora que quisé, mas não muitcho, que é pra não ficá abestado. Já pensô se colocá pé de galinha no lugar de pé de porco? Ihihihi!... 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:51 | Marcadores: Beico   Zóio   Lombinho  

Quarta-feira, 22.07.2015 Vaquinhas, vinhos e pinguelas


A Ilha é assim: tem praias agitadas, tribos de todos os tons, iates ao pôr-do-sol e
edifícios inteligentes – é moderna. Tem fazendas e sítios, caldo de peixe e chimarrão, estradas de chão batido, florestas e riachos – é rústica, um tanto sertaneja. Essa mistura de relevos, costumes e culturas divide também meu coração, invólucro de texturas urbanas, mas de formação cabocla. Então, quando ele aponta para esse norte saudoso, me embrenho por desconhecidas estradas rurais e vou, faço meu voo. E se quero distâncias maiores saio da Ilha, invado outras cercanias, encravo as unhas na solidão geográfica de campos e matas, sou um forasteiro de alma nativa.

Mas é bom compartilhar essas pequenas fugas da cidade. Então lá vamos nós, três adultos e uma criança sonolenta. Além do primeiro motivo – o verbo passear – temos também uma missão: encontrar o melhor vinho artesanal, orgânico, um substantivo tinto e seco.

Passamos por Tijucas, Canelinha, São João Batista e depois Major Gercino, onde homens, máquinas e caminhões trabalham para pavimentar uma estrada comprida que serpenteia pelo interior adentro. As rodas do progresso interrompem o silêncio das margens e dificultam um pouco a nossa viagem. Mas tudo é necessário, e logo aquele barulho de espantar pássaros fica para trás.


- Olha a vaquinha! – grita o menino acordado.

Olhamos, e são muitas, brancas, malhadas, decorativas. Mais adiante galinhas e leitões misturam-se com crianças no pátio de uma velha casa, parecendo, todos, bichinhos de estimação. Tudo passa, vai ficando para trás. Então surgem as pontes suspensas, uma, duas, várias. As mesmas pinguelas da minha infância lá longe; menos toscas, porém. Para muitos, ali, elas são a única ligação segura entre a estrada e as casas, que ficam na margem de um rio calmo, preguiçoso, mas um rio. Então concluímos: se não houver nenhuma interferência física de elementos modernos tudo ao redor é uma volta ao passado, uma espécie de déjà-vu agreste. As árvores são iguais, o rio, os pássaros, a estrada de terra batida, as cercas de arame farpado, os chapéus de palha, o milharal e a fonte. É como se estivéssemos observando a natureza com os olhos da criança que fomos.

Na localidade de Pinheiral, uma insinuação de vila, compramos algumas garrafas de vinho e apanhamos laranjas num pé que parecia uma árvore de natal. Um garotinho curioso perguntou se a gente era da cidade.

Depois viajamos mais 55 quilômetros por uma estrada estreita e sinuosa, cercada de muito mato e com um rio teimoso a nos perseguir pela margem direita. Chegamos, por fim, à Nova Trento, terra da Santa, terra de vinho, e de queijos, e de salames, e de um variado e insaciável comércio religioso. Comemos galinha caipira ensopada e polenta.

Voltamos, exaustos de natureza, novamente enfrentando a retidão do asfalto. Levávamos uma sensação de paz, algumas garrafas de um bom vinho e a certeza de que o mundo é vasto, mesmo sendo perto.

- Cadê a vaquinha, tio?

