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Quarta-feira, 26.01.2011 O sumiço das pontes

Algo de muito sério e misterioso estava acontecendo na Terra, essa nossa casa deveras negligenciada (por eu, tu, nós e “eles”, as “otoridades”, como diz o demolidor de mesa Vânio Bossle). Em várias partes do mundo registrou-se, ao mesmo tempo, mas não ao vivo e via satélite (por algum problema), o desaparecimento de grandes obras e objetos do patrimônio público. Em Washington foi a Casa Branca (com o presidente e alguns asseclas dentro); em Buenos Aires a estátua de Carlos Gardel e, para desespero ainda maior dos hermanos, a camisa de Maradona na Copa de 86; em Londres foi o Big-Bem; em Paris, claro, aquela torre metida a besta; no Paraguai... no Paraguai?!...; no Oriente Médio algumas pirâmides e duas odaliscas; na China a antiga muralha que pode ser vista até de Marte, mas que eu nunca vi; no Rio o Cristo.. O Cristo?

Flori(p)anópolis, no sul mágico do Brasil, amanheceu... - Que é isso? – sem as três pontes. As três, sim, inclusive a “Velha Senhora”, que virou cartão postal, adoeceu e espera há muitos e muitos anos pelos medicamentos eficazes, muitos deles vindos do exterior. A população, logo que soube da novidade, ficou dividida entre o pasmo e a crendice. Os mais afoitos logo trataram de fazer alguns comentários sobre o inusitado “fenômeno”.

CIDADÃO AVULSO 1 – Sinais dos tempos, em que não haverá mais estradas sobre as águas e o mundo se dividirá em duas partes antes da explosão final.

RATO (que na verdade é um sonoplasta) – Eu não disse, Jaime?! Eu não disse?! Mas vocês riram, você e o Guido...

DONA MARIA DA CAIEIRA DO SACO – Ólho-lhó-lhó! E num é que o mári inguliu as pônti gêmea e também a enferrujada, aquela de bunito?! Agora é que as vaca vão pro brejo.

RONÉRIO SILVA – Sempre fui a favor do transporte marítimo de passageiros, talvez agora me entendam...

GERMANO – Resta sabê se os ônibus tão preparado pra andá sobre o mar sem afundá.

CIDADÃO AVULSO 2 – Precisamos de pontes que liguem o homem ao Criador do homem.

RATO – Eu falei...

ZEZINHO DO MORRO ALTO – Eu vi, tava indo pescá na passarela da ponte que vem, era bem cedinho, inda escuro. De repente, uma luz no Céu, grande, que puxou todas elas. Parecia um filme que eu quase vi lá em casa.

Era um sábado, e um rebuliço bem maior que o apagão ou a Novembrada. Um caos. Claro que alguns nem ligaram, afinal, não teriam que se deslocar pro trabalho, tanto de lá pra cá, quanto daqui pra lá. Mas outros precisavam atravessar aquele pedacinho de mar perdido na terra, como a turma do Continente, que queria ver o campeonato de surf na Joaquina; ou os jogadores do Avaí (e seus torcedores mordidos) dispostos a ganhar a revanche. Ora, acontece que tudo foi cancelado, até o jogo do bicho na Banca do Mané. Claro que os donos de barcos não perderam tempo. A preços exorbitantes começaram a transportar os habitantes mais apavorados. Neném, que não era o da Costeira, foi fazer o mesmo, com seu barquinho acanhado.

- Num pódi é batê um vento súli!

E assim prosseguiu o drama dos ilhéus e continentais, até o sono derrubar os que ainda conseguiam dormir. No meio da madrugada, quando a balbúrdia havia serenado, eis que a três pontes retornaram à Terra, ou seja, ao mar. Misteriosamente. Florip(a)nópolis amanheceu em festa, era domingo de sol. Mas o que apenas alguns perceberam, de imediato, provocou, depois, um espanto geral: a Hercílio Luz, a Velha Senhora com dores lombares, ficou exatamente entre as duas pontes de concreto.

E assim quase tudo voltou ao seu lugar. Em Nova Iorque, por exemplo, a Casa Branca estava lá de novo, mas o presidente, o presidente não havia retornado.





Postado por Jaime Ambrósio às 18:53 | Marcadores: Jaime Ambrósio  

Domingo, 03.07.2011 Ciumismo


Ciúme doentio aquele da Maria Júlia, coisa de endoidar qualquer sujeito. Um dia o Armando chegou em casa com um botão a menos na camisa, foi um furdunço. Aliás, ele mal abriu a porta e ela (a mulher, não a porta), lá da cozinha, já havia percebido a falha na camisa.
- Armando, cadê o botão?
- Que botão?
- Não se faça de ingênuo! O botão da terceira casinha de cima pra baixo.
- Sei lá, deve ter caído, nem notei.
- Caído uma ova! Isso foi coisa de guenga na hora de desabotoar.
Outro dia foi porque ele apareceu assobiando uma música antiga do Roberto Carlos.
- Armando, quem é ela?
- Ela quem, amor?
- A maulher da música, seu cínico.
- Como assim?
- Você chega em casa cantando "Amada Amante" e ainda tem a coragem, a cara de pau, o despautério (???) de fazer de conta que não houve nada? Não desaponte a minha inteligência, Armando!
Então Armando começou a refletir sobre a situação. Armando ficou armando alguma. Decidiu que seria olho por olho, dente por dente, boca, pescoço, todas as partes. Pescoço, eis aí: Armando lembrou que que na noite anterior, na cama, antes de aluz se apagar e o sono chegar, ele percebeu uma pequena mas insinuante mancha , ou qualquer outra coisa, naquela região fatídica do corpo humano feminino.
Ora, ora, homem também sabe ser ladino, concluiu ele com um risinho de vingança. Abriu a porta cantando um samba do Zeca Pagodinho, olhou pra esposa (que se preparava para inspecioná-lo da cabeça aos pés e foi logo largando o verbo:
- Maria Júlia?!
- Que foi, destemperado?
- Que marca é essa no teu pescoço?
- Que pescoço? Que marca?
- Não se faça de ingênua, Maria Júlia! Quem é ele?
Depois de consultar o espelho, para rever o ponto avermelhado que originou a explosão do marido, Maria Júlia era outra mulher.
- Tolo, é apenas uma espinha que infeccionou. Eu passsei uma pomada...
- Espinha, espinha de quem?
- Armando, isso é ciúme?





Postado por Jaime Ambrósio às 20:11 | Marcadores: Detemperado   Despautério  

Quinta-feira, 23.06.2011 O rasgador de passado




Postado por Jaime Ambrósio às 12:24 | Marcadores: Alvoroçadas   Intropectivo  

Sexta-feira, 13.07.2012 Que assim seja CRB e Avaí!

Hello, queridos leitores! Tenho respondido nas últimas semanas muitos tweets que têm mais ou menos o seguinte teor: “Gustavo, você não acha que as estatísticas são algo muito frágil para traduzir a atuação de um jogador ou de um time?”. Ao refutar sou simples e direto: “Não. Não concordo.”. Me resumo a afirmar isso pois é muito complicado querer convencer alguém, ou provar alguma teoria tão complexa e polêmica, em míseros 140 caracteres (limite de postagem do microblog). Pois bem. Já que agora fui agraciado com esse espaço, vamos “devanear” sobre as estatísticas de uma forma diferente. Devanearemos sobre como os números falam a verdade. Como faremos isso? Simples – nem tanto por conta do tamanho da pesquisa.

A ideia é desenhar como será o jogo CRB x Avaí com base nos “milhões” de números coletados sobre as duas equipes. Depois de fazer essa psicografia a La Chico Xavier vou, inclusive, sugerir um placar. Porém, peço para que entendam que o tal pitaco nada mais é que um baita chute. Gostaria que vocês levassem em consideração as situações e detalhes de jogo que serão descritas a seguir. Vamos lá?

Raio-X do CRB na Série B:
- 2ª equipe com pior aproveitamento no lançamentos;
- 4ª com pior aproveitamento nos dribles;
- 4ª que mais recebe faltas;
- 2ª com mais impedimentos assinalados;
- pior defesa com 18 gols sofridos;
- 2º time com mais cartões amarelos (30);
- 2º com mais cartões vermelhos (4)

Raio-X do Avaí na Série B:
- time com mais passes certos (2.758);
- 6º time com menos chutes certos (45);
- 4º time com mais dribles certos (105);
- equipe líder no quesito bolas perdidas (379);
- com 22,8 desarmes por jogo é líder, também, nos desarmes certos

Psicografia “numerológica”:

Ok! Agora o bixo vai pegar. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém! Chegou a hora da verdade. Comecemos pelo início, diria um colega.

Vamos construir o cenário do embate do esporte bretão a ser analisado. O estádio Rei Pelé tem média de 4.647 torcedores por jogo. Na última partida em casa, contra o América de Natal, 4.004 alagoanos foram dar uma força à equipe. E os “Argonautas”, como são conhecidos os fanáticos pelo clube de Maceió, não saíram decepcionados do estádio. Afinal, conseguiram uma vitória (4 a 2) sobre o América de Natal. O melhor público registrado nessa segundona do Brasileirão foi contra o Bragantino. Quando 7.277 espectadores foram ao “Majestoso” e presenciaram a derrota dos donos da casa por 2 a 0 para os paulistas. Para o jogo desse domingo a principal estrela do time, o atacante Aloísio Chulapa, está confirmada. No banco. Mas esta. Ao entrar no decorrer do jogo será o primeira partida dele na Série B. Levando em consideração essas informações concluo que não devemos ter um público inferior a 6 mil torcedores. Arrisco dizer que o Rei Pelé receberá o maior público registrado até aqui nesse campeonato.

Times (quase) definidos! O CRB vai (deve ir) a campo com: Cristiano; Luiz Felipe, Rogélio, Thiago Gomes e Jadilson; Gercimar, Roberto Lopes, Geovani e Elsinho; Edson e Ricardinho. Já o adversário, o Avaí, está assim (creio eu) definido pelo técnico Hémerson Maria: Diego; Patrick, Cássio, Leandro Silva, Pirão; Bruno, Mika, Cléber Santana, Jefferson Maranhão; Acosta e Nunes.

Apita o juiz! Os donos da casa buscam atacar sempre pelo esquerdo de campo. Ora com o lateral esquerdo Jadílson, ora com o meia Geovani. Os chutes, na maioria das vezes, saem de fora da área. Assim o clube alagoano já tentou 57 vezes marcar gols na 2ª Divisão Nacional. Desses 57 chutes de longa distância 11 (3 certos / 8 errados) foram dados por Jadilson e outros 10 (3 certos, 7 errados) por Geovani. A dupla “Já-Ge” – terrível, essa – é a responsável pelas cobranças de falta dos Argonautas. O meia Paulo Victor, não escalado entre os titulares, é outro que cobra faltas. Só para se ter uma ideia, das 13 cobranças, 9 saíram dos pés desses três jogadores. Porém, somente PV fez gol (1) dessa forma. Mas é pelo esquerdo que eles insistem, mesmo. Até aqui, nesse campeonato, foram 132 arremates para o gol sendo 27,1% deles feitos pela parte canhota do campo. Isso não representa absolutamente nada? Aí que você se engana! Esses mesmos 27,1% é o maior indíce de finalizações da Série B nessa faixa do campo. Porém, pelo lado direito tem o lateral Elsinho que, aliás, é outro jogador que adora “bater” contra o gol adversário. Tanto que já marcou 2 gols nessa Segundona. Ele já chutou 14 vezes, sendo 7 de fora da área (1 certo, 6 errados). Olha lá quem esta vindo com a bola dominada, minha gente! O canhoto Geovani. Ele vai arriscar. Cuidado! Ele chuta e.... (só Deus sabe). Mas a defesa azurra, líder em desarmes, já notou essa característica dos donos da casa. Hémerson Maria corrigiu o posicionamento do time e colocou o volante Bruno para abafar os chutes de longa distância. Também precavido dessa situação, Maria adiantou o posicionamento dos zagueiros. Ele sabe que pode ser fatal se a defesa dele cochilar no lado esquerdo ou ficar “pagando” chutes de fora da área. Com uma defesa bem postada e com constantes subidas do lateral esquerdo adversário, Cléber Santana se aproveita dessa avenida e começa a “deitar e rolar” na casa do adversário. O velocista Patrick começa a deixar a defesa do CRB confusa. Defesa que adora um cartãozinho amarelo e que já teve 4 jogadores expulsos no campeonato. Falta para o Leão da Ilha! Cléber Santana, que já cobrou 9 faltas pelos azurras, se posiciona para tentar e.... (só Deus sabe). De fora área também tenta o Avaí. E claro, com ele... Cléber Santana arrisca e... (só Deus sabe). Entre todos os atletas que disputam a divisão de acesso da elite do Brasileirão, o maestro do meio campo avaiano, é o 2º jogador que mais chutou a gol de longa distância. Foram 18 arremates atrás da risca da grande área (7 certos e 11 errados). Só para constar: quem mais chutou de fora da área foi Marcelinho Paraíba do Grêmio Barueri. Apita o juizão, fim de partida! O placar final foi... (só Deus sabe).

Acho que nem seria preciso dizer isso, mas faço questão de deixar claro que a história narrada acima é hipotética. Em contrapartida, para tentar mostrar aos meus leitores que os números falam, essas são situações que eu posso afirmar com todas as letras: vão acontecer durante o jogo CRB e Avaí! Aí você vai dizer: “mas é claro que essas coisas vão acontecer... Que time não chuta de fora da área? Que time não cobra falta? Que time não faz falta? Que time não ataca pela esquerda? Que time não joga nos espaços deixados pelo adversário? Que time?”. Minha resposta? Você sabe isso tudo porque os números disseram o estilo de jogo dos Alagoanos. Fiz questão de focar mais no time de Maceió pois seria mais fácil falar sobre o Leão da Ilha.

Por isso que futebol é apaixonante. É apaixonante só porque Deus sabe o que pode acontecer. É o esporte mais imprevisível de todos, sem dúvidas. Porém, com a ajuda da tecnologia e dos números é possível saber as características de cada jogador e, principalmente, o estilo de jogo de cada time. Isso ajuda tanto o Avaí, quanto o CRB, e faz igual para um jornalista esportivo apaixonado pelas estatísticas.

Ah! Já tinha esquecido. Meu palpite de placar? Isso sim é hipotético. Mas vamos lá! 1 a 0 Avaí, gol de Cléber Santana. Detalhe... numa cobrança de falta.

Até a próxima!