 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:18 | Marcadores: Agreste   Polenta   Pinheiral  

Segunda-feira, 06.07.2015 O dia que a Internet morreu

Foi assim, de repente, deixando o mundo a ver navios, mas também a ver outros portos e caminhos. No entanto, vamos esquecer Nova Iorque ou São Paulo para sermos universais na nossa aldeia, observando o caos na Rua das Gaivotas.
A menina bem menina Nanda, depois de algumas horas, desesperou-se, precisava combinar detalhes da festinha junina. Esqueceu que podia fazer isso por telefone, e saiu gritando pela rua.
- Socorro, alguém pode fazer alguma coisa? A Internet acabou!
Alexandre, que não era grande, mas tinha uma barriguinha proeminente, ficou num mato sem cachorro, porque os inimigos, umas raposas esquisitas, estavam prontas para dar o bote, no game.
Dona Isaura, sentada na varanda da casa, só ria assoprado e tossido – Ihihihihihih!!! Cof! Cof!
Marco, pra não pirar, ficou pensando em comida, e comendo o tempo todo.
Daniel dormiu longas horas, acordou e voltou a dormir longas horas.
Seu Tavares, que jogava com ele próprio no baralho virtual, ficou possesso, porque, depois de muito tempo, estava ganhando uma partida, de si mesmo.
Vítor perguntou ao pai se o mundo estava acabando.
Luisa, a mana que se metia em todas as conversas, disse O teu mundo, sim.
E a velhinha só rindo Ihihihihihihi!!!
Isaias da Rede. . . não, esse era de uma religião que proibia o uso do celular.
Mistral, que comprava de tudo pela Internet, achou muita sacanagem esse ato radical do terrorismo internacional. Justamente agora que descobrira um xampu da Eslováquia que custa mixaria?!
Mas, olha só, Fernanda, aquela menininha, descobriu que havia pássaros de verdade no Planeta, que havia tatuíras na praia, que havia conchas na areia ...
Alexandre visitou o zoo da cidade, viu bichos simpáticos, inclusive raposas.
Marco continuava com fome.
Daniel acordou de um pesadelo.
Seu Tavares jogou cartas na praça, conheceu outras pessoas e achou legal. Ah!, ganhou uma rodada de canastra!
Vítor descobriu que o (seu) mundo poderia estar começando .
Mistral conheceu feiras livres, brechós, lojas presenciais bem bacanas e baratas.
No dia seguinte, assim, de repente, a Internet voltou.
Parecia que fora apenas obra do destino, uma brincadeira, um teste para ver como esses humanos (des)ligados se comportariam, o que poderia mudar depois disso.
- Ihihihihihi! Cof! 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:56 | Marcadores: Nova Iorque   Zoo   Canastra  

Sábado, 27.06.2015 Zé mané fit

Dorival Augusto não quer nem saber de academia, “aquele lugar onde as pessoas vão pra dizer pras outras que vão”. E os filhos dele vão, a velhinha mãe dele vai, os vizinhos vão, o cachorro vai, quase todos vão. Um vai- vão sem fim.

Ele, no entanto, se diz um praticante dos exercícios ao léu, no caso, ao ar livre, chova ou dischova, com sol ou goteiras do Céu, vento súli ou qualquer vento. E é sarado (porque não tem doença, sarou de tudo, diz), tem massa magra no corpo, mas adora uma massa gorda de vez em quando, um macarrão daqueles, uma lasanha daquelas. Aposentado, ele levanta cedo, se arruma, toma um café puro e sai, assobiando uma das músicas que ouviu ontem.

Caminha a passos largos e rápidos, corre um pouco com pegadas leves, volta a caminhar, cumprimenta uns e outros, sobe escadarias, dribla obstáculos, muda o trajeto, vai até o Direto do Campo, ou à feirinha ali da esquina, compra sempre umas coisas, que separa em duas sacolas, pra dividir o peso. As sacolas funcionam como alteres na volta para casa.

Suco detox ele consome na forma sólida, a qualquer hora. O homem tá sempre comendo maçã verde, cenoura, laranja, mamão, abacaxi. Couve ele corta em tirinhas e faz salada. Líquidos? Claro, toma água normalmente, e uma cervejinha, um golinho de pinga pra se lembrar dos bons tempos, um copo de vinho que faz muito bem... Tudo orgânico, notem.

Se o Doriva sabe o que é Whey? Aquelas proteínas dissolvidas? Sabe, claro, mas diz que prefere tudo in natura, leite, carne, ovos, soja. Soja?

Não tem personal trainer, mas acompanhamento médico sim, ou seja, do cardiologista, um irmão que sempre liga pra saber como está a pressão alta, e que o visita regularmente pra fazer uma avaliação “in loco”. Tudo certo, mano, és um cavalo, mas devagar com o álcool, bem devagar. E ele, Dorival Augusto, sorri que nem um garoto.

É famoso na redondeza por esse estilo largadão de vida, o que preocupa um pouco os donos da academia da rua - vai que isso pega? Por isso a Claudete, uma das proprietárias, ofereceu-lhe academia grátis, é, uma cortesia para ele, uma pessoa tão popular. Que tal, seu Dorival?

Bonita essa Claudete e, dizem, descompromissada. O viúvo Dorival Augusto disse que iria pensar no assunto. Quem sabe a academia não pudesse lhe ser útil nos dias de muita chuva? E como chove por aqui! Afora isso não deixaria de fazer as caminhadas ao léu, de jeito nenhum. Ficou de pensar no assunto...
 





Postado por Jaime Ambrósio às 10:17 | Marcadores: Personal Trainer   Cardiologista   Súli  

Terça-feira, 24.03.2015 O sabe-tudo

Ele pode estar num grupo de amigos, no trabalho, na academia ou na própria família, esta árvore híbrida carregada de penetras. Não gosta de escutar, porque é de sua essência falar, falar muito, como se os seus interlocutores tivessem, de fato, dois pinicos no lugar dos ouvidos. Muitas vezes ele nem deixa você completar uma frase:


- O governo Dilma...
- O problema é que as águias famintas lá do Congresso estão se aproveitando da situação. Eu acho o seguinte...

O sabe-tudo tem a capacidade de discorrer sobre os mais variados assuntos num fôlego só, como se soubesse tudo com muita propriedade. Fala de terrorismo e de cerveja; de futebol e criação de avestruz; de carros modernos e efeito-estufa; de economia, política e atrizes da Globo. Mas na verdade é pouco dado à leituras aprofundadas, sustentando-se, no mais das vezes, em opiniões elaboradas à partir de idéias de terceiros, ou de textos rápidos da Internet. Quem lhe dá trela é porque ainda não o conhece direito; quem o conhece procura despistá-lo, saindo de fininho.

Numa dessas, num encontro em comum, as vítimas de um sabe-tudo resolveram adotar uma estratégia de sobrevivência: o rodízio da paciência. Cada um ficava durante 10 minutos ouvindo as lorotas do língua-solta. Passado esse tempo outra pessoa assumia a ingrata função. Porque o sabe-tudo precisa de alguém dando-lhe corda o tempo todo.

Porém, tem um tipo de sabe-tudo ainda mais nocivo aos tímpanos dos seres comuns: o do contra. Qualquer afirmação, sobre qualquer tema, provoca nele uma imediata e sonora negação:

- Que interessante! As baleias francas vêm ao litoral do estado pra amamentar os filhotes...
- Mentira. Elas vêm pra cá porque fogem dos caçadores....


Aí temos duas coisas: ou você concorda com a versão do sujeito, apenas para se livrar dele, ou encara uma longa e tenebrosa discussão. Pois um índio velho, gremista de nascença, decidiu enfrentar o sabe-tudo do contra, que era, por sua vez, colorado desde outras encarnações. Mas o assunto nem era futebol e sim, e novamente, a famigerada política.

- A Dilma sabia.
- Não sabia...

No caso o churrasco em questão foi numa sexta-feira à noite. No sábado à tarde os dois ainda continuavam discutindo, enquanto roíam os ossos de um costelão.
 