Quarta-feira, 20.04.2011 Os energúmenos do trânsito

Quantos energúmenos o trânsito comporta? Mais do que sonha a nossa vã sabedoria... Eles estão por aí, infiltrados nos cruzamentos, em frente às danceterias e bares, nos estacionamentos... e nas rodovias. Alguns jazem nos cemitérios, mas esses só incomodam os defuntos que gostam de assobiar melodias de Mozart e Haendel. Os demais incomodam, incomodam muita gente aqui. Claro que não são todos iguais, a diferença está no grau da idiotice. Os menos nocivos, que ficam no nível dos chatos insuportáveis, são aqueles que, por falta de autoconfiança e sensibilidade (acústico-cultural), equipam o carro com os mais potentes equipamentos e desfilam pelas ruas com o som no último volume, no último limite dos tímpanos. Dane-se o silêncio dos comuns! Mas o que eles gostam mesmo é de estacionar em algum ponto movimentado, onde haja garotas fúteis e descerebradas. Sentem-se os maiorais da Terra. Nesta laia juntam-se também os que adoram acelerar e ao mesmo tempo pressionar a embreagem, cantando pneu, rodopiando, soltando o inconfundível monóxido para todos os lados. Asfixiam o ar e riem à vontade. De que rides, ó néscios?, diria um perplexo Shakespeare.

Tem aqueles que ao beber demais acham-se demais, correm demais. Não há reflexo nem nexo. Por fim a falta de sorte, que rima com corte, que rima com morte. Ou morrem, ou matam, mas de qualquer maneira viram estatística e engordam as páginas policiais. Fica o sangue no asfalto a desenhar perguntas; fica o pranto, convulsivo, a procurar respostas.

E o que falar dos energúmenos que, depois das baladas transcendentais de sábado à noite, reúnem-se num grupo fiel e aventureiro para os festivos rachas? Sabem exatamente aonde ir, e vão, mostrando arrojo, desenvoltura e sagacidade, tudo conseguido através de pequenas ajudas químicas. Querem impressionaras namoradas, que os assistem na margem da rodovia, espevitadas, gritando euforicamente como loucas indomáveis. É o apogeu da adrenalina. Eles lá, em duplas (não seriam parelhas?), perfilados, roncando os motores, até que alguém dá o sinal. Lá vão os intrépidos jovens em suas máquinas voadoras, desafiando o tempo e o vento. A odisséia no asfalto dura poucos segundos, mas a sensação que fica dura bem mais, traz um gozo prolongado ao ginete urbano, possuído pelo êxtase da aventura criminosa. Dificilmente há empate, então o vencedor nem sai do carro, aguarda o próximo “adversário” para mais um pega. São donos do destino, acham que nada de errado lhes acontecerá, ou pouco ligam pra isso. Mas às margens da estrada agrupam-se pequenas casas, barracos com operários que tiveram o sono interrompido por causa do barulho infernal. Alguns espiam pelas janelas e soltam palavrões; outros deixam pra lá, tentam dormir assim mesmo, é apenas ,mais um perigo na vida, a exemplo de tantos outros. Os energúmenos dentro dos carros, potenciais assassinos, sabem que suas mães estão em casa, seguras; as vítimas serão as mães dos outros.

Deus nos salve dos energúmenos do trânsito!... ou a polícia.

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Matéria de site: “Acidentes no Transito”

No Brasil mais de 40.000 pessoas perdem a vida anualmente em acidentes de transito, porém acredita-se que estes números são maiores pois as estatísticas são falhas. Só nas rodovias paulistas em 2001 ocorreram 61.000 acidentes com 2.300 mortes e 23.000 pessoas gravemente feridas. Até 15 de fevereiro já morreram 703 pessoas nas rodovias federais, resultado de 13.400 acidentes. Em todo o mundo o trânsito ceifa vidas, porém os números brasileiros são alarmantes e disparam na frente de qualquer país do mundo.

CAUSAS MAIS COMUNS DE ACIDENTES DE TRANSITO

Erro humano, em todo o mundo, é responsável por mais de 90 % dos acidentes registrados. Principais imprudências determinantes de acidentes fatais no Brasil: por ordem de incidência:

* Velocidade excessiva;
* Dirigir sob efeito de álcool;
* Distancia insuficiente em relação ao veiculo dianteiro;
* Desrespeito à sinalização;
* Dirigir sob efeito de drogas.

Fatores determinantes das imprudências:

* Impunidade / legislação deficiente;
* Fiscalização corrupta e sem caráter educativo;
* Baixo nível cultural e social;
* Baixa valorização da vida;
* Ausência de espírito comunitário e exacerbação do caráter individualista;
* Uso do veículo como demonstração de poder e virilidade





Postado por Jaime Ambrósio às 10:41 | Marcadores: Energúmenos   Monóxido   Mozart  

Terça-feira, 24.07.2012 O dia em que Gabrille me assustou

Depois do nascimento da minha Carol, enfim chegou a semana que eu mais esperava nos últimos 4 anos! É que começa nesta quarta-feira, em Londres, a 30ª edição dos Jogos Olímpicos. “Tá, mas esse cara que diz gostar tanto de futebol vai me dizer que 2 anos antes ele não esperava com essa mesma ansiedade pela Copa do Mundo?”, perguntam-se os mais atentos. Posso garantir para quem balbuciou esse tipo de questionamento que a minha resposta é... não. Sempre fui bem mais fã das Olimpíadas do que da Copa. E é claro que existe um ponto específico no qual é traduzido esse meu apego maior pelas Olimpíadas. Quer saber qual é o tal “ponto específico”? Então, sente-se, leia e relaxe. A história é boa!

Lembro-me quase que perfeitamente. O ano? 1984. E o cenário visto pelos meus olhos, através de um televisor, era o estádio olímpico de Los Angeles e seus mais de 90 mil espectadores que assistiam “in loco” à última prova daquela 23ª edição dos jogos. Eu, que acabara de completar 4 anos de idade, estava sentado ao lado da minha mãe, a qual se se mostrava nitidamente apreensiva. Ao absorver aquele nervosismo aparente de dona Inalva, meus olhos ficaram esbugalhados e imóveis. Nada fazia com que eu mudasse meu rosto de direção. Estava compenetrado naquela Telefunken colorida estacionada sobre um grandioso armário de cerejeira. Como morávamos – ela ainda mora – no alto de um morro a imagem era muito boa para os padrões tecnológicos da época. Minha mãe, sempre muito preocupada, tentava me explicar o que se passava com uma moça magrinha que usava um boné branco, e o que aquela cena poderia representar para mim. Mas eu pouco ouvia e, principalmente, por conta da idade, muito menos compreendia. Tenho a vaga lembrança de então estar boquiaberto e que meus ouvidos absorviam ao fundo uma quantidade de frases confortadoras e amenizadoras da imagem então captada pelas minhas retinas – filtrada por óculos gigantescos de lentes verdes. Mas não adiantava. Eu tinha um ponto fixo. Essa fixação era numa mulher que mais parecia alguém com problemas de locomoção do que uma maratonista. Era ela, o maior exemplo de superação que minha mente guarda registro até os dias de hoje, a suíça Gabrielle Andersen, que tirava forças da alma para completar os 42.195 metros da maratona - modalidade que debutava na versão feminina numa edição olímpica. Lá na pista, no calor escaldante do verão californiano, foram 100 metros assistidos com pura agonia e angustia, completados pela moça de 39 anos em pouco mais de 6 minutos. Ao cruzar a linha de chegada, na 37ª posição, a atleta se jogou nos braços dos fiscais, desmaiou e o estádio pulsou de alegria. Foi aí o meu maior susto. Afinal, o que havia levado aquela mulher a cometer tamanha penitência? E mais... Por que minha mãe chorava? Outro questionamento: por que a voz que vinha da TV falava com tanta empolgação de um caso que havia sido absorvido pela minha mente como algo tão dramático, assustador e triste? Eu, como toda criança, simplesmente não achava legal ver alguém sofrer. E naquele contexto sofriam duas: minha mãe e Gabrielle. Foi assim que interpretei uma das cenas mais impactantes na história do esporte mundial. No fim das contas, aquilo me deixou muito chocado. Tamanho choque faz essa cena se manter viva em minha memória até os dias atuais. Porém, hoje, obviamente, enxergo aquele episódio de outra forma. Enxergo com os olhos de quem, ao estar recém-saído da infância, sempre ouviu com bons ouvidos a frase eternizada pelo então Barão de Coubertin, o educador frânces Pierre de Frédy, na mesma Londres de 1908, durante a edição da 4ª edição dos Jogos Olimpícos, que dizia: “O importante não é vencer, mas competir!”. Foi o que Gabrielle fez. Competiu da melhor maneira que pode. Aliás, ela competiu com muito mais entrega do que qualquer outro competidor daquela Olimpíada. No auge do desgaste físico e emocional no qual se encontrava, ela conseguiu vencer mente, músculos e um corpo altamente desnutrido. Nascia ali, para mim, o maior exemplo de que tudo é possível. Mesmo quando todos – inclua seu cérebro e corpo - dizem não.

E aí? Conseguiram compreender por que prefiro Olimpíadas a Copa do Mundo? Ah! Não é que não goste do mundial de futebol. Claro que gosto. Porém, não tanto quanto as olimpíadas. Só isso!

Bem. Vamos falar de Londres 2012? Impossível falar da capital da Inglaterra e Jogos Olímpicos sem antes falar das outras duas edições que caíram no colo deles. A primeira vez que a terra dos Beatles sediou os jogos foi em 1908. A sede seria Roma, mas por conta da erupção do vulcão Vesúvio em 1906, os romanos não tiveram como receber as competições esportivas. O Comitê Olímpico Internacional (COI) procurou os governantes londrinos para saber se eles teriam interesse em assumir o tal “abacaxi”. A resposta foi SIM! Em tempo curtíssimo (20 meses) os organizadores deram conta de sediar um evento que contou com a presença de 2.008 atletas que representaram 22 países. Em valores corrigidos foram gastos a ninharia – comparado aos orçamentos atuais – de R$ 4,6 milhões.

Além da agilidade inglesa na construção de toda estrutura olímpica, outros dois episódios marcaram a edição de 1908 e que por sinal duram até hoje. Foi nesse ano que pela primeira vez um atleta entrou na cerimônia de abertura carregando a bandeira do país da delegação que representava. O outro fato que marcou a 6ª edição dos jogos, e que ainda perdura, é a distância da maratona, até então disputada em 25 milhas. Isso aconteceu quando os organizadores resolveram medir a distância entre largada e entrada do estádio olímpico – local da chegada –, descobriu-se que havia 26 e não 25 milhas. Além disso, por capricho o Rei Edward VII exigiu que a linha de chegada deveria estar posicionada exatamente em frente ao camarote dele. Resultado? A distância fechou em 26 milhas e 385 jardas – esses números convertidos para quilômetros dão os exatos e atuais 42 quilômetros e 195 metros utilizados nas maratonas do nosso tempo.

Já em 1948, a história não foi muito diferente. Helsinque (Finlândia), que seria a cidade sede, sofreu severamente com os ataques da 2ª Guerra Mundial. Adivinha quem outra vez apareceu como a solução para resolver todos os problemas do COI? Tcharan! Acertou quem pensou “LON-DRI-NOS”! É. E novamente a cidade inglesa lançou tendência e acabou sendo copiada por futuras sedes das Olimpíadas. Foi em 1948 que pela primeira vez se construiu uma área coberta para as competições de natação, batizada de Wembley Arena ela foi posicionada ao lado do místico complexo esportivo de tênis. E tem mais pela primeira vez ...voluntários foram convidados para prestar auxílio na organização das provas e na recepção de atletas e turistas. Foi também em 1948 que pela primeira vez uma emissora de TV pagou pelos direitos de transmissão de um evento esportivo – a BBC desembolsou a bagatela de 1.000 libras.

Para a realização do grandioso evento, que reuniu 4.104 de 59 países, em valores corrigidos, foram gastos naquela edição R$ 60 milhões. Se levarmos em consideração que a reforma do Maracanã para a Copa de 2014 nos custará quase R$ 1 bilhão, os ingleses gastaram em 1948 o que hoje seria – em valores proporcionalmente imaginados e corrigidos – uma corrida de táxi de Copacabana (Zona Sul) até a Barra da Tijuca (Zona Oeste). Ah! Detalhe. Mesmo com pouco tempo na preparação da cidade para a realização do evento, os ingleses conseguiram ter lucro um lucro de 29 mil libras. Não é nada, não é nada... é lucro! Não teve prejuízo. Coisa quase impossível de imaginar para RIO 2016.

Por fim chegamos em 2012! Londres será a primeira cidade da história que terá a chance de sediar pela 3ª vez uma edição do hoje chamado Jogos Olímpicos de Verão. É claro que dessa vez haverá um pouco menos de improviso. Afinal, agora a cidade teve - e tem - tempo, dinheiro (foram gastos 9,3 bilhões de libras, valor 430 vezes maior que 1948) e 70 mil voluntários. Eu disse um pouco menos. Pois, dificuldade, jogos olímpicos e Londres é um trio quase inseparável. Dessa vez foi a crise europeia. Ela tratou de dar uma amenizada nos investimentos do governo inglês. Uma das coisas que se fala é que o luxo visto nas instalações de Pequim 2008 não serão tão evidentes aos olhos de turistas e atletas. Mas é claro. London is London, baby!

A título de curiosidade: você sabia que foi em “Londres 1948” que o Brasil conquistou a primeira medalha em esportes coletivos: bronze no basquete masculino – seria um presságio? Deixamos esse assunto para a próxima coluna (pretendo publicar na sexta-feira) quando mergulharemos de cabeça nas possibilidades de medalhas que o Brasil pode conquistar esse ano. Já adianto uma “zebrinha”... o basquete masculino deve conquistar, pelo menos, o bronze. Mas não vai me assustar se conseguir algo ainda maior e mais reluzente. Sim, porque nas Olimpíadas tudo que reluz é ouro!!!!

Hasta luego!





Sexta-feira, 27.07.2012 Ele é Sir. Hémerson Mourinho Maria Guardiola

Olá, leitores! Ao ler esse texto peço para que você abstraia da sua mente as palavras 'sorte' e 'se', ok? Outro recado, essa publicação é dirigida exclusivamente para torcedores avaianos. Não é avaiano? Não vá em frente. Não passe dessa linha. Afinal, o papo aqui é coisa de quem sabe o que é torcer para o Avaí. O que eu sei de torcer pelo Leão? Sei tudo e mais um pouco. Meu pai é um Azurra daqueles.

Bem, vamos ao que interessa. Tenho conversado muito com o meu velho sobre a situação do time dele nessa Série B. Volta e meia ele me vem com a tradicional pergunta que eu mais tenho respondido em elevadores, corredores de supermercado, estádios e até em banheiro de shoppings: “Tu achas que esse Avaí tem jeito? Será que sobe?”. Minha resposta é sempre a mesma: “Olha, se dependesse da minha vontade esse time seria líder da Série A e Campeão da Libertadores todos os anos”. Mas como não depende dela (minha vontade), posso afirmar com toda segurança que caso sejam contratados 2 bons atacantes, e com confirmação da assinatura de contrato de Marquinho Paraná, esse time estará na elite do futebol nacional em 2013. Esses caras vão ser contratados? A diretoria avaiana já reconheceu a necessidade de ter essas peças. Meio caminho andado. A outra metade da estrada está na escolha deles.