Postado por Jaime Ambrósio às 16:04 | Marcadores: Terrorismo   Lorotas   Efeitoéstufa  

Quinta-feira, 05.03.2015 O abraço

 
O homem carrancudo lia um livro sentado num banco do parque, rodeado de silêncios, ruídos e árvores.Uma mulher se aproxima e o interrompe:
- Desculpe, mas queria lhe pedir um favor.
- Pois não?
- O senhor podia me abraçar? 
Dessas coisas que geram surpresa, um certo espanto...
- Posso..., sim.
E a abraça, e demora um tempo aquele gesto, como se nenhum dos dois quisesse se desenlaçar. 
- Obrigada, eu precisava disso.
Ele nada fala, sorri como se gargalhasse, abandona o livro e tenta seguir a mulher, que havia se embrenhado numa trilha, como uma bruma, algo que se desfaz... Não a encontra. Encontra a si...
Um abraço. 
Dessas coisas simples de que é feita a vida...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:13 | Marcadores: Trilha   Abraço   Desenlaçar  

Sexta-feira, 12.12.2014 NATAL SE... (Ao jeito de Rudyard Kipling)


Se, em meio à corrupção que te rodeia ou te provoca, não fizestes do teu caráter ou do teu voto uma moeda de troca;
se enriquecestes, mas com teu esforço e suor, não com as benesses do Poder;
ou se preferistes ficar apenas com o necessário, para não perderes a dignidade;
se, com tantas razões aparentes para tal, não virastes ladrão ou homicida;
se, na dor de um irmão, sentistes a mesma dor e procurastes um alívio para ele;
se não descartastes no rio o plástico de teu consumo, o veneno do teu corpo;
se respeitastes o Planeta, como a teu pai e à tua mãe;
se, com tanta violência extremada não perdestes a calma e a fé,
se fizestes do amor uma prática, não apenas uma palavra de confete,
então tu terás RENASCIDO aqui na Terra,
merecendo, assim, mais do que os outros, um FELIZ NATAL. 





Postado por Jaime Ambrósio às 19:08 | Marcadores: Renascido   Planeta   Irmão.  

Segunda-feira, 01.12.2014 Videoblog - Por favor! Não sejamos medíocres com 4 times na Série A

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle fala como gostaria de ver a participação dos 4 catarinenses na Série A de 2015.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Postado por Gustavo Bossle às 17:20 | Marcadores: Gustavo Bossle   Videoblog   Figueirense   Chapecoense   Joinville   Jec   Avaí   Figueira   Série A  

Quarta-feira, 26.11.2014 Parábola do carro sujo

Marinalva entendia que certas coisas não mudam mesmo, e que insistir nisso é besteira. Por exemplo, o João Pedro, marido dela. Sempre o mesmo, de segunda a domingo; a única diferença é que nos fins de semana ele fazia churrasco e jogava baralho. No mais tudo era igual naquela casa, até o canto do passarinho na gaiola. Estava acostumada a Marinalva. Mas aconteceu o caso do carro, um certo milagre.

O carro de João Pedro não sabia o que era banho há muito, muito tempo. Parecia estar sempre voltando do rally dos sertões. Numa sexta-feira eles três (conta-se também o carro) foram fazer o rancho quinzenal. Na porta de entrada do supermercado João Pedro lembrou que deixara o celular dentro do automóvel. Voltou. A mulher prosseguiu. Então um homem de barba e cabelos compridos perguntou se João não queria lavar o carro. Lavar? Como assim? Lavar, senhor, por fora e por dentro, encerar, polir, dar brilho. Não demoraria mais do que 45 minutos, o tempo das compras. João Pedro ficou calado por alguns segundos, olhando para o carro e refletindo sobre o sentido da vida na terra... Respondeu que sim, que o homem poderia lavar o carro.

Uma hora depois apareceram com as compras.

- João Pedro! Roubaram o nosso carro!
- Não, não roubaram.
- Roubaram! Tem outro no lugar, novinho.
- Não. É o nosso. Olha a placa.
- ?
- Eu só mandei lavar, só isso.
- O que houve com você?


***


Em casa ele ajudou a guardar as compras, coisa que Marinalva sempre fazia sozinha. Depois disse que a janta seria dele, uma receita da mãe.

- Tem certeza que você está bem, João Pedro?
- Sabe o homem que lavou o carro, aquele que eu dei o dinheiro?
- Sei.
- Acho que era Jesus Cristo.
- Ah é?... (quase engasgando com a ameixa) E por quê?
- O jeito dele. Ele falava através de parábolas, como na Bíblia. Eu compreendi que, naquele instante, lavar o carro por fora e por dentro era um aviso de purificação. Ou seja, é preciso limpar não apenas a sujeira do corpo, mas também a da alma, a sujeira interna. Talvez esteja me faltando isso.
- Um banho? Com certeza. Mas vê se não faz lambança no banheiro.
- Eu falo da alma, mulher. Acho que preciso mudar.
- ?... (“Aquele livro do Augusto Cury não fez bem pra ele.”)

Marinalva e o ponto de interrogação. E se João Pedro continuar com esse papo estranho? E se essa coisa ficar ainda mais séria? E se ele quiser entrar praquela Igreja da gritaria? E se disser que sexo é só pra procriação? E se cortar a TV Cabo?

- Você não precisa mudar nada, meu bem. Assim tá bom. Senta aí que eu preparo um uísque. Ah, a Neuza avisou que ela e o Valdir vão chegar um pouco mais tarde pro jogo de canastra. Eles vão trazer vinho que compraram lá na serra gaúcha...





Postado por Jaime Ambrósio às 10:25 | Marcadores: Rally   Rancho   Augusto Cury  

Sexta-feira, 14.11.2014 Videoblog - Vamos desvendar os segredos da Ponte Preta?!

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle comenta sobre o jogo entre JEC e Ponte Preta, a final antecipada da Série B 2014.

Gustavo Bossle aborda os principais números da "Macaca" e fala quem é o destaque do time Campineiro.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Postado por Gustavo Bossle às 14:00 | Marcadores: Joinville   Jec   Ponte Preta   Alexandro   Estatística   Série B   Gustavo Bossle   Band Sc  

Sexta-feira, 07.11.2014 Videoblog - Figueira vs. Chapecoense + O segredo está na base

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle comenta sobre o jogo entre Figueirense x Chapecoense.

Gustavo Bossle também fala sobre as categorias de base do Figueira.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)

****!!!!Errata: entenda Rafael Coelho ao invés de Rafael Costa!!!!****   :-)





Sexta-feira, 31.10.2014 Videoblog JEC - Vencer o Sampaio é díficil, mas não impossível

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle comenta sobre a possibilidade do JEC garantir o acesso à Série A já na próxima terça-feira.


Gustavo Bossle também fala sobre os pontos fortes do difícil adversário do Coelho.


(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Segunda-feira, 27.10.2014 Videoblog - Criciúma: Dal Pozzo é o culpado?

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle comenta sobre a demissão do técnico do Criciúma EC Gilmar Dal Pozzo.


Gustavo Bossle também fala sobre qual era a situação do Tigre na 31ª rodada Série A de 2013.


(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Sexta-feira, 24.10.2014 Videoblog - As estatísticas dão razão ao torcedor da Chapecoense

O apresentador e jornalista Gustavo Bossle comenta sobre as estatísticas do ataque da Chapecoense.

Além disso, ele fala sobre o ponto forte do próximo adversário do Verdão do Oeste.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Sexta-feira, 17.10.2014 Na cela


Sim, de um lado a justiça é benevolente (com políticos, por exemplo); de outro, draconiana (com ladrões de galinha, por exemplo). Mas também é fato que todo preso acha injusta sua condenação, julga que não devia estar numa cela, que a culpa é do Sistema e tal. Zé Playboy, como era conhecido, mal chegou à nova morada e já foi perguntando sobre o porquê de os colegas inquilinos estarem ali, trancafiados.
O primeiro:
- Disseram que eu matava, mas, na verdade, eu apenas apontava o revólver e puxava o gatilho...
O outro.
- Disseram que eu roubava, mas, na verdade, eu apenas subtraia produtos de quem tinha mais do que eu. Mas, e você, colega?
E assim respondeu o Zé que chegou:
- Disseram que eu cometia adultério, mas, na verdade, eu apenas... Quero dizer o seguinte, companheiros: Que culpa tenho eu se a minha cunhada é gêmea da minha mulher, idêntica à Lurdinha? 