Mas o que me faz ter tanta certeza que faltam pequenos detalhes para mais um acesso do Leão à elite do futebol nacional é o trabalho de Hémerson Maria. O cara sabe muito. Muito, mesmo! Enxerga o jogo como poucos. É possível notar essa habilidade do técnico avaiano quando ele mexe no time. As substituições – quando não forçadas por expulsões ou contusões – elas sempre surtem efeito. É necessário saber relevar, ainda, como é difícil fazer modificações no Avaí de hoje. Há carência na formação titular, imagine na formação do banco de reservas.

Não sou da opinião “técnico não ganha jogo”. Como não? Se assim fosse, qualquer paspalho ficaria lá na área técnica e os clubes economizariam o sagrado dinheirinho, oras. Treinador não só ganha jogo como também conquista títulos. HM é um desses “profissionais do gramado” que ganha jogos e títulos. Foi campeão estadual em 2012 depois de dar um nó tático no também inexperiente colega de ofício Branco (ex-Figueirense).

Como Hémerson ganha os jogos? Ele segue a filosofia dos principais técnicos do mundo formada por um tripé do sucesso: 1º gol, 2º defesa (principalmente com pressão na saída de bola) e posse de bola. Desses 3 ingredientes, 2 cabem diretamente ao treinador. O primeiro é o de criar mecanismos de sincronia defensiva com movimentação de volantes, laterais, zagueiros, meias e até atacantes. Tudo precisa funcionar com harmonia. Se alguém cochilar, já era.

A segunda especiaria de responsabilidade de uma comissão técnica está na formatação, posicionamento, e aproximação de jogadores em campo para permitir assim o maior tempo possível que o time permaneça com a bola nos pés. Esses dois requisitos do já citado “tripé do sucesso”, para felicidade da geral avaiana, estão incluídos no atual elenco graças ao inteligente comandante azurra.

Como justificar essas minhas afirmações? Com eles e elas! Os números e as estatísticas. Bóra?

DEFESA: A primeira é um exercício para quem vai ao campo. Se você assiste aos jogos somente pela televisão fica um pouco mais complicado de enxergar. Não é impossível. Mas fica mais complicado. Vamos lá! Todo mundo sabe que o Avaí tem dois excelentes zagueiros, certo? Aliás, a melhor dupla de zaga de Santa Catarina e uma das melhores do país, eu diria. Porém, sistema defensivo vai muito além ter 2 bons beques, né?! Tem ainda Bruno (jogador com a melhor média de desarmes na Série B – 4,9 roubadas de bola por jogo), o bom goleiro Diego, o polivalente Pirão (10º jogador com mais bolas roubadas na Série B) e o constante segundo volante Mika (2º jogador do elenco azurra que menos comete faltas). Mas o grande segredo de HM está na pressão na saída de bola do adversário. Por conta do desgaste e da exposição da equipe elas não acontecem a todo momento pois é muito desgastante. Em contrapartida, meias e atacantes do Avaí se revezam, durante a saída de bola do adversário, para fazer a defesa do oponente sair na base no chutão. Chutão dado e o que acontece? Na maior parte das vezes essa bola “espirrada” fica para o Leão da Ilha. Essa é uma das melhores formas de se construir jogadas ofensivas, já que a outra equipe está ainda em fase de arrumação da defesa. Afinal, eles estavam preparados para atacar. Além disso, essa estratégia de marcação pressão com os homens de frente liga ao próximo ingrediente presente na cozinha de Maria.

POSSE DE BOLA: Em levantamento feito recentemente descobri algo que já imaginava. Em todos os jogos dessa Série B o Avaí teve mais posse de bola do que os adversários. Inclusive nas derrotas! O time que chegou mais perto de “colocar o Leão na roda” foi o Altético-PR. No scalt desse jogo, 2 a 1 para o Rubro-Negro paranaense, foi marcado 50% de posse de bola para cada lado. Mas o Avaí leva vantagem de alguns poucos segundos. Mais uma vez quero ressaltar: essa é uma característica acrescentada ao Avaí graças a HM. O time do antigo treinador avaiano Mauro Ovelha ficou conhecido pelos chutões. Já Hémerson Maria dá preferência por sair com a bola no chão desde o campo de defesa. Não estou dizendo, também, que vez por outra Leandro Silva ou Renato Santos não enfiam um bico na bola para onde o nariz está apontado. Muito disso (posse de bola) tem a ver com aquela defesa pressão exercida por atacantes e meias no campo adversário. Quanto mais pelotas forem rifadas pelo adversário, mais tempo com a bola no pé o Avaí terá. Daí se torna obrigatória ter dois meias com bom toque e domínio de bola. Cléber Santana é um. Espera-se que Marquinhos Paraná, finalmente, seja o outro. E os gols? Quem faz? É. Esse é hoje, na minha opinião, o maior problema na Ressacada. Bóra devanear?

GOLS: Eis o sal dos ingredientes! O principal de todos os temperos. Uns usam muito, outros usam pouco. Mas ele nunca pode faltar! E hoje no Avaí não falta atacante. Eu falei certo. Não falta A-TA-CAN-TE. E sim, faltam atacanteS. Sei lá se a fase é ruim, se é deficiência técnica dos jogadores contratados, ou ainda se nesse esquema montado por Hémerson Maria eles não têm as características necessárias. As estatísticas mostram o Avaí com o 5º pior ataque da segundona com 12 gols marcados. Não bastasse isso, o Leão da Ilha também é o 3º time com menos acertos no gol na Série B. O clube carrega a péssima média de 4,5 finalizações certas por jogo. É muito pouco. Pior que isso só dois disso! E outra não dá para pôr a responsabilidade nos ombros de Laércio. Ele é um jovem com muito valor, mas precisa ser lapidado. Aliás, Carreirinha é a melhor de todas as opções para o ataque avaiano.

A posse de bola, a mais rara e cobiçada das especiarias, HM – com todas as limitações do elenco atual – criou um mecanismo para conquistá-la. Defesa também está ok. Nesse caso, méritos, também, do departamento de futebol profissional do Avaí. Contratou jogadores (Pirão, Renato Santos, Leandro Silva, Diego e Mika) com qualidade para esse setor. Coube para Hémerson Mourinho... digo... Hémerson Maria tratá-los como defensores e não beques do interior.

O acesso à Série A de 2013 está nas mãos da diretoria. É só contratar mais 2 jogadores. Quer apostar? O sucesso da carreira de Maria acho que ninguém dúvida.

Posse de bola do Avaí, nessa Série B, contra:

- BOA, empate 2x2 – 64%;
- São Caetano, vitória 1x0 – 57%;
- América-RN, derrota 1x0 – 54%;
- JEC, derrota 2x1 – 63%;
- Ipatinga, vitória 2x1 – 57%;
- América-MG, vitória 2x0 – 52%;
- Guaratinguetá, empate 1x1 – 58%;
- Vitória, derrota 2x0 – 52%;
- ASA, vitória 2x0 – 62%;
- CRB, derrota 2x0 – 55%;
- Atlético-PR, derrota 2x1 – 50% (8 segundos a mais de posse de bola. Coincidentemente – não para mim e sim para os céticos a estatísticas – esse foi jogo em que o Leão mais errou passes nessa Série B; 46);
- Goiás, derrota 2x0 – 52%.

p.s. você, alvinegro bisbilhoteiro, ficou em pânico com esse texto? seu time com um pé na segundona e o rival com grandes chances de subir. que fase, heim?! ah! eu avisei. não era para ler.

HASTA LUEGO!!!





Sexta-feira, 03.08.2012 Os números provam por que o líder é o Atlético-MG e o Figueira é o lanterna

Olá, leitores! Primeiro, antes de escrever a coluna de hoje, gostaria de agradecer os responsáveis pelos seguintes blogs avaianos: André Tarnowsky, O Meu Avaí e Pitaco Azul. Agradeço por terem utilizado e divulgado na blogosfera azurra o meu último texto “Ele é Sir. Hémerson Mourinho Maria Guardiola”. Obrigado! Fico super-lisonjeado com o tratamento dado àquele conteúdo que falava sobre a posse de bola do Leão na Série B. Não leu? A leitura vale a pena.

Bem, vamos então a mais uma análise de números e estatísticas. Certos questionamentos recebidos via Twitter me fazem correr atrás de respostas para essa bandeira defendida por mim com unhas e dentes. Qual bandeira? A das estatísticas, obviamente. Eu, ao menos, já estou bem convencido da importância dos números. Muitas pessoas, no entanto torcedores em especial, ainda resistem em aceitá-los e outras jamais aceitarão a importância dos scoults para definições de escalação, vitórias, empates e derrotas. Exclua dessa cética lista todos os treinadores de futebol do mundo, alguns poucos jornalistas e outra minguaria de torcedores. Mas voltemos aos tais questionamentos recebidos via microblog. O último que me instigou a fazer uma pesquisa, dizia mais ou menos o seguinte: “Como o Atlético-MG é líder do Brasileirão se acertou menos passes que o Figueirense, último colocado da competição?”. Primeiro de tudo: não é somente uma estatística que define o melhor e o pior time da competição, né?! Evidente que outros fatores são determinantes. Vamos a eles!

Tenho como princípio, por aquilo que leio, ouço e, principalmente, vejo, o "Tripé do Sucesso" para um time sair vitorioso de campo é exatamente essa ordem:

1º) GOL: ter um número superior de gol(s) comparado ao adversário – parece lógico, mas muitos não enxergam isso. Se o seu time não fizer mais gols que o adversário, esqueça as duas outras pernas desse tripé, descritas abaixo. Não vai adiantar cumpri-las com excelência se os atacantes são ineficazes;

2º) DEFESA: ter um sistema defensivo consistente, no qual todos marcam. Inclua todos, mesmo. Marcação pressão com a ajuda dos atacantes e dos meias ofensivos. Não por raras vezes o técnico do Corinthians Tite deu a declaração “que tem um time em que todos se defendem”. No futebol essa é a única forma de você forçar o erro do adversário. Provavelmente o oponente tentará fugir desse método defensivo dando um chutão para frente. Nesse caso, há grandes chances da bola cair nos pés dos zagueiros do time utilizador da referida tática de defesa. Ainda sobre o benefício da ajuda dos jogadores de ataque na defesa adversária, recentemente, numa entrevista dada para o Diário do Grande ABC (11/07/2012), o zagueiro do São Caetano Wágner – time com a defesa menos vazada da Série B – confirmou a mesma teoria ao dizer “A marcação tem começado lá no ataque e passa pelo meio campo. Assim, a bola chega mascada na defesa e facilita bastante”. Parece simples. Mas não é! Exige muito treinamento. Afinal, um bote mal sucedido no campo de ataque pode sucumbir num atacante livre. Famoso efeito cascata. Um errou e a corda estoura lá atrás. O mecanismo precisa de muita sincronia. Como conseguir a perfeição dessa movimentação? Com treino. Ou melhor, com muito treino e muita repetição. Mais uma vez faço questão de usar o trecho de uma declaração de Tite, treinador campeão da Libertadores 2012 e atual detentor do título Brasileiro: “Não tem novidade. É convencimento, treino, ideia de que pode trazer vitórias”. Mas como convencer atacantes de marcar? Tite, outra vez ele, dá exemplos que podem servir de discurso na preleção de nossos treinadores: “O Chelsea do Drogba vinha marcar aqui do lado. O Eto´o vinha até lá dentro do campo dele para proteger o time. Pra quê? Ele fez isso para ganhar. Vencer é bom. Uma equipe vence por qualidade e porque compete muito” (entrevista para ESPN Brasil em 25/07/2012). Um dos grandes nomes do jornalismo esportivo das estatísticas, se não o maior, é Paulo Vinícius Coelho. Muitos treinadores elogiam a forma como PVC enxerga o jogo. Ele não simplesmente diz que perdeu porque jogou mal. Ele prova com números e análise tática que nem sempre se joga mal quando a derrota é o resultado. Isso – perdeu, pois jogou mal - na verdade é uma cultura do torcedor brasileiro. Basta observar na arquibancada. Quando o time está vencendo os defeitos ficam menos aparentes e as qualidades, consequentemente, mais aparentes. Logicamente isso não é uma regra. Têm torcedores, mais atentos, adeptos da modalidade que se pode perder ao jogar bem. Falávamos do que mesmo? Ah tá! Do PVC, né? Nessa história de que defesa ganha jogo volta e meia Paulo Vinícius solta a famosa frase “marcação pressão e a bola no chão”. E é ela. A bola no chão a terceira perna do “tripé da vitória”.

3º) POSSE DE BOLA: Qual foi a maior característica do time mais celebrado da humanidade nos últimos tempos? A permanência da bola nos pés é vista por especialistas como a principal arma do Barcelona. No dia 03/05/2011 o site da ESPN Brasil, especializado em futebol europeu, publicou a seguinte informação: “Foram 175 jogos oficiais sob o comando de Guardiola, e o Barcelona nunca deixou de ter mais posse de bola do que o rival. Nos três clássicos anteriores contra o Real, o Barça teve 73,61% de posse na ida da Champions, semana passada, 72,2% no empate pela liga espanhola e outros 69,18% na final da Copa do Rei - segundo estatísticas do diário ‘Marca’”. Para manter a bola nos pés não é necessário só treinamento. É fundamental ter no elenco jogadores com excelente aproveitamento nos passes. Desde o goleiro, passando pelos zagueiros, laterais e volantes, e chegando, principalmente, nos meio campistas e atacantes. Por isso defendo com frequência aqui nesse espaço e nas redes sociais quem mais acerta passes num jogo. Ou melhor. Abstraia o que eu digo ou escrevo. Faça um exercício de memória e relembre quantas vezes já ouvistes teu treinador, seja ele quem for, defender que aquele atleta que você acredita ser tão ineficaz, afirmar: “fulano joga, pois tem um excelente aproveitamento nos passes e na saída de bola”. Saída de bola certa são sinônimos de começar uma jogada de forma correta e dar mais confiança para os outros 10 atletas.

E aí? Captou? Caso não, não hesite em enviar seu comentário e vamos nos aprofundar na discussão.

Agora é hora de descobrirmos com base nas estatísticas e nos números por que o Galo é líder e o Figueira lanterna da Série A.
Raio-x das estatísticas de Atlético-MG e Figueirense no Brasileirão 2012:

- Gols marcados: Atlético-MG 1º com 25 gols, média de 1,9 por jogo / Figueirense: 6º pior com 13 gols marcados, média de 1 por jogo;

- Defesa: Atlético-MG 1º com apenas 8 gols sofridos, média de 0,6 gol sofrido por jogo / Figueirense 4ª pior com 21 gols sofridos, média de 1,6 gols sofridos por jogo;

Notaram? “Coincidentemente” as duas principais pernas do tripé estão explicitas, também, nas estatísticas. Surpresa? Para mim não.