Postado por Jaime Ambrósio às 17:52 | Marcadores: Injúria   Gatilho   Gêmea  

Sexta-feira, 17.10.2014 Videoblog - A sina do Criciúma longe do HH

O apresentador Gustavo Bossle comenta sobre o fraco rendimento do Criciúma longe de casa.

Além disso, o jornalista também fala sobre o que o Tigre precisa fazer para fugir da degola.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Sexta-feira, 10.10.2014 Videoblog - Gustavo Bossle comenta a semana dos times de SC

O apresentador Gustavo Bossle comenta sobre a atual situação do times catarinenses que disputam as Séries A e B.

Além disso, o jornalista também fala sobre a 2ª Divisão do Campeonato Catarinense.

Deixe sua pergunta ou comentário para ser lido no próximo videoblog.

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Segunda-feira, 06.10.2014 As pesquisas


Ovo fazia mal, agora faz muito bem, principalmente a clara, que tem bastante proteína e não engorda. Leite faz bem, faz mal, dependendo das intenções, das pesquisas. O álcool faz mal, em excesso, porque um pouquinho, faz bem, justamente pra ele, o coração. E o que dizer do café? Uma hora é mocinho, outra hora bandido. Whey faz bem, principalmente pra indústria, mas faz mal pro bolso do consumidor. Aliás, dinheiro faz bem, ou mal, é uma feijoada na consciência. De qualquer maneira antes de comer alguma coisa parece que a moda é consultar o Google, como faz a Isadora, divorciada, mãe da Lurdinha. Porque sempre tem uma pesquisa, uma nova “verdade” sobre os benefícios dos alimentos.
- Filha, eu li agora que beber água demais não é bom pra saúde, pode provocar uma tal de hiponatremia, dá tontura, confusão na mente...
- Mãe, eu só bebo de dois a três litros, não bebo uma piscina por dia.
- Lurdinha, você não vai se arrumar pra sair? Esqueceu que é quarta-feira? O Paulinho deve chegar daqui a pouco pra te pegar.
- Mãe, o Paulinho faz mal pra minha saúde.
- Como, filha? Vocês estavam tão bem.
- Mas hoje fiz uma pesquisa no Face, descobri que ele saia com a Júlia. A Júlia, mãe! Minha melhor amiga. Sabe, o amor faz bem, desde que seja correspondido. Vou sair, sim, mas é na direção do McDonalds, me empanturrar de hambúrguer e batata frita, que fazem bem pra cabeça.
- Mas a gordura trans e a saturada... Perai, filhinha, vou ver aqui na internet se tem alguma novidade...
- Dona Isadora, porque a senhora não começa a sair com um nutricionista, um nutrólogo, um médico, enfim, pra esquecer um pouco o Google?


 





Postado por Jaime Ambrósio às 14:27 | Marcadores: Hiponatremia   Saturada   Internet  

Segunda-feira, 16.06.2014 E raiou o dia na Lagoa


Num bar da Lagoa o homem bebe outra cerveja e naufraga nos acordes dilacerantes de uma música de dor e morte. Depois o cantor-assassino descansa o violão certeiro, deixando um silêncio de mar invadir o ambiente quase vazio. É quase noite terminada: lá fora o pescador prepara a rede. O homem no bar, que é um poeta não-publicado, se deixa transformar em versos no guardanapo indiferente. Fala de si como se falasse de outro:

No afã do beijo que não houve
engoliu cada palavra, ali na mesa de bar,
como se o desejo fosse uma mistura
de lúpulo, álcool e vogais.
Diluiu-se a cena tantas vezes imaginada,
restou o drama
do instigante teatro da procura.


A mulher saiu do bar com o coração talhado ao meio. Algo indefinido a deixara refém do presente-passado, mas uma nova emoção lhe surgia. Deparara-se com aquele homem solitário que a dissecou lenta e completamente. Olharam-se a mais não poder, sobrecarregaram-se de perguntas caladas.


Olhos são pontos de luz
que se procuram
em mesas de bar,
no refluxo de ruas.
Buscam-se por aí.

Mas faltara-lhes a mobilidade dos corpos, a necessária coragem para romper a inércia do medo. Um esperando pelos passos do outro, homem e mulher quedados diante da possibilidade de um novo voo. O que os prende? Quais segredos ou compromissos? Que livro de regras os impede de ruflar as asas? Então eles sonham, imaginam-se dançando colados, ao som inebriante da MPB; então trocam juras e promessas, beijam-se desesperadamente dentro de uma canção do Vinícius. Fundem-se em outro poema:

Seremos assim, unha e carne,
até que a morte nos devore,
até que a flor se cale
e a luz se faça...


A mulher saiu do bar como quem foge da raia, mas alguma coisa, uma parte indizível de si, ficou por lá, diluída. O homem esperou o cantor-assassino desferir mais uma canção, derradeira. E também saiu. No mirante da Lagoa parou para comprovar o milagre do alvorecer na Ilha, com a lua açoriana trocando de turno com o sol ainda sonolento, despejando os primeiros raios por entre as frestas das árvores que ainda persistem nos morros. Não estava sozinho o homem: ao lado de um grupo de turistas ela perscrutava o infinito, ela esperava. Lânguida, lépida, fúlgida, uma deusa proparoxítona, a mulher do bar. Olham-se. Beijam-se no céu imaculado da Lagoa.

Amores vêm,
vão.
Fugazes e não.
Mar, céu, chão,
todos os seres,
todas as formas.
Amar,
em qualquer conjugação,
é sempre um ponto de partida:
paixão.

A Lagoa da Conceição amanhece, enternece, torna-se clara poesia, sem subterfúgios. Ponto final. Ponto de encontro e partida.





Postado por Jaime Ambrósio às 18:54 | Marcadores: Vinicius   Afã   Derradeira  

Sábado, 19.04.2014 A páscoa e o espelho

Desejou Feliz Páscoa à família e aos amigos. Sentiu-se bem, mas era pouco, quase um dever fraterno. Por isso foi às ruas, saudou vários estranhos, pessoas que ele nunca tinha visto antes. Sentiu-se melhor... No entanto, ainda faltava alguma coisa. De volta observou-se no espelho, viu naquela perspectiva um sujeito familiar, amigo, mas de certa forma, estranho. Desejou Feliz Páscoa também para ele. A imagem, surpreendida, sorriu lá de dentro. Pedro, em princípio hesitante, retribuiu o gesto, sem saber quem era reflexo de quem. Mas, enfim, sentiu-se ainda melhor, e entendeu que aquela Páscoa era a redescoberta de si.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:07 | Marcadores: Fraterno   Reflexo   Imagem  

Terça-feira, 18.03.2014 O acaso

O menino na bicicleta é feliz e corre. A mãe dissera cuidado, moleque, vai devagar. O menino não sabe do cão, que vem pela calçada, contornando a quadra. Corre o cão, com pressa de que? No cruzamento o acidente. O menino dá uma cambalhota no espaço - um salto mortal? - e despenca na crueldade da pista. O cão, que foi arremessado pela bicicleta, bate na lateral de um carro apressado e vai parar em cima de uma boca de lobo. Por alguns segundos os dois ficam inertes, silenciosos. Depois ouvem o movimento das pessoas que se aproximam, vozes que se aproximam.

O sangue do cão goteja no bueiro, desaparecendo na imensidão do esgoto; o sangue do menino é um filete que escorre lento pelos sulcos imprecisos do asfalto, tentando formar algum desenho urbano. A humanidade está dividida no cruzamento das duas ruas: algumas pessoas acorrem o menino, outras o cão. Os dois respiram sofregamente. Não há choro nem latido, a dor é calada, ou ainda não é dor. O pranto que se ouve é da mãe do menino, que chega com as mãos na cabeça; é da garota trêmula que procurava pelo poodle fugido.