Vamos seguir com mais alguns números:

- Finalizações certas: Atlético-MG 4º com 72, média de 6,1 por jogo e aproveitamento de 41,6% / Figueirense 8º pior com 61 chutes, média de 4,7 por jogo e aproveitamento de 34,1%;

- Finalizações erradas: Atlético-MG 10º com 101 chutes errados, média de 4 por jogo / Figueirense 2º com 118 finalizações erradas, média de 9,1 por jogo;

- Lançamentos certos: Atlético-MG 1º com 343, aproveitamento de 46,1% / Figueirense 9º pior com 219, aproveitamento de 36,6%

- Penalidade cometida: Atlético 20º nenhuma / Figueirense 2º com 3 cometidos;

- Assistências: Atlético-MG 1º com 25, média de 1,9 por jogo / Figueirense 6º pior com 13, média de 1 por jogo;

- Desarmes: Atlético-MG 5º com 342, média de 26,9 por jogo / Figueirense 3º pior com 281, média de 21,7 por jogo;

Essa foi fácil. Agora já sabemos por que o líder é líder e o lanterna é lanterna.

Agora, nos resta torcer para as coisas mudarem no Furacão. Muita coisa precisa ser corrigida. A estrada é longa!

E aí? Gostou? Espero que sim. Até a próxima!

HASTA LUEGO!





Domingo, 12.08.2012 Cala a boca, moleque!!
Tem mãe que reclama da timidez do filho, alegando que ele fala pouco em público, que é recatado, retraído, coisas assim começadas com R. Janice daria tudo para que o seu pimpolho crescidinho tivesse essas características. Porque Luizinho, Luizinho é infernal, não tem papas na língua, diz o que pensa em qualquer situação, em qualquer lugar, não mede as consequências de nada, “tá nem aí”. Atentem só nessa para essa conversa com uma amiga da mãe dele num corredor de supermercado:
AMIGA: Oi, Janice! Fazendo compras?
JANICE: Oi, amiga!...
LUIZINHO: Não, a gente tá esperando o ônibus.
JANICE: Menino!
AMIGA: Pois é, continuo tentando perder uns quilinhos, mas não resisto a essas barras de chocolate. Cada dia tem uma novidade.
LUIZINHO: Mamãe disse que você vai virar uma baleia.
JANICE: Olha a boca!... Não liga, ele gosta de inventar coisas.
AMIGA: Imagina! Criança é assim mesmo.
JANICE: E então, como andam as coisas?
AMIGA: Bem. Quer dizer, mais ou menos. Sempre falta alguma coisa, né?
LUIZINHO: Um namorado?
Janice não teve outra alternativa pedagógica senão aplicar um sonoro beliscão no braço mais próximo do linguarudo.
- Ai! Ai! Ai! Foi você que falou isso lá em casa, droga!.
Com o pai no Shopping Center. É a vez dele, o pai, se encontrar, casualmente, com uma amiga.
- Oi, Silmara, tudo bem?
- Oi, Rodrigo, que bom te ver.
- Quem é a gostosa, pai?
- Ei, cara, que é isso? É uma amiga da academia.
- Hummm! Saquei porque você chega sempre tarde.
- Eu te corto a mesada!
- Eu não falo mais nada.
De fato não era fácil, nada fácil sair com o Luizinho. Mas pobre também da Leandra, a empregada, quando ficava sozinha com ele. Era um suplício, uma tortura. Mas um dia, que era uma noite, quando Rodrigo e Janice foram a um baile, Leandra convidou o namorado para “visitá-la”, um sujeito enorme, com cara de nenhum amigo.
- Quem é esse gorila, Leandra?
O mesmo, sem nenhuma apresentação, pegou o garoto pelo colarinho e soltou o verbo:
- Eu sou o teu pior pesadelo (parafraseando o Stalone). Escuta, moleque, tu não aporrinha mais a Leandra, para de encher o saco dela, porque eu sou bem capaz de te cortar em pedacinhos. E não pense em falar com o teu pai, nem com a tua mãe, seu montinho de estrume, pivete, coisa ruim...
Passou a ser um anjinho com a empregada. Já era um começo...




Postado por Jaime Ambrósio às 18:02 | Marcadores: Moleque   Stalone   Estrume  

Segunda-feira, 17.09.2012 Cada macaco no seu galho. Cada time no seu campeonato - Uma reflexão sobre os cartolas megalomaníacos de SC

Olá, queridos leitores! O papo de hoje pode parecer um pouco chato para alguns. Mas julguei necessário levantar tal discussão, pois quem sabe alguma mente iluminada envolvida com a cartolagem do futebol catarinense tropece com esse texto nas “www” da vida.

O lance é o seguinte (um ponto em cima outro embaixo, eu explico): desanima-me ver os dias passarem e os clubes do nosso estado cometendo seguidamente o fatal erro da não elaboração de um PLANEJAMENTO. Não, não. Não falo sobre aqueles planejamentos limitados por um organograma e com metas (quase sempre utópicas e nunca alcançadas por completo) traçadas para o fim de uma única temporada.

Esse PLANEJAMENTO ao qual me refiro é muito mais intenso, muito mais detalhado e, principalmente, muito mais importante do que qualquer pedaço de papel colado num vestiário no qual deixa claro para jogadores os desejos da comissão técnica. Aliás, uma vez feito esse PLANEJAMENTO, ele terá impacto sobre todos os outros possíveis e inimagináveis (planejamentos) que acabarão por se tornarem secundários.

Jamais vi um dirigente com ares ou visão de administrador. Tenho visto a “cartolagem catarinense” muito mais interessada em receber cumprimentos de torcedores e conselheiros do que transformar, de fato, os clubes em empresas de entretenimento. Futebol é entretenimento, ponto. Torcedor consome, ponto. Empresas com prejuízo vão à bancarrota, ponto.

É evidente. A indústria do entretenimento “futebol” tem algumas peculiaridades. Entre elas está a passionalidade dos próprios consumidores. Só pensar nesse fator me dá calafrios ver determinados dirigentes com tanto poder sobre um produto altamente combustivo. Para ter sucesso nesse ramo é preciso ser... preciso. Cirúrgico? Nem pensar. Cirurgias estão sujeitas a equívocos.

Mexer com o sentimento alheio é algo sério demais. Propaganda enganosa é crime. Vender gato por lebre dá cadeia. Porém, num país onde a impunidade é a muleta dos criminalistas e das vítimas, não é de se esperar algo muito diferente que não um empurrão com a barriga para administrar times de futebol no país de Pelé. Dirigentes prometem, torcedores acreditam, os objetivos não são alcançados e a vida segue. Semanas depois ninguém lembra mais das promessas e no ano seguinte o cartola volta, aparece em emissoras de TV e rádio balbuciando lindas e ilusórias promessas.

Não quero dizer que cartolas mentem. Não é isso. Pelo contrário. Imagino que nenhuma outra pessoa queira tanto as vitórias e o sucesso de um time quanto o “manda-chuva”. Afinal, mais vitórias = mais flashes. Dirigentes são vaidosos. Estão ali por esse motivo. Assim como quase todos os deputados e vereadores. A maioria esmagadora dessas classes é formada por homens afortunados e ávidos por reconhecimento público. 0,1% estão nessa vida por vocação.

É aí que eu queria chegar: VO-CA-ÇÃO! Não temos dirigentes vocacionados (diferente de bem intencionados) no comando dos times catarinenses. No futebol atual o amadorismo é pago dentro de campo. E o valor é caro. Dói no coração do maior patrimônio. É a tão amarga e indigesta DERROTA! Até meados dos anos de 1980 era diferente. Concordo. Mas estamos vivendo outro momento. Não há mais jogadores que jogam por amor a um clube. Eles jogam por dinheiro. São profissionais como qualquer outro. Sem dinheiro no bolso, não rola.

E todos esses problemas (derrota, torcedor chateado e atraso de salário) são reflexos da ausência daquilo que eu prefiro chamar de “PLANEJAMENTO – DNA”. Como fazê-lo? Não é nada simples. Se fosse Manchester United, Barcelona e Bayer de Munique não levariam anos para cada um descobrir qual DNA lhes pertence.

Mas o consolo é que depois de descoberto, pô-los em prática é simples.

Pois bem. Vamos partir sempre de duas premissas: “futebol é um produto de entretenimento” e o time “Y” disputa a primeira divisão do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Campeonato Catarinense, ok?

Torcedor, antes de qualquer coisa, não quer ser enganado. Falar somente a verdade com eles é a base de tudo nesse modelo de administração. Já, já você vai entender por que.

Primeiro passo para descobrir detalhes da genética do clube: qual o papel ocupado pelo time “Y” no cenário nacional? É disputar o título nacional? É conquistar uma vaga na Libertadores? É brigar contra o rebaixamento?

Respondida essa primeira pergunta é necessário definir: Quem são meus concorrentes? Corinthians, São Paulo, Fluminense, Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo? Ou Bahia, Sport, Náutico, Atlético-GO, Coritiba e Figueirense? Se os adversários consideram o time “Y” adversário ou não o problema é do mapeamento genético deles. Dane-se! O fato é: time “Y” precisa definir quem são os adversários do campeonato dele.

Com base nessas primeiras respostas é possível planejar metas possíveis. Importante: o cartola do time “Y” precisa deixar essas metas claras em qualquer discurso público. Só assim vai passar a ter mais respeito e admiração do próprio torcedor. Vender ilusão é mais fácil? Lógico! Porém, antes de vendê-la, caro dirigente, saiba que suas noites de sono nunca mais serão as mesmas.

Usar um discurso de metas com base no DNA do clube é melhor, inclusive, para os próprios jogadores passarem a compreender em qual realidade vão estar no fim do ano. Todos trabalharão com menos pressão e se sentiram menos incomodados com situações desconfortáveis. Como, por exemplo, estar na zona do rebaixamento, pois uma vez que a meta estabelecida foi não ser rebaixado, estar no Z4 é algo que já estava dentro dos planos.

Assim evita-se, também, cometer loucuras no orçamento. Consequentemente os salários passarão a ser pagos em dia e promessas de premiações (vitória por jogo ou metas superadas) poderão ser cumpridas. Afinal, numa equipe que vai lutar contra o rebaixamento ter um único jogador custando 3 vezes mais que os colegas de vestiário foge totalmente do DNA descoberto. Mesmo porque futebol é conjunto. Não é um único atleta que vai fazer toda a diferença. Existem exceções? Sim. Mas uma empresa de “DNA humilde” não pode correr riscos com grandes investimentos.

Existem vários clubes da Europa que assumem o papel de coadjuvantes e tem total apoio dos seus torcedores. E, coincidência ou não, esse apoio veio após eles assumirem o status de inferioridade diante de rivais tão poderosos. Cito aqui casos como o Sevilla na Espanha e o Napoli na Itália. Ambos entram com metas definidas desde a primeira rodada dos respectivos campeonatos: conquistar acesso à Liga dos Campeões (no primeiro mapeamento genético era não ser rebaixado).

Ou seja, eles reconhecem a inferioridade diante de rivais como Barcelona, Real Madrid, Juventus e Milan. Com base nisso eles evitam gerar qualquer tipo de atrito interno ao cruzar o caminho desses gigantes europeus. Jamais uma derrota do Sevilla para os madridistas será dolorida para os fanáticos pelo “Submarino Amarelo”. E os jogadores entram para perder? Claro que não! Os atletas do Sevilla estão loucos por um contrato com os “Merengues”. Sem a pressão da torcida e da diretoria fica muito mais fácil, inclusive, de surpreender os “Galácticos”.

Aí, em caso de vitória do primo-pobre veja só a cadeia positiva ($) que isso gera: o jogador destaque passa a chamar a atenção dos cartolas abonados da Europa. O dito “craque por um dia” do Sevilla, dentro da política do clube, foi adquirido de um mercado menos inflacionado, por um valor bem abaixo daquele vivenciado pela dupla Barcelona e Real Madrid. Logo, poderá ser possível fazer um bom dinheiro para pôr em caixa. Gastar a grana com outra contratação cara (medalhão)? Nem pensar. Eles investem nas categorias de base. De preferência aumentam o alojamento da molecada. Com isso as chances de achar uma nova pepita ficam maiores!

Sonho o dia em que poderei ver os times catarinenses geridos por administradores e com o mapeamento genético definido e, principalmente, compreendido e aceito pelos torcedores. Somos pequenos. Um dia, quem sabe, poderemos ser grandes. Mas para isso antes precisamos reconhecer nossa inferioridade.

Amigos... futebol é uma indústria.

Fábrica de sonhos? Não! Ou melhor... pensemos nelas só em padarias. Essas sim fabricam sonhos invejáveis e com propriedade singular.

HASTA LUEGO!!!

(Gustavo Bossle é jornalista - sim, formado - desde 1999. Apaixonado por esportes. Principalmente por basketball, futebol e ciclismo. Ah! Também prefiro Jogos Olímpicos a Copa do Mundo.)





Sexta-feira, 20.05.2011 AS PERIPÉCIAS DA MÃO DESGOVERNADA

Agostinho descobriu, depois de alguns micos, que sua mão direita tinha vida própria. A certeza veio na festa de dez anos da empresa. De repente aquela “extremidade, articulada com o antebraço pelo punho e terminada pelos dedos” (Dicionário Houaiss), começou a “conduzi-lo” para certas direções em meio a um formigueiro de gente quase-bêbada. Todo mundo de pé, curtindo o pagode da rapaziada, ao vivo; todos se divertindo de um jeito ou de outro. Ele lá no meio, ultrapassando um aqui, atropelando outro mais à frente, esbarrando em meio mundo. Até que, finalmente, chegou onde “Ela” queria. Mas Perai!...
A tal extremidade articulada havia parado simplesmente no grupinho da diretoria. Então Ela sossegou por alguns segundos, restabeleceu-se e indicou o alvo, um belo e agitado par de glúteos. Mas não era um bumbum qualquer; era o indiscutível bumbum da mulher do chefe. Agostinho não teve outra saída a não ser segurar, com a mão esquerda, o ímpeto d’Ela, a mão direita. Mas quem disse?! Era uma força descomunal, irrefreável, algo suicida, próprio de quem não tinha nada a perder. E não foi apenas uma passada de mão, foi uma mãozada de troglodita, uma insistente checagem in loco pra não deixar nenhuma dúvida.
- Agenor???!!!
O espanto dela foi porque o marido nunca havia feito algo assim, com tamanho furor, nem em casa, muito menos em público. Só então percebeu que o Agenor estava um pouco afastado, livre e solto. E a tal mão continuava grudada. A cena que alguns viram (inclusive o Agenor) foi esta: Agostinho, o rapaz da Informática, com a mão direita inspecionando o traseiro de Clarisse ( mulher do temido diretor de vendas), e com a esquerda segurando o pulso direito, tentando fazer parar aquilo. Com muito esforço o pobre rapaz encrencado conseguiu dominá-La.
- Não fui eu, juro! (e com o indicador da mão esquerda apontava para Ela, que, cinicamente, fazia gestos de que não tinha nada a ver com aquilo).
Agenor, na obrigação de fazer alguma coisa, tentou agarrar o funcionário tarado pelo colarinho, mas a insurgente mão de Agostinho o impediu com um empurrão que derrubou outras três pessoas. Os seguranças vieram, sem muita conversa, e arrastaram a mão quase-assassina para fora, trazendo junto o seu dono.
Sorte Agostinho não ter ido parar na delegacia. Mas pegou, claro, uma justa causa sem acordo para retirar o FGTS. E agora, Agostinho? Não iria querer ser jogador de basquete (um novo Mão Santa?), nem assaltante de banco à mão armada (por causa da concorrência excessiva), muito menos político que passa a mão no dinheiro público. Era um cara do bem, embora fosse escravo da mão direita.
Em casa deixou-A amarrada na cabeceira da cama durante uma noite inteira, só a liberando na hora do aperto para irem ao banheiro. Como resposta Ela se negava a cooperar, deixando o encargo para a sua colega da esquerda.
Depois de fazer acupuntura (recomendação de uma amiga) e umas sessões de análise com uma psicóloga de corpo, parece que Ela voltou ao normal. De qualquer maneira Agostinho passou a andar com um par de algemas, deixando uma argola presa no cinto, outra aberta, para prender a mão boba, caso Ela “pensasse” em alguma atitude inconveniente





Postado por Jaime Ambrósio às 15:26 | Marcadores: Fgts   Mão Santa     

Sábado, 06.08.2011 Um espirro no trânsito

Em qualquer lugar ou situação ele é um atraso de vida, com sua repetência irritante e seu borrifo escandaloso. Já houve jogador de futebol com torcicolo, velhinha que perdeu a perereca (voou), e até cabra macho que terminou a empreitada antes do tempo, sobressaltado. Já, amor?

Mas no trânsito a coisa pode ser ainda pior. Um espirro não mede as conseqüências mecânicas. Paulo Alexandre (professor de português de cursinho) dirigia o carro com a calma de sempre, cuidadoso, diminuindo a velocidade na faixa de pedestres, deixando a moça bonita passar, também o velho carregando a sacola de compras. A rigor, um bom motorista. Mas aconteceu, e a gramática não explicou. Maldito resfriado! O espirro veio incontrolável, absoluto como Deus. Não deu tempo de tirar o pé do acelerador, pelo contrário, o motorista atordoado pisou ainda mais fundo. Pá-plac!, a onomatopéia da barbeiragem.

Desceu do carro, desceram; tentou se desculpar, dizendo que o problema foi o espirro. O quê? Espirro? Isso mesmo (irônico, para disfarçar o nervosismo): esternutação (?), jato, esguicho, borrifo, expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada por irritação na mucosa nasal.

Antes de a vítima, do trânsito e do léxico, tentar uma reação chula e braçal, o PM interveio.

A vítima: “Não quer explicar ao guarda o negócio do espirro?”

Paulo: “Que espirro?”

O guarda: “Não explica nem justifica, bateu atrás é culpado”.

O professor descansou a gramática, de nada adiantaria dizer ao policial que a culpa foi de um espirro autoritário, inculto. Ora, bateu atrás o seguro paga, conformou-se. Aliás, deveria haver, isso sim, um seguro contra espirro. Por que não? Acertou os conformes e entrou no carro, que agora teria que ficar alguns dias parado na oficina. Tudo por causa de um espirro lazarento...Então parou numa farmácia e comprou uma tonelada e meia de vitamina C efervescente, aspirina, antigripal e outros medicamentos que previnem acidentes de trânsito.





Postado por Jaime Ambrósio às 23:51 | Marcadores: Léxico   Borrifo   Esternutação   Mucosa   Lazarento     

Quinta-feira, 23.06.2011 O rasgador de passado

(Para Natália Alcântara, insaciável devoradora de livros)

O livro se esvaindo folha a folha. Conforme a leitura avançava, rumo a um longínquo e aguardado desfecho, ele, o impotente livro, ia minguando, desfigurando-se enquanto suporte literário tradicional. O leitor, João Casimiro, tivera a idéia ao perceber que as primeiras folhas do romance estavam soltas, a cola ressecada não as segurava mais. Ora, era mesmo um livro de sebo, já amarelado pelo tempo que a tudo desgasta, já percorrido tanto por tantas mãos, tantos olhos tristes e solitários, curiosos, vadios. Então fez assim o João: cada folha lida ele a desprendia do livro, ele a jogava fora. Desta forma ficava descartada a necessidade do marcador de página. A próxima página, aliás, era sempre a primeira folha. João, o extirpador de folhas.

Em casa não havia problema nenhum, era só amassar a folha e jogá-la na lixeira da cozinha ou do banheiro. Na rua um pouco mais complicado, pois tal atitude poderia suscitar alguma reação inesperada, olhares curiosos, censuráveis. Dentro de um ônibus (João gostava de ler nos ônibus, enquanto o trânsito virava caos) uma senhora professoral percebera o gesto radical dele, mesmo que dissimulado.

- Muito feio isso que o senhor fez. Destruir livros é como rasgar verdades e sonhos.

João queria dizer, mas não disse, que um livro é uma mercadoria como qualquer outra, é comercializado, consumido, gera lucros, notadamente para as editoras e o governo. Que este, senhora, era apenas um exemplar, velho, encardido, barato; que há milhares deles por aí, que a obra já está eternizada.

- Ao invés disso por que o senhor não faz uma doação a uma biblioteca? Por que o senhor não repassa o livro para outra pessoa?

João queria fazer o mesmo com a mulher, mas não fez: arrancar cada parte do seu corpo como se fosse uma folha do livro. João, o estripador de senhoras. Um bom título. Não. Mas por que certas pessoas tem tanta pressa em julgar as outras?, em determinar um juízo de valor a partir de avaliações superficiais? João, o filósofo de butequim.

Na fila do banco ia colocando as folhas no bolso, com várias dobras. Fila de banco é bom para ler, faz o tempo passar enquanto o banqueiro ri à toa. O livro assim, minguando. Num banco de praça foi vítima de uma estranha cena de violência. Era uma noite mal-iluminada, de lâmpadas quebradas, e não havia por perto nenhuma lixeira. Então João amassou a folha e a jogou no chão. Amanhã o gari a apanharia. Mas o bandido armado, que assistira àquele pequeno espetáculo, apontou o revólver para a cara de João e o obrigou a mastigar e engolir aquele bolinho de papel. João não reagiu, apenas obedeceu à ordem, posto que não se deve contrariar uma arma carregada. E até entendeu a reação daquele “elemento de alta periculosidade”: assim como a polícia, bandido também procura descontar a raiva em alguém. Outra situação inusitada ocorreu no banheiro de um bar qualquer, pra não dizer de esquina, João constatou a falta óbvia de papel higiênico. Já era tarde, tinha iniciado o expurgo de si. Teve que fazer uma espécie de leitura dinâmica para liberar várias folhas, alguns parágrafos de grande utilidade prática.

Enfim o último capítulo!. Um livro reduzido à capa, contracapa e duas folhas. João estava na praia, não havia sol e ventava. Queria isso mesmo: ficar só, introspectivo, contemplando os barcos na linha do horizonte. Um pouco assim como o personagem do romance, que se fechou em si, isolando-se numa ilha depois que perdeu a mulher que amava por conta de algumas fraquezas. João sobe numa pedra do costão, quer tranqüilidade para ler o final do livro, já definhado. Abre-o, um tanto impaciente. Mas as duas folhas estavam soltas e uma lufada de vento, acompanhando a onda que arrebentou na pedra, levou-as mar adentro, formando no ar duas pequenas gaivotas alvoroçadas. De certa forma João já sabia qual era o desfecho da história. Guardou na mochila a capa desprovida de conteúdo e foi caminhar na areia. Agora era preciso pensar nos próximos capítulos da sua vida, preparar, talvez, um final feliz... João Casimiro, o homem que rasgou o passado.





Postado por Jaime Ambrósio às 13:35 | Marcadores: Introspectivo   Extirpador  

Domingo, 13.11.2011 Sagu de Malbec

Edna queria fazer sagu com vinho tinto. Mas não tinha Sangue de Boi ou Canção ou qualquer outra marca mais “apropriada” para essa iguaria. Então pensou que poderia abrir uma daquelas garrafas que o marido, o Joel, trouxera da Argentina. Como não conhecia nada de vinho, ou quase nada, pegou um Malbec que estava mais à mão e jogou na panela para ferver. Colocou cravo, açúcar e tudo o mais que a receita pede. Depois de pronto, devidamente frio, foi provar, e constatou que o sagu ficou uma grande porcaria. Tudo por causa daquele vinho argentino de quinta categoria, sentenciou ela.
Joel, à noite, resolvera abrir uma garrafa, para brindar alguma coisa lá do trabalho, e percebera, então, a falta do Malbec aquele.
- Edna, cadê o Alamos, o Malbec Gran Reserva? Você bebeu sozinha?
- O quê, nego? Um vinho ruim daqueles, que estragou o meu sagu? Se fosse um Campo Largo, docinho, ainda vá lá.
- Edna, era um vinho fino, safra 2005, de Mendoza, no pé da Cordilheira dos Andes, tipo exportação, uma delícia. E você colocou no sagu, naquelas bolinhas de isopor sem gosto nenhum?
- Que ficou uma droga, por sinal. De tão bom que era o vinho...
- Jesus!... Escuta, Edna, esse tipo de vinho não é pra fazer sagu, nem Cuba, nem Porta Aberta, nem nada disso. É vinho pra beber, saborear cada gole, é praticamente um alimento pra alma...
- Me digue uma coisa: onde é que o senhor aprendeu tanto sobre vinho? Tô te estranhando. Sim, porque no começo, quando a gente casou, era só vinho de garrafão: Garibaldi, Vô Luiz, aqueles de Nova Trento, muito do bom por sinal. Agora só quer vinho de garrafa, que tu diz que é coisa fina. Como é que tu mudasse o gosto!
- Ué, nas viagens da firma lá pra Argentina, lendo sobre vinhos, conversando, degustando.
- Conversando com quem? Degustando quem, Joel Francisco? Por acaso bebesse com alguma leona do tal time do hóquei, aquelas lá do Pan, hã?
- Quem me dera!!!
- Quem te dera, safado? Dou-te é com o blackberry nos cornu, como diz a minha amiga Karla lá do Campeche. Cretino!
- Calminha, doce de uva. Que tal a gente sair hoje à noite, comer pizza, num rodízio, beber?... Talvez um Campo Largo bem docinho, heim?...
- É, por que não? Vamos sair, sim, mas também mudei um pouco o meu gosto. Tem um restaurante novo, muito bom, de sushi, chique do úrtimo, bem. Eles servem inclusive o tal do caviar, sai um pouco mais caro, mas vale a pena. E tem um champagne lá da França, nego, Moet-não-sei-das-quanta, que é bem melhor que a Sidra do Revéillon, menos doce, claro. Vê se não esquece o cartão de crédito, porrrr favor...
- Edna Moreira!!....





Postado por Jaime Ambrósio às 00:21 | Marcadores: Malbec   Cordilheira Dos Andes   Garibaldi  

Segunda-feira, 18.07.2011 Dona Marta e as baratas

A dona de casa pegou um chinelo para matá-la. Desistiu. Só de imaginar o impacto do golpe, aquele som crocante da morte, a massa disforme grudada na sola, uma pústula de odor inconfundível, só de imaginar o estômago embrulhava. Então apanhou o spray, arma química letal, mas de efeito um tanto lento. Agitou o frasco. Estava pronta. Apontou para aquele inseto nefasto, odiado por todos os credos, cores e ideologias.
- Covarde!
- Heim?! Quem falou?
- Eu, a barata indefesa.
Podia ser um sinal de loucura, ou algo dentro do suco de laranja industrializado; mas também podia ser uma nova realidade cósmica, um realinhamento biológico, qualquer coisa assim que vem nessas revistas. Por via das dúvidas dona Marta (que deu origem ao verbo "martar") decidiu prosseguir com o diálogo.
- Baratas não falam.
- Vocês é que não ouvem o que elas dizem.
- Ok, mas vou borrifar o seu corpinho nojento do mesmo jeito.
- Covarde!
- É a lei da sobrevivência, filha.
- Não me chame de filha, ser humano asqueroso!
- Olha quem fala! A própria cara do asco, do nojo, da repulsa (dona Marta conhecia muitas expressões, lia bastante, fazia palavras-cruzadas...)
- Assim somos aos olhos frágeis de vocês. Mas assim são vocês pelas atitudes diárias aqui na Terra. Quer que eu cite alguns exemplos, ô exterminadora de araque?
- Era só o que me faltava, uma barata PHD em filosofia! Não precisa citar exemplo nenhum, eu vejo os noticiários. Mas ocorre que não dá pra generalizar. Tem pessoas de bem...
- Bingo! Chegou onde eu queria...
- Bingo é coisa antiga...
- Se não dá pra generalizar como é que vocês querem acabar com toda e qualquer barata? Genocidas!!!
- Acontece que vocês baratas são todas iguais, provocam medo e repulsa, aquilo tudo que eu já falei.
- A recíproca é verdadeira. No entanto não saímos por aí matando humanos. Aliás, nem é preciso.
- Porque não conseguem.
- Porque não é da nossa índole. Vou lhe mostrar uma coisa...
Bateu as asas sem sair do lugar e soltou um silvo agudo. Logo o apartamento ficou cheio de baratas, milhares, milhões.
- Elas podem atacar agora, com um simples gesto meu. Elas podem devorar todo esse teu corpinho flácido. Baranga!
- Covarde!
- E não adianta rodox, mortox, botox, Venenox... “porque se mata uma nasce outra em seu lugar”, já dizia o grande Raul ao referir-se às moscas. Nós estamos de olho em vocês, humanos!
Em seguida a barata dá outro sinal e as companheiras de estirpe somem pela janela afora.
- O que é que você quer?
- Nada, só quero que sejamos "amigas".
- Quais as condições?
- Que eu possa andar por aqui à vontade, subir nos móveis, na televisão, dormir dentro das panelas vazias, nas gavetas, no bolso de algum casaco...
- Nunca, eu abomino baratas!!!
- E eu não suporto humanos, argh!
Dona Marta agita novamente o spray; a barata convoca novamente a turma...
(Cada leitor do site pode imaginar o final que quiser, mas é apenas mais um "round" nessa "luta pela sobrevivência")





Postado por Jaime Ambrósio às 21:47 | Marcadores: Spray   Round   Genocidas  

Terça-feira, 01.05.2012 A velhinha hipocondríaca

O Adelino da Farmácia até que não precisava reclamar, afinal, a dona Lindaura, velhinha entrando na casa dos 80 (embora morasse em apartamento), era sua melhor cliente. Se todos gastassem como ela seria uma beleza. Mas a danada era assim, como dizer?, muito perguntadeira, e sem papas na língua. Isso trazia um certo "desconforto" para os clientes que não a conheciam.

- Seu Adelino, amanheci com uma coceira estranha hoje.

- Que coceira? Aonde?

- Coceira que coça, ô infeliz! Lá atrás, nas divisórias.

- Tá bem, tá bem! A senhora vai levar uma pomada...