A ambulância leva o menino, que da maca ainda pôde olhar para o cão estirado. Por alguns segundos eles se contemplam, como querendo trocar um indecifrável pedido de perdão. Mas não há culpados aparentes na lógica dos acasos, há vítimas.

Um homem de alma compadecida leva o cachorro para a clínica veterinária. A humanidade, enternecida com as duas dores, separa-se, segue, porque é preciso viver.





Postado por Jaime Ambrósio às 11:25 | Marcadores: Bueiros   Goteja   Cão  

Segunda-feira, 24.02.2014 Matou o tédio e foi pescar

Estava estranhamente mau-humorado nos últimos dias. Nem o BBB ajudava, nem o futebol na telinha. Então viu um adesivo no trânsito que parecia ter sido feito sob encomenda: “Tá estressado? Vai pescar!” É um sinal - pensou rapidamente. Os sinais podem redefinir a vida das pessoas na terra. Aonde foi que leu isso?... Mas a droga do congestionamento continuava na volta para casa, aquilo não tinha jeito. Pra que tanto carro no mundo, meu Deus? E quando dá uma chuvinha, então, ou um acidente? O famoso caos toma conta da cidade inteira, uma vergonha política, porque tudo é uma questão de política, tudo, o salário dos caras lá de Brasília, o nosso salário aqui, o maldito preço da gasolina, os buracos das ruas, os tiros por aí, a bandalheira. Calma! Respira fundo! E não adianta buzinar... Ainda bem que inventaram a sexta-feira, assim um funcionário público, à beira de um ataque de nervos, tem o sábado e o domingo livres.

Sábado. Danilo sozinho no trapiche. Por necessidade de isolamento não quis levar o cunhado de sempre, o João Carlos, que, aliás, não podia ficar sabendo daquela pescaria solitária. Aliás de novo, o problema era justamente a irmã do João Carlos, ou seja, a mulher de Danilo. Lourdes colocou na cabeça que ele, o marido, já não era mais o mesmo, que naquele mato tinha cachorro, ou lebre, mas que tinha alguma coisa, tinha. Como assim? Assim, esse teu jeito esquisito, de pouca conversa, sexo vapt-vupt. Ora, isso é minhoquice, rebateu Danilo, que acabava de trazer para o léxico familiar uma nova expressão. Minhoquice? É, significa ter minhoca na cabeça, ver coisas onde elas não existem.

Minhoca, diga-se de passagem, que ele deveria estar usando no anzol, porque a isca de camarão que trouxera não servia pra nada. Pior é que ele também chegara àquela conclusão, de que estava diferente. Mas por quê? O salário não aumentou, nem diminuiu; não estava apaixonado pela mulher do próximo, a pressão estava controlada. Então de onde vinha aquela falta de graça nas coisas?, aquela indiferença crônica?

O mar não dava nenhuma resposta e nem estava para peixe, mas as gaivotas faziam a parte delas, em renovados voos rasantes. Bonito, era bonito aquilo. Ainda mais com aquele sol crepuscular derramando-se nas águas, uma pintura para se colocar na parede da sala. Danilo pareceu sentir-se melhor naquele momento, então recolheu a linha, ajeitou o caniço e sentou-se na extremidade do trapiche. Ficou alguns minutos assim, desligado, apenas observando o horizonte lá longe...

O trânsito fluía sem atropelos e no carro da frente um outro adesivo pedia para Danilo sorrir. Sinais, os sinais.

Em casa deu um beijo demorado na mulher, que quase não o reconheceu. O telefone tocou e era o João Carlos, dizendo que amanhã bem cedo iriam pescar no costão. Pra não esquecer de levar bebida e amendoim torrado. Pensando bem, há quanto tempo não tomava umas cervejinhas? Bom também levar o radinho de pilha...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:20 | Marcadores: Minhoquice   Trapiche   Telinha  

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