- Mas não é ardida, né? A minha pele é muito sensível, como a de um bebê. Sem contar que é numa região muito perigosa, seu Adelino.

- Sei, sei. Mais alguma coisa?

- Comprimidos.

- Pra que?

- Pra dor, né? Pra que que seria? Já passei dessa fase, Adelino! Só não sinto dor no cabelo e nas unhas. Me vê aí alguma coisa diferente.

Ou seja, a velhinha tinha mania de doença. No dia seguinte lá estava ela de novo, batendo o ponto.

- Adelino, tu não acreditas! A coceira passou...

- Que bom, dona Lindaura! Que bom!

- Passou pros braços agora. Jesus, que agonia!

Não dava para não rir, mesmo assim o farmacêutico tentou demonstrar um ar sério e mandou a velhinha ao médico, que fosse fazer uma consulta, que voltasse depois com a receita. Para não perder a viagem dona Lindaura pediu uns efervescentes com gostinho de frutas.

- Pra minha azia.

No geral os médicos diziam que ela estava bem, principalmente levando-se em conta a idade avançada dela. Dona Lindaura ficava braba, dizia que eles não sabiam de nada, que a cabeça doía sempre, que não conseguia comer direito, que as juntas incomodavam, que faltava ar quando dormia. Os filhos, que pagavam dois planos de saúde para a velha, não agüentavam mais tanto médico, mas mãe hipocondríaca também é mãe, e assim faziam os desejos dela.

- Então, dona Lindaura, a senhora procurou um especialista pra ver que coceira era aquela?

- Não, porque a coceira passou.

- Passou pra onde, agora?

- Sumiu. Mas comecei a tremer um pouco nas mãos. O doutor disse que é normal, que pode ser dos nervos. E eu lá sou nervosa? Mas me diga, Adelino, tens alguma coisa pra isso?

Já estava na hora de dar uma liçãozinha na velha. Então entregou um laxante forte, dizendo que era um remédio indicado para tremedeira. Devia tomar duas colheres das de sopa nos próximos dois dias. Voltou uma semana depois, minguada, abatida.

- A tremedeira diminuiu, Adelino. Mas preciso de uma pomada pra assadura. Não sei o que me aconteceu nesses dias. Alguma coisa que comi...





Postado por Jaime Ambrósio às 14:12 | Marcadores: Papas   Perguntadeira   Laxante  

Quinta-feira, 22.03.2012 Ó-lhó-lhó, as pontes sumiram!


Algo de muito sério e misterioso estava acontecendo na Terra, essa nossa casa deveras negligenciada (por eu, tu, nós e “eles”, as “otoridades”, como diz o comentarista). Em várias partes do mundo registrou-se, ao mesmo tempo, mas não ao vivo e via satélite (por algum problema), o desaparecimento de grandes obras e objetos do patrimônio público. Em Washington foi a Casa Branca (com o presidente e alguns asseclas dentro); em Buenos Aires a estátua de Carlos Gardel e, para desespero ainda maior dos hermanos, a camisa de Maradona na Copa de 86; em Londres foi o Big-Bem; em Paris, claro, aquela torre metida a besta; no Paraguai... no Paraguai?!...; no Oriente Médio algumas pirâmides e duas odaliscas; na China a antiga muralha que pode ser vista até de Marte, mas que eu nunca vi; no Rio o Cristo. O Cristo?
Flori(p)anópolis, no sul mágico do Brasil, amanheceu... - Que é isso? – sem as três pontes. As três, sim, inclusive a “Velha Senhora”, que virou cartão postal, adoeceu e espera há muitos e muitos anos pelos medicamentos eficazes, muitos deles vindos do exterior. Parece que agora o remédio vai chegar… A população, logo que soube da novidade, ficou dividida entre o pasmo e a crendice. Os mais afoitos logo trataram de fazer alguns comentários sobre o inusitado “fenômeno”.

CIDADÃO AVULSO 1 – Sinais dos tempos, em que não haverá mais estradas sobre as águas e o mundo se dividirá em duas partes antes da explosão final.

RATO (que na verdade é um sonoplasta) – Eu não disse, Jaime?! Eu não disse?! É o fim do mundo. Mas vocês riram, você e outros...

DONA MARIA DA CAIEIRA – Ólho-lhó-lhó! E num é que o mári inguliu as pônti gêmea e também a enferrujada, aquela de bunito?! Agora é que as vaca vão pro brejo.

RONÉRIO SILVA – Sempre fui a favor do transporte marítimo de passageiros, talvez agora me entendam...

GERMANO – Resta sabê se os ônibus tão preparado pra andá sobre o mar sem afundá.

CIDADÃO AVULSO 2 – Precisamos de pontes que liguem o homem ao Criador do homem.

RATO – Eu falei...

ZEZINHO DO MORRO ALTO – Eu vi, tava indo pescá na passarela da ponte que vem, era bem cedinho, inda escuro. De repente, uma luz no Céu, grande, que puxou todas elas. Parecia um filme que eu quase vi lá em casa.
Era um sábado, e um rebuliço bem maior que o apagão ou a Novembrada. Um caos. Claro que alguns nem ligaram, afinal, não teriam que se deslocar pro trabalho, tanto de lá pra cá, quanto daqui pra lá. Mas outros precisavam atravessar aquele pedacinho de mar perdido na terra, como a turma do Continente, que queria ver o campeonato de surf na Joaquina; ou os jogadores do Avaí (e seus torcedores mordidos) dispostos a ganhar a revanche. Ora, acontece que tudo foi cancelado, até o jogo do bicho na Banca do Mané. Claro que os donos de barcos não perderam tempo. A preços exorbitantes começaram a transportar os habitantes mais apavorados. Neném, que não era o da Costeira, foi fazer o mesmo, com seu barquinho acanhado.
- Num pódi é batê um vento súli!
E assim prosseguiu o drama dos ilhéus e continentais, até o sono derrubar os que ainda conseguiam dormir. No meio da madrugada, quando a balbúrdia havia serenado, eis que a três pontes retornaram à Terra, ou seja, ao mar. Misteriosamente. Florip(a)nópolis amanheceu em festa, era domingo de sol. Mas o que apenas alguns perceberam, de imediato, provocou, depois, um espanto geral: a Hercílio Luz, a Velha Senhora com dores lombares, ficou exatamente entre as duas pontes de concreto.
E assim quase tudo voltou ao seu lugar. Em Nova Iorque, por exemplo, a Casa Branca estava lá de novo, mas o presidente, o presidente não tinha voltado…





Postado por Jaime Ambrósio às 16:56 | Marcadores: ó-lhó-lhó   Novembrada  

Quinta-feira, 17.03.2011 O mão-de-vaca

O cara, decididamente, era único - a personificação perfeita do mito de levar vantagem em tudo. Certo, Gerson? Mas o sujeito atendia pelo nome de Adroaldo e o único cruzamento que sabia fazer era aquele da sinaleira, para atravessar a rua e chegar, inteiro, até o Bar do Valdir. Mão-de-vaca de carteirinha era era dono de várias pérolas do anedotário popular ali do bairro.
- Vamos ver o Figueira hoje no Scarpelli, Adro?
- Só vejo no meu radinho de pilha, que não cobra ingresso.
No boteco era assim: pedia uma pinga misturada com amargo e bebia em goles de papagaio, apenas molhando os beiços. Depois de quase uma hora pedia uma cerveja, de latinha. Gelada, heim, Valdir. E lá ficava, dando um gole, reclamando dos políticos.

- A cerveja vai esquentar, Adroaldo!
- Melhor, assim dura mais.
Gostava de comprar frutas e legumes no Cestão Popular, que tinha preço único e uma grande variedade. Mas gostava, sobretudo, porque conseguia comer bananas, goiabas e tangerinas sem pagar. Enquanto todos procuravam os melhopres produtos no menor tempo possível, Adroaldo, muito calmamente, ia colocando uma fruta na sacola plástica e outra no estômago. Ninguém reparava, nem os funcionários, que tinham mais o que fazer. Por fim ia pra casa com um quilinho de coisas na sacola e uma pança abarrotada.
- Tô colaborando pra diminuir o desperdício depois.
- Mas como deu pra perceber, tinha uma coisa que ele não economizava, o papo. Eta cabra que gostava de jogar conversa fora! Tinha resposta pra tudo e mais um pouco.
- Tua sorte, Adroaldo, é que o governo não cobra imposto de quem fala pelos cotovelos.
- Por enquanto, por enquanto. O negócio é aproveitar bastante agora.

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Postado por Jaime Ambrósio às 10:20 | Marcadores: Scarpelli   Gerson     

Sábado, 17.12.2011 Crônica de um Papai Noel banguela

José, que não era carpinteiro, mas sabia consertar coisas, estava desempregado e gordo. Nos útlimos dias as refeições eram feitas, invariavelmente, de macarrão barato, algum molho, pão e limonada. Além dele tinha a esposa, que se chamava Maria, dois filhos em crescimento e um outro em gestação, querendo rebentar num dia desses.
José fazia uns bicos para garantir o mínimo que não podia faltar, mas faltava muito, e o natal estava chegando. José sempre dera presentes para os filhos e para Maria. José, e agora? Nem poderia fazer como o seu pai, que lá pelo mês de outubro recolhia os carrinhos de madeira que dera aos filhos e os pintava de outra cor. Depois, no natal, entregava-os novamente. As crianças imaginavam que estavam recebendo brinquedo novos. Agora tudo era de plástico, não dava pra pintar, e José nem faria uma coisa assim.
Então, o então sempre permeia a vida. José soube de um concurso de Papai Noel. Inscreveu-se cheio de esperança, afinal tinha barriga grande e sabia ser divertido. Mas quando sorriu foi desclassificado: era sem dois dentes na frente, justo na frente. Claro, o shopping não iria contratar um Papai Noel banguela.
José sentado numa pedra à beira do caminho. José chorando seu drama, seu infortúnio. Então lembra das plavras sábias de Maria: depois da provação vem a recompensa, é precso ter um pouco de calma. Até quando, Maria? José que não bene nem fuma, que não é violento e nunca pensou em roubar; nem matar. Agora ali, pensando que pode fazer qualquer coisa, boa ou ruim. Então (o que norteia a vida) uma caminhonete para. O homem na direção está vestido de Papai Noel e pergunta se José não quer ser seu ajudante, ganhar uns trocados. O homem se apresenta, diz que é rico, que vai distribuir presentes lá no Morro, mas que não quer ser reconhecido, por isso precisava de um estranho. José aceita, entra no carro. Ainda tem tempo de olhar para o lugar onde estivera sentado. Vê outra pessoa lá, que sorri, na pedra. José pensa que talvez seja um anjo de Deus. Aquele homem à beira da estrada acena.
Como se fosse um mercador de sonhos José entregava um presente e recebia um sorriso largo, quase uma gargalhada de criança. Mesmo assim seu pensamento era distante. Quando faltava apenas um saco para ser distribuido o homem da caminhonete diz que a jornada chegara ao fim, que aqueles últimos presentes eram para os filhos de José. E deu-lhe também a roupa de Pai Noel e um cartão. Era só procurá-lo que ele lhe arranjaria algum emprego. Precisavam de montadores na fábrica de móveis, poderia ser um bom começo. Era véspera de natal. O homem gordo de vermelho e longas barbas postiças bate à porta da casa de José, que não se encontra. Maria, muito gorda também, o recebe. Ele entrega presentes para cada um, muitos presentes, e sorri com a boca banguela, desprovida de dois dentes dianteiros.
- Papai?
- José?
No dia seguinte nasce Jesus, o terceiro filho de José e Maria.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:52 | Marcadores: Banguela   Limonada  

Quinta-feira, 20.01.2011 O Problema do Côco

Podiam falar mal dela, mas que falassem bem, ou seja, de acordo com a concordância gramatical. Não admitia os erros “básicos”, nem o excesso de gírias. Tá ligado?

Podiam cobrar caro pelos produtos que ela consumia, mas pelo menos que anunciassem os preços corretamente. Xuxu? Só faltava um anúncio do DVD da Chucha... Embora, refletiu ela, alguns etimologistas aceitem as duas grafias do legume. Mas o que mais deixava a professora Analice à beira de um ataque de nervos gramatical era o controvertido COCO, cuja água é light, mas cuja polpa tem excesso de caloria. Vai entender a natureza! Gente, pelo amor de Deus! A palavra é paroxítona terminada em O, portanto, não leva acento. Se nem isso sabem escrever certo, então o melhor é irem catar coquinho.

Era viúva e viu a uva. Gostou. Mas estava sozinha e numa espécie de TPM prolongada (Lembram da Melina?). Portanto, que não a provocassem com falhas gramaticais estúpidas. A irmã, Analúcia, preocupada com aquele diagnóstico, trouxe-a para passar o Natal e o Revéillon na casa de praia, em Floripa. No caminho da rodoviária até o balneário Analice descobriu um cartaz promovendo o espeto corrido da CHURRASCARIA do ZÉZINHO, com acento onde não devia. Senta, e espera!

Analice na praia. Guarda-sol, cadeira, óculos escuros e fator 30. Quando viu uma barraca já começou a sentir um arrepio. “Já sei que vou me incomodar hoje.” Tentou se manter calma. Mas sentiu sede e a bebida mais recomenda era água... de coco. Foi comprar, resoluta. Não deu outra, já na primeira barraca: CÔCO GELADO. Jesus Cristo! Na segunda, idem...; idem na terceira. E ela indo.

Finalmente!... Nem tudo está perdido na pátria do improviso! Detestava frases rimadas. Mas, tudo bem.

- Por favor, uma água de coco!

- Pois não, madama!

- É hoje! Quanto?

- Três real.

- Primeiro: o correto é: três reais. Segundo, não existe “chapeuzinho” aqui no primeiro Ó do coco.

- Então é aqui no segundo? – apontou o pobre vendedor.

A professora, que tinha a obrigação ética de explicar a correta ortografia, perdeu as estribeiras.

- Exatamente!

E saiu, bufando. Iria tomar uma coca-cola ( normal) que a Analúcia trouxera na bolsa térmica.

- Que ódio!

Pra complicar, ou não, ainda ouviu o vendedor de picolé comentar com um colega: Eta coroa boazuda! O dia, enfim, não estava de todo perdido. Analice até esboçou um sorriso.

Eu, heim! É ruim.





Postado por Jaime Ambrósio às 12:02 | Marcadores: Problema   Côco   Jaime Ambrosio  

Domingo, 13.05.2012 MPB - diálogo de conquista


O vendedor de sempre oferece as rosas de sempre e faz graças ao inventar amores. Paulinho, num canto, é calado. Jaz assim há muitas noites, ali mesmo, naquela mesa consagrada. Passa o tempo tentando decifrar as palavras que brotam nos olhos dela, a moça que serve todos, que traz bebida e um certo perfume sedutor, que também fala pouco, apenas o suficiente para poder anotar os pedidos no bloquinho. Paulinho a deseja por causa daquela boca úmida e misteriosa, mas não só por isso. Talvez ela saiba dessa verdade oculta, que se torna visível quando a MPB invade o ambiente e sonoriza as falas dos casais.

Então, como num louco ensaio amoroso, os dois, que sabiam um do outro apenas o nome, criaram um diálogo suspeito através das músicas que bailavam em suas cabeças.

- “Olá, como vai?”
- “Eu vou indo e você, como vai?”
- “Tudo bem, eu vou indo, correndo...”

Foi assim no começo, como num sinal fechado. Ela com pressa, porque lhe pediam tequila com limão e sal. Ele até feliz, recebera um pouco de atenção e algumas meias-palavras. Bebeu mais uma taça de vinho e arriscou uma vida inteira numa única frase.

- “Precisamos nos ver por aí.”
- “Pra semana, prometo, talvez nos vejamos”

Era mais do que poderia esperar. E assim, a cada pequena pausa no atendimento, o diálogo dos dois ia tomando outros rumos, outras canções surgiam.

- “Que nobreza você tem, que seus lábios são reais?”
- “Que queres tu de mim?”
- “Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer. Eu amo você, mas não sei o que isso quer dizer.
- “A gente sabe o que é amor quando um simples beijo queima o coração, um sorriso, um olhar, um toque, um aperto de mão.”

Era preciso pensar além, investir na emoção.

- “Seja minha menina, só minha, bailarina. Sou um triste pierrô mal-amado, mestre-sala desacompanhado...”
- “É, só eu sei quanto amor eu guardei, sem saber que era só pra você.”

Declarar-se sem pudor, sem medo da tal felicidade.

- “Meu coração tem manias de amor. Amor não é fácil de achar. A marca dos meus desenganos ficou, só um amor pode apagar.”
- “Quando um coração que está cansado de esperar encontra um coração também cansado de esperar, é tempo de se pensar que o amor pode de repente chegar.”

Confessar, pedir, embrenhar-se na poesia como num mergulho em águas desconhecidas.

- “O nosso amor não vai parar de rolar, nem fugir e seguir como um rio, como uma pedra que divide o rio. Me diga coisas bonitas.”
- “Vem me fazer feliz porque eu te amo. Você deságua em mim, eu oceano. Esqueço que amar, é quase uma dor”
- “Amor, e o que é o sofrer para mim que estou jurado pra morrer de amor?”

E porque era hora, avançar o sinal, seguir.

- “Se você quer ser minha namorada, ah! que linda namorada, você poderia ser!”
- “A água é potável, daqui você pode beber. Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”

- “Eu quero te roubar pra mim, eu que não sei pedir nada. Meu caminho é meio perdido, mas que perder seja o melhor destino.”
- “Fundamental é mesmo o amor.”

É certo, pensou Paulinho. Mesmo assim queria tirá-la daquele lugar, feito Odair José. O ciúme era uma dose de uísque brega e quente que rasgava o peito.

- “Marina, você faça tudo, mas faça um favor: não pinte este rosto que eu gosto, que eu gosto e é só meu. Marina, você já é bonita com o que Deus te deu.”
- “Não fazes favor nenhum em gostar de alguém, nem eu, nem eu, nem eu. Quem inventou o amor não fui eu, não fui eu, nem ninguém.”
- “Se não eu quem vai fazer você feliz?”

Ficam um tempo em silêncio, como se não houvesse mais melodia no ar. O bar esvaziando aos poucos, devagar. Por fim só ele naquela mesa, o último boêmio. Marina sentada ali perto, quedada de tanta labuta, como a Tereza Batista Cansada de Guerra. Olham-se com a plenitude da alma e os olhos do querer. Lá nos fundos do bar o cantor de MPB sabe que é preciso tocar a última canção, aquela que compôs especialmente para os dois: “Marina e Paulinho”, violão e voz.

Então Paulinho se levanta, feito um bailarino imprevisível, e toma Marina nos braços, e eles dançam, dançam por toda a eternidade daquela música.













Postado por Jaime Ambrósio às 08:47 | Marcadores: Mpb   Pierrô   Boêmio  

Sexta-feira, 21.01.2011 Pérolas nas Areias das Praias

O PRIMO DE LÁ E O PRIMO DE CÁ
- Que baita rio, primo!
- Não é rio, primo, é mar.
- Não faz mar, é baita do mesmo jeito.
- Se tu dix... Agora vamos beber uma boa gelada.
- Primeiro uma marvada quente, primo, purinha. Eta nóis!

UM CARA OTIMISTA
Decidiu contrariar a previsão do tempo, que anunciava céu encoberto, e foi à praia assim mesmo, sem sol, fugindo da mesmice e do ócio. Arrumou a cadeira, sentou de frente pro mar e o infinito, abriu uma latinha e concluiu que aquilo sim é que era vida boa. Mar, gaivotas, barcos, ilhas... Mas cadê as mulheres? Não fosse por isso: tirou a última Playboy de dentro da mochila e começou a ler as fotos, admirando cada palavra...

A CARA DO OUTRO, O PESSIMISTA
- Se você quiser, Gisele, a gente vai pra praia, mas tá nublado, pode chover.
- Nem tanto, vai abrir. E o importante é sair de casa, pra não mofar.
Foram. E choveu justamente quando estavam instalados na areia. Carlinhos com cara de “viu-eu-não-falei?” começou a arrumar as coisas (pra voltar), vitorioso. Mas choveu rapidinho, logo parou. E saiu o maior sol. Carlinhos com cara de...
- O sol tá muito forte, Gisele!
- Vem aqui que eu passo o fator 30 – ela, vitoriosa.
- Pode dar uma insolação, câncer de pele. Não viu aquela reportagem na TVBV?
- Vi, mas não se preocupe, eu trouxe também o fator 50. Vai mergulhar, vai.
- Com essa água fria?
- Fria? Tem caipirinha ali na barraca do milho, pra esquentar.
- Depois de ontem à noite? Maluca!
Até que chegou a hora de Gisele explodir, sem TPM mesmo, porque paciência tem limite.
- Vai, Carinhos, vai comer a macarronada da tua mãe! Mas eu vou ficar, faça sol ou faça nuvem. E vai de ônibus, “filhinho”, porque o carro é meu!

VAI UM PROTETOR AÍ?
O garoto, cheio de ginga, tatuagem e conversa, achava que havia descoberto a fórmula infalível de “ganhar” as meninas do sol e mar. Simples: é só se aproximar e pedir para que uma delas faça a “gentileza” de passar a loção nas costas, do cara, claro. A partir daí rola um papo legal, uma amizade instantânea, troca de telefones, etc.
O tal garoto, munido de muita confiança, dirigiu-se às três beldades incrustadas na areia fofa. Estendeu o tubo de creme e engatilhou a artilharia verbal. Houve um silêncio geral como resposta, enquanto surgiam três surfistas “bombados” que estavam na barraca ao lado comprando água e cerveja. A “gentileza” foi toda deles.
- Deixa que eu passo, brother.
- Eu ajudo.
- Também tô nessa.
No nariz e na boca é suportável. O problema é nos olhos, dá um belo dum ardume, uma irritação danada, uma coceira dos diabos...

A QUESTÃO DO ACENTO
A professora de português, que já é conhecida de alguns leitores daqui, vai comprar água de coco. Então percebe, de novo, que na propaganda da barraca CÔCO está assim, com o maldito acento circunflexo.
- Um COCO, moço, mas, por favor, sem o “chapeuzinho”, que é errado.
O vendedor, um pouco contrafeito, tira o boné da cabeça, dizendo que o freguês é quem manda.





Postado por Jaime Ambrósio às 09:38 | Marcadores: Jaime Ambrosio  

Terça-feira, 01.02.2011 Pai e filho futebol clube

Mais bonito que bola na rede é a presença de crianças nos estádios. Elas dão um brilho especial aos jogos, são espontâneas, etc. Claro, os adultos que as conduzem precisam ter uma certa paciência, posto que, por natureza, elas são exímias fazedoras de perguntas, além de eternas famintas. A primeira vez de uma criança num estádio de futebol é inesquecível, para ambos os lados. Por exemplo: papai Eduardo e seu filho Dudu.
Chegam descontraídos, camisa e boné do Figueira, mãos dadas. Um dos policiais revista Eduardo, que traz o celular e o radinho de sempre, nada fatal.
- Pai, porque ele não me revistou?
- Porque você é uma criança...
- E se eu tivesse uma arma escondida?
- Tá bem, vou pedir pra ele te revistar.
- Por quê? Eu não tô armado!
O menino quer pipoca e coca, que é pra rimar; Eduardo quer cerveja, mesmo que seja sem álcool, mas gelada. Procuram a fileira, os números. Sentam.
- Vai ter desfile da Coloninha, pai?
- Não, Dudu. É o batuque da Gaviões, a torcida organizada.
- Organizada? Mas tá todo mundo pulando que nem doido.
- É assim mesmo.
Entra o famoso trio de arbitragem.
- Por que tão chamando o juiz de ladrão se o jogo nem começou?
- É assim mesmo.
- Depois eles vão xingar a mãe dele?
- Talvez. E vê se come a pipoca.
- Por que eles não ligam aquela TV?
- É o placar eletrônico, Dudu, que dá o resultado do jogo.
Os jogadores entram. Aplausos, fogos, assobios.
- A festa não tem que ser depois que o time ganha?
- Também.
Começa o espetáculo, a gorduchinha rola, pois é redonda. Logo vem o primeiro quase-gol do Furacão, depois outro, mais um quase-gol.
- Pai, preciso fazer xixi.
- Espera o intervalo.
- Não dá.
Pai e filho desaguando. Eduardo com o radinho numa das mãos. Gooool!!! Pensa em sair correndo, mas deduz que nunca chegaria a tempo de rever o lance, não tem telão. Dudu empolgado também.
- Eu dei sorte, pai, saiu o gol porque a gente veio fazer xixi.
- É, pode ser.
No segundo tempo vem o empate. Na sequencia uma bola na trave adversária (que joga contra) e um pênalti não marcado (pelo juiz do contra).
- Ó, pai!.. Tão mexendo com a mãe do juiz.
- É assim mesmo. Agora vamos fazer xixi de novo.
- Mas eu não tô com vontade.
- Não importa, Dudu? Vamos!!!





Postado por Jaime Ambrósio às 11:10 | Marcadores: Coloninha   Figueira  

Quinta-feira, 03.02.2011 Tainha e Costelão

Era uma vez, em algum lugar na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, uma moça muito bonita chamada Tainha e um gaudério pilchado que atendia pelo nome de Costelão. Ela, toda escamosa e figueira (corrigindo: fagueira); ele, cheio de si, no más, trazendo um lenço colorado no pescoço, botas até o joelho e um grande bigode pendurado nos beiços. Era o advento da tradicional Festa Campeira e do Colono, um encontro da cultura e da gastronomia dos dois estados.
Maria Tainha, que sabia preparar frutos de mar como ninguém (especialmente o peixe que lhe dera o nobre apelido), veio do Pântano do Sul a convite dos organizadores. Queriam incorporar àquela festa a comida típica do litoral catarinense. Costelão, filho de um criador de gado, tinha a fama de ser o maior churrasqueiro das estâncias.
Quis o destino que a barraca dos dois ficassem lado a lado, confundindo o cheiro da carne assada com o dos pratos da famosa Ilha de sol e mar. Mas a fumaça do fogo de chão já começava a incomodar a moça, pouco adepta da tal carne exagerada. O gaucho, pra desfazer a fama de grosso, tratou logo de iniciar uma prosa com a bela vivente. Apresentou-se.
- Costelão, ao seu dispor.
- Brigada, inda num tô com fome.
- Eu, me chamo Costelão.
- Ah!... Eu sou Tainha do Pântano.
- Prazer!
- Nem tanto. Esse incêndio aí vai demorá muito? Não é o caso de chamá os bombeiro?
Não foi muito interessante o início da conversa, claro.
Costelão ligou o aparelho de som, música gauchesca daquelas de “animar até defunto”. Depois de quase meia hora Tainha resolveu intervir.
- Ô nego! Não tens aí o Daza, Swing Manero, Tijuquera ou aquele maluco, o Agostinho das latinha?
- Quem, quem ?
- Ihhh! Pelo jeito não conheces nada mesmo. Abaxa o volume, fazendo favô.
O gaudério matutou lá consigo: “É de chinoca assim que eu gosto, um pouco difícil, coxuda que nem leitoa no engorde e mais bonita do que laranja de amostra”. E tratou logo de fazer um agrado, tirou uma lasca de alcatra, cortou em pedacinhos e levou para a vizinha impaciente. Que aceitou, pois não era de seu feitio recusar uma gentileza. E não é que o aperitivo era do bom mesmo?
- Já comesse ova? (perguntou Tainha)
- Ovo? Já.
- Não!... Ova?
- Não.
- E berbigão ensopado?
- Também não, prenda.
- E lula?, marisco?, ostra gratinada?, sopa de siri?, camarão na abobra?
- Camarão, sim, no espeto.
- Tens muito que aprendê no litoral, nego.
E ela nos pampas. Na manhã seguinte ele a levou para conhecer a invernada e a fazenda dos pais. Tainha ficou por lá três dias, montando em cavalo, tomando chima, comendo carne seca e outras carnes churrasqueadas. Depois disso Costelão acompanhou-a até o Pântano do Sul, iria visitar a família dela.
No fim das contas ficou tudo misturado, picanha na brasa com pirão de peixe, moqueca de cação com paleta de cordeiro assada, e por aí. E assim, na desordem dos sabores, engordaram e viveram felizes...





Postado por Jaime Ambrósio às 17:58 | Marcadores: Chinoca   Vivente   Ova   Moqueca   Pirão  

Sábado, 12.02.2011 O espirro

Em qualquer lugar ou situação ele é um atraso de vida, com sua repetência irritante e seu borrifo escandaloso. Já houve jogador de futebol com torcicolo, velhinha que perdeu a perereca (voou), e até cabra macho que terminou a empreitada antes do tempo, sobressaltado. Já, amor?

Mas no trânsito a coisa pode ser ainda pior. Um espirro não mede as conseqüências mecânicas. Paulo Alexandre (professor de português, de cursinho) dirigia o carro com a calma de sempre, cuidadoso, diminuindo a velocidade na faixa de pedestres, deixando a moça bonita passar, também o velho carregando a sacola de compras. A rigor, um bom motorista. Mas aconteceu, e a gramática não explicou. Maldito resfriado! O espirro veio incontrolável, absoluto como Deus. Não deu tempo de tirar o pé do acelerador, pelo contrário, o motorista atordoado pisou ainda mais fundo. Pá-plac!, a onomatopéia da barbeiragem.

Desceu do carro, desceram; tentou se desculpar, dizendo que o problema foi o espirro. O quê? Espirro? Isso mesmo (irônico, para disfarçar o nervosismo): esternutação (?), jato, esguicho, borrifo, expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada pela irritação da mucosa nasal.

Antes de a vítima, do trânsito e do léxico, tentar uma reação chula e braçal, o policial interveio.

A vítima: “Não quer explicar ao guarda o negócio do espirro?”

Paulo: “Que espirro?”

O guarda: “Não explica nem justifica, bateu atrás é culpado”.

O professor descansou a gramática, de nada adiantaria dizer ao PM que a culpa foi de um espirro autoritário, inculto. Ora, bateu atrás o seguro paga, conformou-se. Aliás, deveria haver, isso sim, um seguro contra espirro. Por que não? Acertou os conformes e entrou no carro, que agora teria que ficar alguns dias parado na oficina. Tudo por causa de um espirro lazarento...Então parou numa farmácia e comprou uma tonelada e meia de vitamina C efervescente, aspirina, antigripal e outros medicamentos que previnem acidentes de trânsito.





Postado por Jaime Ambrósio às 23:16 | Marcadores: Léxico   Borrifo   Esternutação   Mucoa   Lazarento     

Quarta-feira, 09.02.2011 Amor e futebol

Juliana ama Nano, que ama Juliana, que era avaiana, assim, como uma rima teimosa. Agora Juliana torce pelo Figueira, igualzinho ao Nano. É que antes estava complicada a relação dos dois, a ponto de o amor querer desmoronar, gol após gol. Quando a TV passava algum jogo do Furacão, Nano não dava bola nenhuma pra Juliana, porque a bola corria era lá no gramado, redonda, incerta. Juliana ficava secando, secando, enquanto fingia fazer as vinte unhas. Por outro lado, quando a telinha mostrava alguma partida do Leão (que urra, urra, urra...) Juliana não ligava, obviamente, para as investidas dele (do Nano, claro), que ficava secando, secando, enquanto fingia ser o Rodrigo Santoro do Estreitcho.

E os jogos na capital? Nano no Scarpelli, livre e solto como os quero-queros lá no gramado; Juliana de ressaca na Ressacada, à mercê dos aviões que voam mais ao alto. E os clássicos? Cada um no seu canto, no seu quadrado, cantando versos de amor ao próximo:

- “Aí, aí, aí...”

- “Eira, eira, eira!...”

Por tudo isso Juliana, numa decisão extremamente difícil e dolorosa, arbitrada pelo coração (e auxiliada pelo cérebro), virou a casaca, trocou as cores , o hino, os percursos, etc. Antes isso do que a dor da separação, avaliou ela. Duda, grande amigo de Nano, e Figueirense roxo de tanto alvinegro, não deixou por menos:

- Viu?, o amor nem sempre é cego, às vezes enxerga muito bem.

Mas tem casos em que a torcedora prefere perder o namorado a trocar de time. Tem torcedor idem. E tem os que acreditam que a prevenção ainda é o melhor remédio. Por exemplo, o Carlinhos conheceu uma certa garota e tal. Dançaram, beijaram-se, ficaram-se. Pouco sabiam um do outro, o que importava era a atração que estavam sentindo, certo? Até que o rapaz resolveu fazer uma pergunta, uma perguntinha apenas, aparentemente ingênua, despretensiosa:

- Ei, gata, qual é o teu time do coração? O da Ilha ou o do Estreito?

- Sou Avaí, claro!

Carlinhos levantou-se (estavam sentados) feito um tufão, um furacão enfurecido, um Catarina desenfreado. Saiu sem ao menos pagar a conta, que fiou por conta dela, que ficou por conta.

- Amor e futebol têm dessas adversidades. Nada como a rotina de seu Alberto e dona Carmem, que torcem pelo mesmo time há muito tempo e por isso não travam nenhuma discussão durante as partidas: seu Alberto gosta de ir ao estádio; dona Carmem prefere ouvir o jogo em casa, no rádio que ganhou de aniversário.





Postado por Jaime Ambrósio às 09:31 | Marcadores: Furacão   Estreitcho   Figueira   Avai  

Quinta-feira, 30.08.2012 Bingo!

Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar . Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo, mãe.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais alegre, passou um perfume e raspou o bigode ralo que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. O nome é Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 21:18 | Marcadores: Zona   Bingo   Roleta  

Terça-feira, 15.02.2011 O roubo da vaca


Pedro Monteiro da Silva foi quem registrou a ocorrência na DP de Canasvieiras. Roubaram a vaca Princesinha que estava no seu cercado (dele, mas da vaca). E ainda: o animal foi visto, depois, no pequeno sítio de Eldo Silveira. Pronto, estava iniciada uma confusão se fim.

Eldo, chamado a depor, contou que havia comprado a vaca de Argemiro Antunes, que disse ter feito negócio com Haroldo Arnoldo, que confessou ter dado a Nicanor Bernardino duas cabras e uma bicicleta velha em troca do bicho. Este último (não o bicho, Nicanor), assegurou ao delegado que a vaquinha, em verdade, era cria de Chico Farinha, quer dizer, de uma vaca dele.

O delegado Jofre Simão, que não gostou muito daquela história matreira, mandou chamar todo mundo. Seria assim uma espécie de acareação coletiva. Deu pior a emenda: teve que agüentar muita discussão e troca de xingamentos. Nenhum acordo sobre o animal. Quem seria acusado de roubo e quem ficaria com a vaca? Por enquanto ela permaneceria na propriedade de Eldo Silveira, por enquanto. Mas como encaminhar o inquérito? Não havia flagrante, nem provas, nem qualquer documento de posse; havia uma denúncia. O delegado liberou todos, assegurando, porém, que iria descobrir quem era o ladrão.

Mas no dia seguinte Pedro Monteiro retornou à DP.

“Dotôri, o senhor retira a queixa porque nóis já acertamo tudo. Vamo matá o bicho e fazê um surrasco no sábado.”

Caso encerrado, ou quase.

Ninguém viu, só dona Lurdinha, madrugadora das antigas, que ficou de bico calado. Neco Viriato estava de partida, iria morar numa encosta de morro lá em Santo Antônio e fabricar queijo colonial e ricota. Como o caminhão do compadre Vieira tinha uma grande carroceria e a mudança de Antônio era coisa pouca, o plano deu certo. O bacuri Pedrinho, ainda sonolento, foi até o sítio ali perto, amarrou uma corda no pescoço da vaca, que não reagiu nem nada, e a levou até o pai, dele. Deu um pouco de trabalho fazer a Princesinha subir pela rampa improvisada, mas valeu a pena.

Não para Eldo Silveira, obrigado a dormir e acordar sempre com a mesma pergunta:

“ Cadê a vaquinha? Cadê ? ”





Postado por Jaime Ambrósio às 21:58 | Marcadores: Santo Antônio   Canasvieiras   Bacuri  

Sábado, 19.02.2011 Causos e ditos da Ilha

Um lanço grande de tainha é um mundo de peixe, disse o Zé da Rede, senhor da pesca e das frases arrumadas. Um mundo de peixe. Como lá na infância, no açude da usina. Passado e presente. Antônio olha para a alegria dos pescadores, se identifica com aquele menino que ajuda na arrumação da pescaria, que deixa uma ou outra tainha escorregar das mãos, que ri de um peixe esquisito e vermelho, perdido ali...

Antônio estava encantado com a nova experiência vocabular e com o perfil descontraído e gozador dos pescadores, que adoravam contar histórias. Então descobriu um punhado de livros que explicavam a descendência açoriana deles, outros dicionários com os termos e expressões mais comuns daquele universo ilhéu. Devorou rapidamente cada página, fez anotações, repetiu palavras. E não foi só. Também comprou um pequeno gravador, que usava no bolso da jaqueta jeans sem manga ou do bermudão de linho. Espionagem léxica. Em casa ouvia de novo as histórias do bar e verificava as falas que ainda não conhecia. Estava quase se saindo um manezinho de ocasião. A cada dia ficava mais parceiro com os nativos: Zé da Rede, Chico Farinha, Osvaldir, Miltinho, Véio Chulapa, Alvina, Seu Cardoso, Zeferino do Bode, dona Lurdinha, Pedro Dionísio, Nego da Zulma, Cajurino, Vaguinho...

E não é que meio sem querer-querendo Antônio presenciou, com aqueles ouvidos que Deus lhe dera, uma arenga entre duas mulheres que disputavam o mesmo pescador? Rapaz sortudo o Vaguinho.

- Sua lambisgóia entojada, pode tirá o cavalinho da chuva! O Vaguinho é meu e num tem pra ninguém mais. Ouvisse?
- Ó-lhó-lhó! Tás tola, amiga? E antes que máli lhe pergunte, quem foi que deu o primeiro beijo no Vaguinho, lá na festa do marisco?
- Désse outra coisa, isso sim, pissirica!
- Bisca!
- Disgramada!
- Miserenta!
- O vaguinho nunca vai me trocá por uma ranhenta que nem tu.
- Sai pra lá, somgamonga despeitada!
- Eu te acarqueto os óio!
- Vai te cagá, tranqueira!
- Vou te dizer-te uma coisinha pra ti!
- Não me intisica que eu te quebro os cornos!

Antes de as duas se engalfinharem por amor alguém chega como quem é rei da Ilha, o próprio Vaguinho.

- Guinho?!
- Amôri?!
- As duas parem já com essa palhaçada!
- Então decida entre eu e essazinha aí!
- Nenhuma. Agora eu tô com a Gi.
- A Gi da padaria? Aquela broa sem gosto?
- Ela mesmo!... Sem gosto, não!
- Ô essa menina! Vem comigo, vamo comprá sonho com doce de leite.

As duas em direção à padaria, Vaguinho atrás. Rapaz de sorte esse Vaguinho.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:13 | Marcadores: Léxico   Bermudão   Ilhéu  

Quarta-feira, 16.02.2011 Bingo!

Na missa ele ficava com um olho no padre, outro na Bernadete. Ela mais devota, só de vez em quanto pendia o olhar na direção de Alfredo, que nunca tivera coragem de sentar-se perto da moça. Coisa feia, sussurrava a mãe. O que, mãezinha? Ficar prestando atenção em rabo de saia na casa de Deus. Que nada, que nada. Um dia, na hora do Corpo de Cristo, ficou na fila da hóstia logo atrás de Bernadete. Conseguiu sentir, pela primeira vez, o perfume dela, suave, irresistível, profano. Depois da hóstia ela voltou-se para retornar ao banco e cruzou com Alfredo, estático, trêmulo. Seus olhares cumprimentaram-se rapidamente, selando ali uma promessa talvez. No final da missa o padre anunciou que a reforma do pavilhão da paróquia estava concluída e que no próximo sábado haveria um bingo beneficente para festejar o acontecimento. Que coisa boa, mãezinha! O que, filho? O bingo.

Tinha certeza de que ela iria, por isso colocou uma roupa mais leve, borrifou um perfume e raspou o bigode ralo, que nada lhe acrescentava.

Ele e a mãe. Atrasados, o bingo andando. Compram as cartelas, sentam. Esperam a próxima rodada. Enquanto isso Alfredo procura por Bernadete. Consegue localizá-la, mas ela não o vê. Começa um novo sorteio. Alfredo com um olho na cartela, outro em Bernadete. A mãe atenta a tudo, marcando os números dela e conferindo os do filho.

- Bingo!
- O que foi?
- Você ganhou. Vá até lá.

Ficou parado por alguns segundos. Tinha medo de pagar mico na presença da moça. E vai que algum número esteja errado? Relutou um pouco, mas dada a insistência da mãe levantou-se e foi até a roleta. Estava tudo certo. Alfredo voltou para a mesa com uma galinha recheada. Agora Bernadete sabia onde ele estava, mas também não quis se aproximar, porque tinha medo da mãe de Alfredo. Alguns minutos depois o rapaz recebeu um bilhete trazido por um dos festeiros: “Não vais me convidar para comer o frango?” Assinado: “Euzinha”. A mãe quis ver o papel, ele não deixou; ela o apanhou.

- Quem é ela?
- Não sei. Euzinha.
- Deve ser aquela que você tanto olha na igreja, só pode. Pelo menos é de família?

Alfredo pensa numa maneira de falar com ela, mas lhe falta a mesma coragem de sempre. E se respondesse ao bilhete? Não com a mãe por perto. O bingo termina, os dois se olham mais uma vez, e só.

Era filho único e já tinha idade para estar casado, cheio de outros filhos, mas até então nunca se aproximara de fato de uma mulher, a não ser das quengas lá da zona, e mesmo assim levado pelos amigos. Mas isso não conta, não diminui o seu pavor de tentar uma conquista. Ou diminui? Na verdade a mulher da vida dele tem sido a própria mãe, viúva e extremamente protetora, que o acompanha em qualquer evento social, aqueles tradicionais, porque danceterias e bares noturnos nem pensar, nem pensar de Alfredo ir. Ele que podia não ser um galã de novela, mas estava longe de ser feio. Algumas garotas já haviam se interessado, mandando recados por outras ainda, mas nada, algo travava as pernas e embotava o cérebro na hora de tentar algum gesto de galanteio. A mãe, a despeito de toda a soberania, também desejava ver o filho arranjado, desde que não fosse com qualquer uma. Tinha medo sobretudo das interesseiras, visto que Alfredo, financeiramente, já estava com a vida encaminhada. Então, mesmo sabendo que correria algum risco, decidiu levar o filho a uma psicóloga conhecida. Na quarta sessão ela descreveu o diagnóstico: a mãe. Era preciso eliminá-la. Matar a mãe? Talvez a psicóloga não tenha sido clara o suficiente, pois Alfredo entendeu a sentença de maneira literal, não psicanalítica.

Matar a mãe? Alguém pode matar a própria mãe? E como é que se mata uma mãe? De fato, e pensando melhor, a coroa realmente estava sendo um problema para ele, que nada podia fazer sem o consentimento dela. Até as cuecas era ela quem comprava. E agora queria decidir sobre a vida amorosa dele, que nem existia ainda. Mas Alfredo não teria coragem de dar um tiro quando ela estivesse dormindo, muito menos uma facada. Veneno é coisa da Idade Média, agora só é usado para matar ratos e cachorros. Não, nunca mataria sua mãe, embora a solução pudesse ser essa.

Foi o que disse para a psicóloga, que levou um grande susto. Alfredo, eliminar a mãe não significa matá-la concretamente, mas sim deixar de ser dependente dela; significa você seguir os seus anseios livremente, sem nenhuma amarra, sem ninguém querendo decidir qual caminho você deve trilhar.

- Bingo!

Assim se desvencilhou da mãe, radicalmente. Se ela ditasse uma regra, ele criava outra. Na missa ia sozinho, no bingo também. Já conversava com as garotas, especialmente com Bernadete, com quem começou a namorar em seguida. Não demorou muito e os dois noivaram. O casamento também veio logo, junto com o primeiro filho.

Foram morar num apartamento grande, no centro, vista para o mar. Mas Bernadete, que tinha várias qualidades como mulher, não era boa de cozinha. Então Alfredo, que já sentia um certo remorso com relação à mãe, convidou-a para morar com eles. A mãe sabia fazer uma comidinha caseira como ninguém.





Postado por Jaime Ambrósio às 20:56 | Marcadores: Hostia   Bingo   Missa  

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